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5. Sinótico de Mateus

6. Sinótico de Lucas

7. Atos dos Apóstolos

Bibliografia





O cânon neotestamentário começa com Mateus, o que sinaliza sua importância para a igreja primitiva. Somente em Mateus Jesus fala sobre sua ekklesia, ―igreja (do grego: assembleia dos cidadãos ―convocados a deliberar um assunto). Jesus construirá sua igreja sobre Pedro, a ―rocha; este e a igreja como um todo recebem o poder de ― ligar e desligar — (16.18; 18.17).

No AT grego, “ekklesia” refere-se ao Israel ― chamado; no evangelho de Mateus, a igreja de Jesus, separada do povo judeu.

De acordo com Mateus 27.25, todo o povo judeu assumiu a culpa pela morte de Jesus ao amaldiçoar a si mesmo (Terrível condenação). Para Mateus, essa profecia cumpriu-se na Guerra Judaica. Os “Ais’ contra os fariseus (23.13) são dirigidos ao judaísmo pós-guerra, no qual já não havia mais lugar para os seguidores de Jesus.

Mateus registra que Jesus tinha sido enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel (10.5 e 6; 15.24), e enfatiza com a mesma clareza que isso é passado.

Assim como mais tarde seus discípulos (10.25), fracassa com seu povo. A compreensão vem depois do Jesus Ressuscitado, e Ele envia seus discípulos a todas as nações (28.19).

Mateus recorreu a textos de Marcos e da fonte Q para mostrar como a mensagem de Jesus continua válida nestas condições. Partindo do material discursivo dos textos-base, Mateus compôs cinco discursos, organizados de acordo com as situações da vida de Jesus.

Os Cinco Discursos

1. O Sermão da Montanha (cap. 5.1-7.29) é, por assim dizer, a constituição de Jesus. Podemos entender como uma síntese do Evangelho.

2. O discurso de envio (cap. 10) se segue a dez relatos de milagres; Jesus primeiro encoraja seus discípulos, depois os envia.

3. O discurso das parábolas (cap. 13.1-53) liga os textos que falam de um Jesus humilde nas lutas e perigo e os textos que falam de como o reino de Deus se impõe de maneira irresistível, ainda que oculta.

4. No discurso sobre a igreja (cap. 18), antes de deixar sua terra, a Galileia, Jesus apresenta à sua ekklesia o compromisso da ―fraternidade‖.

5. Depois do discurso sobre o final dos tempos (cap. 24) vem o relato da paixão.

Mateus conecta os ensinamentos cristãos à história da vida de Jesus e, com isso, também a lei veterotestamentária com a qual Jesus viveu. Em Mateus, fala o judeu Jesus de Nazaré, aquele que cumpre a lei. Só que ele exige mais do que fidelidade a lei. As obras de seus discípulos deviam mover as pessoas (isto é, todos os povos) a louvar a Deus, “O Pai” de Jesus Cristo (5.16).  Com isso, Mateus atualiza uma esperança do AT: — aos cristãos que sobreviverem à Guerra Judaica devem considerar-se como os que escaparam e, em Is 66.19, são convocados a anunciar a glória de Deus às nações.

Os destinatários de Mateus são cristãos que queriam continuar sendo judeus, mas que se viram obrigados a buscar sua pátria na própria ekklesia. A figura da transferência de domínio, com a qual Mateus traça uma nítida fronteira entre judeus e cristãos, vem da literatura apocalíptica judaica: “o reino será dado a outro povo fiel” (Dn 7.14; Mt 21.43).

Mateus contempla a obra de Jesus diante do horizonte da história mundial.

O passado é a história de Israel e o que Jesus fez por Israel;

O presente é a igreja das nações;

O futuro é o juízo final.

Na obra de Jesus, estes três períodos de tempo se encontram.

Expressam essa sobreposição com jogos de palavras baseados nas Escrituras; as esperanças veterotestamentárias encontram seu alvo na vida de Jesus, e assim também preparam as missões aos povos, anunciadas no AT. Por ex.: Mateus 12.17ss dá um novo sentido à ordem de silêncio dada por Jesus, extraída de Marcos, citando Isaías 42.1ss: em silêncio, Jesus age como o servo de Deus em quem os povos terão esperança.

O prólogo (Is) interpreta a vinda de Jesus como o alvo da história de Israel:

O epílogo que Mateus agrega ao material de Marcos dirige o olhar para o momento em que surgirá de todos os povos uma igreja na qual Jesus estará presente (28.20). Durante a história de Jesus, Mateus também dirige o olhar várias vezes para esse tempo.

Na narrativa do juízo final do mundo (25.31ss), Mateus explica que, no final das contas, a única coisa que importa é que o ser humano exerça a compaixão em relação aos outros seres humanos. Ele ensina a esperar por Jesus como o “Filho do homem”, que convida para o reino preparado desde o princípio também as pessoas que não o conhecem.

Esse Evangelho se caracteriza como uma instrução narrativa sobre a vinda do reino dos céus, que deve restabelecer entre os homens a autoridade suprema de Deus como rei, por fim reconhecido, o que havia sido preparado e anunciado pela Antiga Aliança.

Assim, Mateus, escrevendo para uma comunidade de cristãos vindos do judaísmo, procura mostrar o cumprimento das Escrituras na pessoa e na obra de Jesus. Em seu relato, ele resgata as lembranças dos ensinamentos dos patriarcas e a tradição do Antigo Testamento, para provar como a Lei e os profetas são cumpridos na figura de Jesus, como, por exemplo, na passagem em que ele resgata a memória da descendência de Davi, filho de Abraão (1.1-17). Ou, ainda, nas palavras de Jesus que ―realiza a Lei: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, por que em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado. Aquele, portanto, que violar um só desses menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino dos Céus. Aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus.” (Mt 5.17-19.21)

Para Mateus, Jesus é o Filho de Deus, dotado de autoridade divina sobre o Reino de Deus, tanto nos Céus como na terra. O título Filho de Deus aparece em momentos decisivos da narrativa, como no batismo.

Nesse tempo, veio Jesus da Galiléia ao Jordão até João, a fim de ser batizado por ele. (…) Batizado Jesus subiu imediatamente das águas e logo os céus se abriram e ele viu o Espírito Santo de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele. Ao mesmo tempo, uma voz vinda dos céus dizia: “Este é o meu filho amado, em quem comprazo”. (Mt 3.13-17).

O nome Filho de Deus, presente nos evangelhos sinópticos, aplicado a Jesus de Nazaré significa o Rei de Israel. Na tradição política religiosa israelita e no hebraico, este termo designa o monarca, o rei, e a partir do momento em que ele subia ao trono, era ungido com óleo de oliva, se tornando o ungido, o representante de Javé diante do povo eleito. O termo “Christos” “Χρήστος”, em grego traduzido do hebraico Mechiah, significa o ungido, isto é, o Rei de Israel. Portanto, Jesus Cristo, significa Jesus, o Ungido, ou Jesus, o Rei de Israel.

O primeiro evangelho na ordem do NT foi o que mais influenciou a história da igreja cristã. No século II ele já era conhecido em todo o cristianismo. Formava a base para a instrução sobre as palavras e a vida de Jesus Cristo. Por essa razão, era lido nos cultos e servia de orientação no preparo dos candidatos ao batismo. No evangelho de Mateus era também baseada a proclamação sobre as palavras de Jesus. Mesmo que ao longo da história da igreja os outros evangelhos tenham crescido em influência, o evangelho de Mateus continuou com a preeminência. Afirmações sobre a pregação de Jesus se orientam ainda hoje primeiramente por Mateus; pois contém o Sermão do Monte, as parábolas sobre o Reino de Deus, as orientações de Jesus para sua igreja e o discurso sobre o juízo final.

Sendo assim, o evangelho é caracterizado pelas grandes sequências de discursos, que definem também a estrutura do evangelho e sua divisão.

Afirmações-chave

—Vós sois o sal da terra … . Vós sois a luz do mundo. Mateus 13a, 14a

—Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus. Mateus 10.32-33

—Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. Mateus 28.18b-20

A comparação com o evangelho de Marcos faz aparecer de forma especial as características de Mateus. Em vários lugares Mateus registra as perícopes de forma mais abreviada do que Marcos. Isso é evidente, por exemplo, no relato sobre a morte de João Batista (Mt 17.14-21 / Mc 9.14-29).

A característica mais importante do evangelho de Mateus é a sequência de discursos, que terminam sempre com palavras semelhantes no seu conteúdo: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, …” (7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). Isso dá a impressão de que o autor reuniu os discursos de Jesus em sequências temáticas. Essa impressão é reforçada pelo fato de que Lucas reproduz esses mesmos discursos de Jesus, só que em outros contextos. Para Mateus esses discursos de Jesus eram tão importantes, que ele atribuiu peso especial a eles ao relatar sermões interligados entre si por um tema comum.

A estrutura deste evangelho demonstra que Mateus deu valor superior ao ensino de Jesus do que Marcos. No entanto, ele não ignora os diálogos de Jesus com os seus conterrâneos, os judeus, nem os milagres de Jesus. Assim como Marcos, ele também os registra. Mas a marca especial de Mateus é o ensino de Jesus.

Salta aos olhos que Mateus pressupõe entre os seus leitores um certo conhecimento da situação em que se passam os eventos do seu evangelho. Ele não explica costumes, tradições e expressões idiomáticas dos judeus, como por exemplo o costume de lavar as mãos (Mt 15.2 / Mc 7.2s), os filactérios que eram usados no braço (Mt 23.5), as franjas nos cantos das vestes (fios e cordões em azul e branco que deviam lembrá-los dos mandamentos da lei (Mt 23.5). Ele registra expressões tão vívidas de Jesus como “coais o mosquito e engolis o camelo” (Mt 23.24) e “túmulos caiados” (Mt 23.27). Às vezes ele até usa expressões aramaicas transliteradas para o grego, como por exemplo raka, que significa tolo, idiota (Mt 5.22) ou korbanan, que é tesouro do templo (Mt 27.6).

— A questão do divórcio é formulada como os rabinos da época costumavam formulá-la:

―É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? (Mt 19.3). A resposta de Jesus é dada de forma semelhante: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério (Mt 19.9). Nessa dependência tão forte da religiosidade judaica, constatamos que a validade da lei não foi interrompida (Mt 5.19; 23.3). Até a forma de expressão é definida por essa dependência.

Em vez de falar do reino de Deus (como Marcos e Lucas) Mateus fala do reino dos céus (veja as parábolas sobre o reino dos céus). Marcos só cita o “pai que está nos céus” uma vez, enquanto Mateus fala dele 15 vezes (Mt 6.9; 7.11; 10.32s e outros). O que mais chama a atenção neste evangelho, além das sequências de discursos de Jesus, são as assim chamadas citações reflexivas. Nelas são mencionados acontecimentos da vida de Jesus na sua relação com o AT e as suas promessas “Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta Mt 1.22s, Mt 2.6s — Is 7.14

Mq 5.1,3; Mt 2.15 / Os 11.1; Mt 2.17s / Jr 31.15; Mt 3.3; Is 40.3; Mt 4.14-16 / Is 8.22-9.1; Mt 8.17 / Is 53.4; Mt 12.17-21 / Is 42.1-4,9; Mt 13.35 / Sl 78.2; Mt 21.4 / Is 62.11; Zc 9.9; Mt 27.9s / Zc 11.13; Jr 18.2s).

É evidente que Mateus quer demonstrar nessas citações que em Jesus se cumpriram as promessas messiânicas do AT: ele é o Messias de Israel.

Em que formas de vida da igreja primitiva este evangelho foi concebido? Em que situações foi usado e depois transmitido a nós? Em que contexto este evangelho surgiu? — Esta é a questão pelo Sitz im Leben[1] do surgimento do evangelho.

Na sua essência, o evangelho é um lecionário[2]. Assim denominamos os livros que registravam a vida e o ministério de Jesus para serem lidos nos cultos da igreja primitiva. O evangelho sinótico de Mateus, que se transformou então em um lecionário, destinado às leituras públicas nos cultos.

Como base para essa suposição, ele dá alguns argumentos: melhor estilo oral se comparado com Marcos, formulação mais resumida e mais exata, a repetição de fórmulas e as frases completas nelas contidas. Estas são, de fato, características do evangelho de Mateus. Mas não são, por si só, suficientes para provarem o seu uso litúrgico. Por essa razão, há ainda outras explicações da origem do evangelho.

O aspecto primeiro no evangelho de Mateus é o ensino sobre Jesus, ou seja, a cristologia. O que importa para Mateus é demonstrar que Jesus de Nazaré é o Messias prometido ao povo judeu. O objetivo das citações reflexivas é servir de prova para essa demonstração. Vemos esse aspecto também no título messiânico que só Mateus apresenta dessa forma: Filho de Davi (cf. 12.23; 15.22; 21.9,15). Salta aos olhos também, o fato de que a árvore genealógica em Mateus começa com Abraão, o homem com quem Deus iniciou a história de Israel (1.1ss). Segundo Mateus, se Jesus é o Messias, isso não significa que ele veio para abolir a lei, mas para cumpri-la (5.17).

Um segundo aspecto muito enfatizado se origina na tensão entre o particularismo e a universalidade (a salvação é para todos). Os dois elementos estão presentes lado a lado na proclamação e na vida de Jesus.

— O particularismo se mostra nas palavras de Jesus que reforçam a verdade de que o seu ministério se restringe a Israel.

— Aos doze discípulos que ele envia, ordena: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (10.5-6). Ele lhes promete que não conseguirão terminar essa tarefa até que venha o Filho do homem (10.23).

Semelhantemente, Jesus diz à mulher cananeia da região de Tiro e Sidom que lhe pede ajuda: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” E com mais exatidão: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (15.24,26). Essa segunda rejeição também Marcos registrou; a primeira só Mateus. Por outro lado, a universalidade está presente nesse evangelho desde o início. O nascimento de Jesus tem efeito sobre todas as pessoas, até os astrólogos lá do oriente.

Apesar deste Evangelho não indicar o seu autor, alguns manuscritos primitivos incluem a inscrição: “Segundo Mateus”. Eusébio (260-340 d.C.) nos conta que Papias (60-130 d.C.), um dos Pais da Igreja primitiva, falava de Mateus como tendo disposto os “oráculos” acerca de Jesus.  A tradição posterior é unânime em que o discípulo Mateus, também chamado Levi (9.9-13; Mc 2.13-17), foi o autor deste Evangelho, e até o século XVIII não havia dúvidas acerca dessa tradição.

Há alguns problemas com a tradição. 

— Em primeiro lugar, Papias aparentemente disse que Mateus “dispôs os oráculos no dialeto hebraico.”  Essa afirmação parece indicar que Mateus escreveu em hebraico ou em aramaico, e eruditos ressaltam que o livro de Mateus não dá indicação de ser uma tradução dessas línguas.  Esse livro é também muito parecido com o Evangelho de Marcos (ver “Introdução aos Evangelhos e Atos”), que certamente foi escrito em grego.  É possível que Mateus tenha escrito tanto em hebraico quanto em grego, assim como Calvino escreveu suas obras tanto em latim quanto em francês.

— Em segundo lugar, visto que Papias não mencionou “evangelho,” mas sim “oráculos,” alguns têm identificado esses “oráculos” como sendo uma das fontes que estão por detrás da escrita dos Evangelhos. Mas Eusébio parece ter entendido que “oráculos” significava “evangelho” e Irineu (180 d.C.) menciona um “evangelho” de Mateus escrito “para os hebreus em seu próprio dialeto”.

Outras objeções a respeito da autoria de Mateus são mais especulativas.  Alguns sugerem que o Evangelho possa ter sido o produto de um grupo de escritores (“escola”). Sua suposta dependência de Marcos e a suposta composição em data posterior (ver “Data e Ocasião”) são tidas como razões para se duvidar da autoria de Mateus.  Mas essas objeções não refutam a tradição de Mateus ter sido o seu autor exclusivo.

O fato do autor não ter se identificado demonstra que ele provavelmente achava que conhecer o seu nome não era essencial para os seus leitores. Trabalhando através do autor humano, havia o Autor primário, o Espírito Santo.

A referência mais antiga ao Evangelho de Mateus é provavelmente encontrada na Epístola aos Esmirneanos, de Inácio de Antioquia (110 d.C.).  Dificilmente se poderia datar esse livro como sendo posterior a 100 d.C.  Alguns estudiosos o têm datado até 50 d.C. Mas muitos críticos o datam depois da destruição de Jerusalém, geralmente entre os anos 80 e 100.  Suas razões incluem:

1º. — a suposição de que Jesus não poderia ter predito tais acontecimentos, como a destruição de Jerusalém;

2º. — a teoria de que a teologia trinitariana do Evangelho (28.19) e a cristologia exaltada (11.27) são ideias posteriores que se desenvolveram num ambiente helenístico,

3º. — a afirmação de que a palavra “Rabino” (mencionado em 23.5-10) não era usado como título antes do ano 70 d.C.

Algumas dessas razões, tal como a de que Jesus não poderia ter predito o futuro ou de que uma alta cristologia é helenística, portanto posterior, são altamente duvidosas e refletem uma rejeição à revelação sobrenatural. 

Além disso, há alguma evidência no contexto do livro, de que Mateus foi escrito antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.  O Evangelho adverte contra os saduceus, um grupo que declinou rapidamente depois de 70 d.C. e que, mais tarde, parou de existir.  A linguagem usada para descrever a destruição de Jerusalém no capítulo 24 reflete as profecias do Antigo Testamento acerca do julgamento divino que Jesus profetizou como parte integrante da vinda de seu reino. Não há nenhuma necessidade de explicar o conteúdo do capítulo 24 como sendo a lembrança de um acontecimento histórico do autor.

O escritor deste Evangelho provavelmente utilizou o Evangelho de Marcos.  Supondo-se que Marcos tenha sido escrito com a ajuda do apóstolo Pedro em Roma, uma data apropriada para Mateus seria entre 64 e 70 d.C.

O local mais provável para escrita do Evangelho é Antioquia na Síria, que também é o provável destinatário dela.  Inácio, o mais antigo escritor a citar Mateus, era bispo de Antioquia.  A congregação em Antioquia era de origem mista judaica e gentia (At 15), e isto explicaria os problemas de legalismo e antinomismo[3] dos quais Mateus trata de maneira especial.

Como todos os Evangelhos, o propósito de Mateus é o de transmitir os ensinos autoritativos de Jesus e de sua pessoa, cuja vinda marca o cumprimento das promessas de Deus e a presença do reino de Deus.  Mateus não faz nenhuma divisão entre História e Teologia. Sua História é a base de sua Teologia, e a Teologia dá o seu próprio significado a História.

Mateus faz uso intenso das referências de “cumprimento” do Antigo Testamento.  Suas citações não são apresentadas como predições e cumprimentos isolados, mas como prova do cumprimento de todas a promessas do Antigo Testamento.  Essa preocupação afeta a maneira pela qual Mateus enfatiza certos na sua história.  Ele mostra a ilegalidade das ações do Sinédrio durante o julgamento de Jesus (26.57-68), a distorção da mensagem do Antigo Testamento pelos escribas e fariseus (15.1-9), e a natureza pactual do procedimento de Deus para com seu povo.

Algo distintivo que também encontramos em Mateus é a sua apresentação dos ensinos de Jesus, divididos em cinco discursos principais: 

1º ética,

2º discipulado e missão,

3º o reino dos céus,

4º a Igreja,

5º o fim dos tempos. 

Essas cinco divisões podem ter sido baseadas nos cinco livros de Moisés, com o intuito de apresentar Jesus como sendo o Profeta, assim como Moisés em Dt 18.18. 

A maioria dos estudiosos hoje reconhece as cinco divisões de ensino como sendo a chave do modelo básico de Mateus, especialmente devido ao fato de cada discurso terminar com uma expressão como:  “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras” (7.28).  Além disso, parece existir uma relação entre cada discurso e a narrativa que a precede.  Também se nota que as porções narrativas lidam principalmente com a questão da identidade do Rei, enquanto que o material apresentado nos discursos tende a focalizar o povo do Rei.

Os estudiosos em geral concordam que tanto Mateus quanto Lucas se apoiaram no Evangelho de Marcos para escrever seus próprios Evangelhos (ver “Introdução aos Evangelhos e Atos”). Entretanto, Mateus e Lucas não seguem Marcos em todos os detalhes relativos à ordem dos acontecimentos da vida de Jesus, ou à ordem de seus ensinamentos. Mateus e Lucas têm algum material em comum não encontrado em Marcos, mas aí eles também diferem um do outro na colocação disso dentro do ministério de Jesus.

Para entendermos a cronologia dos Evangelhos, é importante notar que o relato de Marcos não é um diário completo.  João registra que Jesus visitou Jerusalém várias vezes durante um período de cerca de três anos, enquanto que em Marcos os acontecimentos são apresentados de maneira que parece terem ocorrido em um ano, terminando com uma única visita culminante a Jerusalém.  Em outras palavras, o Espírito Santo já havia guiado Marcos na seleção e na apresentação dos acontecimentos do ministério de Jesus de uma maneira particular. Mateus e Lucas, semelhantemente, foram guiados pelo Espírito na seleção e apresentação dos acontecimentos.

Os Evangelhos não apresentam apenas um quadro das atividades de Jesus, nem tampouco são apenas biografias técnicas e modernas, que seguem métodos desconhecidos em seus dias.  Os três Evangelhos Sinóticos são escritos pessoais e complementares; não são três tentativas incompletas de realizarem a mesma tarefa.  São livros espirituais que, juntamente com o Evangelho de João, oferecem a todas as gerações Jesus Cristo, a Palavra encarnada.



Lucas fala sobre a atuação de Jesus como um historiador da Antiguidade e como um professor que deseja convencer o leitor do valor perene de Jesus. Nos trechos em que não está preso a suas fontes, ele é de tal forma eloquente que vários temas são conhecidos até hoje:

A sequência de eventos:

Páscoa – Ascensão – Pentecostes (Lc 24; At 1.3,9; 2.1-3); Imagens: o bebê na manjedoura, os anjos na noite do nascimento de Jesus (Lc 2); Palavras: o bom samaritano, o filho pródigo, o pobre Lázaro, fariseu como sinônimo de presunçoso.

Assim como na obra histórica do AT (Josué a 2Reis), as profecias mostram que Deus conduz os acontecimentos de maneira invisível.

Falam das promessas do nascimento e de seu cumprimento, de anjos e de judeus fiéis à lei que anunciam que um dia Jesus salvará Israel. A fala do velho Simeão antecipa o tema de Atos. Ele relembra promessas do AT: Deus quer abrir o caminho da salvação de Israel para os povos (2.32; Is 42.6), mas Israel se opõe (2.34; Is 8.14). Lucas caracteriza o tempo da obra de Jesus(cap.  4 ao 23) na primeira pregação decisiva deste com uma citação do AT que fala do ano da graça, mas em seguida conta como a palavra se tornou contraditória: quando Jesus acrescenta que a salvação não estaria reservada somente para Israel, a admiração se transforma em ódio (4.28s). Lucas retorna o tema da mudança de ânimo na história da paixão (compare 21.28 com 23.13ss).

O historiador Lucas presta atenção na mudança dos tempos. Como historiador, ele sabe com que facilidade as pessoas cedem às mudanças das épocas; como um professor religioso, ele relata que o “tempo de Satanás” pode interromper o “tempo da graça”. Jesus também sabia disso. O povo se aglomera em volta de João Batista (3.7), como se o tempo da graça já tivesse chegado; para Jesus, no entanto, o tempo em que Satanás se afasta dele ainda que apenas até que chegasse ocasião oportuna (4.13) começa somente depois do batismo, do recebimento do Espírito Santo e da tentação. Lucas fala de Jesus como o profeta (24.19) impelido pelo Espírito (4.1-14; 5.17). Convencido de que o reino de Deus já tinha chegado, Jesus quer reunir Israel, mas já sabia antecipadamente que por causa disso teria de sofrer em Jerusalém, dirigindo-se conscientemente para lá (13.33). No Monte das Oliveiras chega o tempo oportuno para Satanás. Apesar de suas orações, Jesus experimenta por antecipação tal angústia de morte que seu suor torna-se como gotas de sangue. Pedro cai na tentação (22.53ss).

Na cruz, no entanto, começa o novo tempo, determinado pela atuação do Espírito Santo. Ao morrer, Jesus entrega seu espírito a Deus (23.46). Antes de subir aos céus, ele promete o dom de Deus aos discípulos (24.49). No Pentecostes, eles experimentam o sentido daquelas palavras de Jesus; recebem o Espírito que os encoraja a se tornarem testemunhas de Jesus (At 2). Assim começa o período dos apóstolos, no qual o Espírito guia os discípulos na terra a pregar a mensagem de Jesus e, do céu, o próprio Jesus os orienta.

A parte principal (Lc cap. 3 a 23) baseia-se principalmente nas fontes usadas por Lucas: Marcos e Q. Lucas resume o texto de Marcos, mas acompanha a sequência narrativa. Ele elabora cenas apropriadas para os discursos da fonte Q e conecta as em bloco com textos de seu material exclusivo em dois pontos marcantes de sua obra.

— Na pequena inserção (6.20-8.3), Jesus apresenta a lei fundamental aos discípulos. (Em Mt 5-7 esses discursos são detalhados e formam o Sermão do Monte, que Jesus fala diante de uma multidão, rodeado por seus discípulos.)

— Na grande inserção (9.51-18.14) vem depois da decisão de Jesus de ir para Jerusalém, onde a morte e ascensão o esperam.

— O material exclusivo de Lucas inclui parábolas. Este tipo de narrativa falta nos outros evangelhos; Lucas as emprega com a habilidade de um catequizador. Os cristãos podem aprender até mesmo com o administrador infiel (16). O mandamento principal do amor ao próximo é cumprido por aquele que é passível ser amado pelo necessitado (10.36). A riqueza não serve para nada na hora da morte (12.16-21).

Lucas completa a série de parábolas da fonte Q (da ovelha e da moeda perdidas) com a parábola do filho pródigo e o pai bondoso.

Jesus estava mais próximo dos fariseus do que fazem parecer os relatos posteriores, marcados pela reação aos eventos depois do ano 70 d.C. Jesus é hóspede de fariseus (7.36; 11.37); fariseus previnem-no contra Herodes (13.31).

Mulheres acompanham Jesus por toda parte e são desde o começo, alunas suas (8.2s; 24.6). Mulheres choram em protesto pela crucificação de Jesus (23.27).

Da mesma forma como Mateus, Lucas também amplia a sequência narrativa de Marcos com um prólogo e um epílogo.

As histórias da infância de Jesus, no entanto, têm apenas alguns poucos pontos em comum com Mateus (a concepção pelo Espírito; o nascimento em Belém); já nos relatos da ressurreição, Lucas omite a tradição de Marcos referente às aparições na Galileia, enquanto Mateus as amplia. Para Lucas, o lugar da experiência da ressurreição é em Jerusalém, o foco do povo judeu.

Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas contêm, em grande parte, o mesmo material narrativo e discursivo, organizado na mesma sequência, mas com objetivos diferentes: — Depois que a terra natal de Jesus afundou na Guerra Judaica, Marcos explica como o mistério de Jesus fora revelado em suas caminhadas por aquela terra. Depois que o judaísmo dos fariseus se tornara estranho para os judeus cristãos, Mateus mostra como o “reino de Deus” chegou à “igreja” das nações.

Lucas concebe seu trabalho em duas partes como um relato histórico (Lc 1.1ss; At 1.1). Escreve para os leitores de formação helenistaque desejam organizar historicamente as origens de sua fé. Enquanto Mateus, sem se preocupar com anacronismos[4], introduz ideias sobre a natureza da igreja na história da vida terrena de Jesus, Lucas prepara um relato separado e em Atos, para mostrar como a mensagem de Jesus alcança as nações.

Ele cita datas históricas (Lc 1.5; 3.1; At 11.28) e conta como imperadores romanos (Lc 2.1; At 18.2), reis judeus (Lc 23; At 12 e 25) e administradores romanos (Quirino, Pilatos, Félix, Festo, Gálio) intervêm na história de Jesus e na propagação de seus ensinos.

O material exclusivo de Lucas

Permite deduzir as mudanças sociais ocorridas nas comunidades cristãs; também pessoas ricas e respeitadas tinham se tornado cristãs. Nos discursos de Jesus, elas são exortadas a empregar bem suas riquezas; Atos elogia os cristãos que colocam suas casas à disposição da igreja e compartilham seus bens com os pobres. Há mulheres com patrimônio próprio, que o utilizavam para ajudar Jesus ou a igreja cristã (Lc 8.3; 10.38; At 12.12; 16.14). Lucas extrai da fonte Q a exigência de que os mensageiros de Jesus devem viver desprendidos pela coisas do mundo (Lc 9.3; Mt 10.09); no entanto, ele também fala de Zaqueu, que quer dar metade dos seus bens aos pobres e foi elogiado por Jesus por causa disso (Lc 19.9).

O juízo sobre Roma

É equilibrado (semelhante ao do historiador Josefo[5], contemporâneo de Lucas). Lucas sabe que os funcionários romanos nem sempre servem à justiça, mas também que o estado romano é um ambiente no qual a mensagem de Jesus poderia ser anunciada de forma livre. Sem a pressão dos judeus, Pilatos teria libertado Jesus, da mesma maneira que Felix teria feito com Paulo (Lc 23.20; At 24.27).

Lucas sabia da morte de Paulo (At 20.25), mas omite a informação que ele teria morrido como mártir em Roma. A obra é encerrada com a notícia que Paulo, ainda que preso, enuncia a mensagem de Jesus em Roma (At 28).

Seus juízos a respeito dos judeus

Também são diferenciados. No caso da morte de Jesus, Lucas considera maior a culpa da elite judaica do que a de Pilatos. Em Atos ele relata a fúria com que os judeus atacaram os cristãos. Mas também elogia o conselheiro judeu José de Arimateia e conta com que sabedoria o fariseu Gamaliel defende a liberdade de fé em favor dos apóstolos (Lc 23.50; At 5.34).

Atos 7.60 sugere esperança pelo fim da separação entre judeus e cristãos, quando Lucas conta como um perseguido inocente intercede em favor de seus inimigos judeus. De acordo com Jó 42.7ss, uma oração como essa move Deus a reconciliar inimigos.

Os primeiros a crer em Jesus foram judeus; muitos milhares se aglomeraram em torno dele, milhares se converteram (Lc 12.1; At 4.4).

Para Lucas, a cidade de Jerusalém tinha um status especial. Lucas começa com a cena no templo e termina contando como os discípulos, cheios de júbilo pela ascensão de Jesus, permaneceram sempre no templo.

Em Atos, Jerusalém é a terra natal dos cristãos, a cidade com a qual os missionários no mundo todo permaneciam em contato. Lucas certamente sabia da dissolução da igreja cristã de Jerusalém (64 d.C.) e da fuga dos cristãos para Pela (66 d.C.), mas não fala sobre isso. O material exclusivo de Lucas contém a cena em que Jesus chora ao anunciar a destruição de Jerusalém (70 d.C.) (Lc 19.41ss).

O terceiro Evangelho é atribuído a Lucas, autor também de Atos dos Apóstolos. Escrito em torno de 80 d.C., destinava-se aos cristãos gentios, evitando temas que poderiam parecer especificamente judaicos. De acordo com Harrington (1985), Lucas apresenta a história de Jesus em perfeito equilíbrio, ajustando a narrativa uma coleção de episódios e ditos inteiramente ausentes em Marcos e apenas parcialmente presentes em Mateus. Sua obra é escrita para os cristãos que vivem na era subapostólica, e ele é o teólogo da salvação. Lucas divide essa história em dois períodos:

1. o período de Israel – do Antigo Testamento e da preparação para a vinda do messias

2. o período de Cristo e da sua Igreja – como Senhor glorificado presente na sua Igreja.

Todos os evangelhos são marcados pelas características, tradição e contexto de cada comunidade. Desde modo, o Evangelho de Lucas fala da missão salvífica da morte de Jesus, da sua ressurreição, e conclui com a sua glorificação na ascensão. Para Lucas, Jesus veio como a salvação do Novo Israel. O arrependimento e o perdão dos pecados devem ser pregados em nome de Jesus a todas as nações, destacando assim o forte caráter universalista de Lucas presente em todo o Evangelho. Neste Evangelho, diz Theissen (2009). encontramos a humanização de Jesus através de sua dedicação aos pobres, pecadores e marginalizados; nessa narrativa salvífica, ele é apresentado como representante do verdadeiro modo de ser humano.

A vinda de Jesus à história até então foi apresentada como o começo do fim dos tempos. Em Lucas, no entanto, afirma o autor, a história é interpretada como o ―centro do tempo‖. Isto se deve ao não cumprimento imediato da parusia6, numa consciência de um tempo que se dilata; mas isto não afeta a sua expectativa, pois como observa o autor, tantas fases do tempo de cumprimento já se passaram que o fim pode acontecer a qualquer momento.

O evangelho de Lucas apresenta algumas peculiaridades que o distinguem dos outros sinópticos. Esse evangelho começa com um prólogo, que fala sobre o material que o autor tinha à disposição para escrever o seu evangelho, como também sobre o objetivo e métodos do autor.

Como mostra a divisão em partes, o conteúdo de Marcos é seguido em Lucas até a grande lacuna (Mc 6.45—8.26). A complementação desse material está nas histórias sobre a infância de Jesus, na pequena intercalação, na grande intercalação e nas histórias da ressurreição.

Salta aos olhos nesse evangelho a atenção especial que Jesus dá aos pecadores, aos marginalizados pela sociedade, às mulheres e aos pobres. O início do livro de Atos dos Apóstolos evidencia que este livro e o evangelho de Lucas formam uma unidade. O autor tomou a humanidade de Jesus, o seu ministério, sofrimento, morte ressurreição, como também a propagação do evangelho de Jerusalém até Roma, e fez de tudo o tema de um relato geral. O evangelho é a primeira parte desse relato geral.

—Afirmações-chave

-Não temais: eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo; é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Lucas 2.10,11

-Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. Lucas 15.24

-Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido. Lucas 19.10

Com 96 páginas no texto grego, o evangelho de Lucas é o livro mais extenso do NT. O evangelho de Mateus tem 87 páginas.

O terceiro evangelho, assim chamado, é caracterizado por um estilo literário mais refinado. Além de amém não há uma única palavra proveniente do hebraico. O material comum a este e os outros dois evangelhos sinópticos é dirigido conscientemente a leitores de fala grega. É verdade, no entanto, que o autor foi mais econômico na transmissão de palavras de Jesus do que na narrativa dos fatos. As histórias introdutórias dos primeiros dois capítulos saem um pouco desse padrão. Ali encontramos um estilo grego que lembra a língua semitizada da Septuaginta. Isso é ressaltado especialmente nos hinos de louvor Magnificat, Benedictus e Nunc dimittis. Esses cânticos são semelhantes em sua linguagem aos salmos do AT. Isso acontece em virtude do local de origem das histórias sobre a infância de Jesus. Este não pode ser achado no helenismo, como muitos querem fazer crer, mas no judaísmo. São tradições exclusivas que o autor achou nas suas pesquisas com as pessoas relacionadas aos fatos.

Por causa dos seus leitores, o evangelista evita pedras de tropeço que a tradição nos outros sinópticos pode registrar: os sentimentos de Jesus não são mencionados (cf. Lc 6.10; 18.22 com Mc 3.5; 10.21). O juízo dos parentes sobre Jesus falta em Lucas (cf. Mc 3.20s). Em raras ocasiões Jesus cura pelo toque (Lc 6.19; 5.13); na maioria dos casos o evangelista não menciona o toque (cf. Lc 4.39; 9.42 com Mc 1.31; 9.27). De acordo com o relato do terceiro evangelista, Jesus já cedo se identificou como o Messias (Lc 4.21). Desde o início ele é chamado e reconhecido como Kyrios “Senhor” (Lc 5.8; 7.13; 10.1,41; 22.61 e outros). O que interessa a esse autor são as pessoas como indivíduos e as suas histórias de vida: — Zacarias, Isabel e Maria, Marta e Maria, Zaqueu, as mulheres em volta de Jesus, o homem que foi crucificado do lado dele. Nesse evangelho são registradas palavras do crucificado, que não se acham nos outros evangelhos.

O evangelho de Lucas começa com um prólogo em que o autor se refere àquelas pessoas que fizeram relato oral ou por escrito sobre a vida de Jesus. Ao mesmo tempo, o autor explica que tipo de pesquisas ele mesmo fez e como registrou os seus resultados, logo observamos na introdução do livro. Esse prólogo, é único no NT e por isso merece considerações mais detalhadas.

Que a Bíblia é a Palavra de Deus vinda a nós por meio de palavras de homens, raramente nos é apresentado de forma tão clara quanto no evangelho de Lucas.

Para descrever a história do surgimento desse livro não precisamos nos basear somente em suposições. O próprio autor conta como surgiu a sua obra de dois volumes, o que pode ser verificado em Lucas 1.1-4. É evidente nesse prólogo que o autor dá importância à confiabilidade nos seus relatos.

Para alcançar esse objetivo ele se baseia em diversas fontes. Fundamental para isso são as tradições dos apóstolos, que foram testemunhas oculares do ministério de Jesus.

Como ministros da Palavra eles relataram esse fato. Logo em seguida as suas palavras foram registradas. Muitos desses testemunhos escritos estavam à disposição de Lucas. Ele se aprofundou no assunto, testou tudo minuciosamente e depois registrou as conclusões de sua pesquisa num relato bem ordenado.

O objeto dessas diferentes fontes são as histórias que aconteceram entre nós e o que elas significam.

O tema central do terceiro evangelho é Jesus, O Senhor (cf. Lc 2.10s). O ministério de Jesus é visto a partir dessa perspectiva no evangelho de Lucas. O autor dá expressão acentuada ao amor que Jesus tem pelos grupos desprezados e marginalizados da sociedade. A esses grupos pertencem pecadores assumidos e outros que são assim rotulados pela sociedade (Lc 5.1ss; 7.36ss; 15.1ss; 18.9ss; 19.1ss). Mas também os samaritanos, tão desprezados pelos judeus, pertencem a esse grupo (Lc 10.30ss; 17.11ss). Esse evangelista também dá mais atenção as mulheres no grupo de seguidores de Jesus do que os outros sinópticos (Lc 7.12,15; 8.2s; 10.38ss; 23.27ss).

O autor desse evangelho destaca a atitude crítica de Jesus em relação às riquezas. Por isso ele registra Bem-Aventuranças que divergem significativamente das encontradas em Mateus (Lc 6.20s). É por isso também que Lucas registra “ais” que não encontramos em nenhum outro evangelho (Lc 6.24s). Essa também é a razão para ele transmitir a nós as parábolas do agricultor rico (Lc 12.15ss), do administrador infiel (Lc 16.1-9) e do rico e de Lázaro (Lc 16.19ss). O que é criticado nessas passagens não é a exploração e opressão por meio das posses, mas as posses em si, porque se tornam a pedra de tropeço para os que as possuem, pois procuram a realização das suas vidas nas riquezas. Dessa e de outras constatações, surgiu o título sugestivo “Lucas evangelista dos pobres”. O tema desse evangelho não é a piedade judaica pelos pobres, mas o amor de Deus que vale para todos os marginalizados, portanto, também para os pobres.

Esse evangelista estabelece uma relação entre a história de Jesus e a história do mundo. Isso se torna evidente na indicação da data de seu nascimento (Lc 2.1s). O aparecimento de João Batista também é colocado no seu contexto político (Lc 3.1s). É somente esse evangelista que nos revela os nomes dos imperadores romanos (por exemplo At 11.28; 18.2). A sua grande preocupação é esclarecer a relação entre os cristãos e o estado romano. Por isso ele destaca a inocência de Jesus aos olhos das autoridades romanas (Lc 23.4,14,20,22,47). A comparação com os outros sinópticos demonstra a evidência que Lucas deu ao fato de que as autoridades romanas não concordavam com a crucificação de Jesus (Lc 23.25; cf. Mc 15.15; Mt 27.26). Segundo Lucas, os líderes judeus são responsáveis pela morte de Jesus na cruz (Lc 20.20,26; 23.2,5,18s,23,25).

A ênfase especial desse evangelho é a parte central, o chamado relato de viagem. Quem lê os capítulos 10-19, percebe logo que não se trata aqui de um relato detalhado de viagem. Não dá nem para reconhecer a rota exata da viagem, o que provavelmente não é o objetivo do autor. O tema é outro, é teológico. Jerusalém é a cidade das disputas e do sofrimento. A parte central do evangelho mostra como Jesus prepara os discípulos para esse sofrimento. Os evangelhos sinópticos têm sido chamados de histórias de sofrimento com uma longa introdução. Isso certamente é verdade em relação a Lucas, principalmente se considerarmos a parte central. Por causa desse trecho, o evangelho tem uma divisão em três partes aproximadamente iguais.

Essa divisão em três partes também pode ser notada em outros trechos. Segundo a visão do autor, a história de Deus com a humanidade também é dividida em três grandes épocas:

1ª a época do AT — que também pode ser denominada a época da lei e dos profetas;

2ª a época do ministério de Jesus (Lc 16.16 cf Mc 11.12)

3ª a terceira grande época, a época da igreja de Jesus, como a descreve Atos dos Apóstolos. O aparecimento de Jesus Cristo é, pois, o centro da história da salvação. É possível dar mais um passo: visto que o autor associa os acontecimentos da vida de Jesus com a história do mundo, a época do ministério de Jesus é, na visão dele, o centro da história do mundo.

No entanto, a expectativa pela volta de Jesus não é, de forma alguma, ignorada em Lucas (cf. Lc 3.9,17; 10.9,11; 18.7s; 21.32). Em comparação com os outros sinópticos, aqui o tempo presente é mais caracterizado como tempo de salvação, enquanto a história de Jesus vai ficando no passado e a volta de Jesus é colocada no futuro.

Não há como negar que o livro tenha vindo do próprio autor na forma como o temos hoje. Tanto a evidência externa dos manuscritos quanto a evidência interna comprovam a unidade desse escrito.

Lucas dedicou o seu livro a Teófilo, um homem culto e provavelmente muito influente. Se era cristão não sabemos. De qualquer maneira, Lucas menciona que Teófilo era instruído em palavras (essa é a formulação exata no original). Isso pode significar que Teófilo já fora instruído na fé em Jesus Cristo e que agora deveria ser fortalecido nela pelo livro de Lucas. Podia ser também que Teófilo, como funcionário romano, tivesse recebido notícias sobre os cristãos e agora queria informações confiáveis a respeito da fé cristã. É possível também que ele quisesse se engajar na propagação desse livro entre os grupos que conheciam a fé cristã. Sendo assim, o livro não seria endereçado somente a um homem, mas a esse grupo de leitores.

É geralmente aceito que Lucas e Atos têm um único autor; o estilo e o vocabulário são semelhantes e ambos os livros são dirigidos a Teófilo. Embora o autor nunca mencione seu nome, diversas passagens usando o pronome “nós” sugerem que ele estava em companhia de Paulo em algumas de suas viagens (At 16.10-17; 20.5-16; 21.1-18; 27.1-28.16). Dentre as pessoas designadas nas cartas que Paulo escreveu de Roma (onde terminam as seções com o “nós”), o mais provável candidato é Lucas. Em apoio a isso, a tradição unanimemente atribui o livro a Lucas (ver “Introdução a Atos”).

O prefácio de Lucas mostra que o escritor não foi testemunha ocular dos acontecimentos registrados no Evangelho. Tudo em Lucas e Atos mostra que Lucas era um homem culto, que pesquisava as informações de que necessitava, mas não era um dos seguidores originais de Jesus. Algumas vezes, é argumentado contra a autoria de Lucas o fato de que sua teologia, especialmente em Atos, não tem concordância com Paulo. Mas não há razão por que Lucas deva repetir o que Paulo disse, e não há evidência de que ele tenha lido as cartas de Paulo. Nem é provável que Lucas fosse um dos convertidos de Paulo. O autor não contradiz Paulo, e devemos admitir uma certa independência. Dita objeção não passa da noção de que Lucas escreve de seu próprio jeito.

Nada de certo é sabido a respeito de Lucas além do que podemos recolher de seus dois livros. Segundo a tradição, ele provinha da Antioquia e era um médico (Cl 4.14). Tem sido argumentado que Lucas usa linguagem médica. Contudo, parece que os médicos nos tempos do Novo Testamento não possuíam uma linguagem técnica própria, e o vocabulário de Lucas não vai além do que era usado pelas pessoas leigas. Mas nada há de inconsistente com a tradição de que ele era um médico, e o autor certamente demonstra interesse pelos doentes.

Lucas e Atos podem ter sido escritos por volta de 63 d.C. Atos termina com Paulo ainda em prisão domiciliar em Roma, e é razoável pensar que se Lucas soubesse da libertação ou morte de Paulo, ele as teria mencionado. Registra que a profecia de Ágabo foi concretizada (At 11.28); ele certamente teria feito o mesmo com respeito à profecia de Jesus sobre a destruição de Jerusalém (Lc 21.20) se estivesse escrevendo após 70 d.C. Atos nada menciona que possa ser datado após 62 d.C. e não demonstra ter conhecimento das cartas de Paulo. Todos esses fatos indicam uma data anterior.

Alguns intérpretes argumentam a favor de uma data entre 75 e 85 d.C., afirmando que algumas das frases de Lucas pressupõem a destruição de Jerusalém, que ocorreu em 70 d.C. (p. ex.: 19.43; 21.20,24). Mas essas passagens falam daquilo que era costumeiro nos cercos da época, e nada se pode concluir se nada mais foi dito além do fato que Jesus profetizou que as políticas adotadas levariam à ruína no seu devido tempo. Alguns poucos críticos argumentaram a favor de uma data no segundo século, mas parece não haver boa razão para isso. Com as informações das quais dispomos, uma data no início dos 60 d.C. é razoável. Lucas falam os no prefácio que seu propósito é fornecer um registro preciso, bem ordenado da mensagem básica cristã, para capacitar seu leitor a “conhecer a certeza das coisas que ele aprendeu” (1.4). Tanto o Evangelho quanto Atos são dedicados ao “excelentíssimo Teófilo”. Tal dedicatória é comum em livros destinados a uma maior audiência.

Lucas era claramente uma pessoa de cultura, capaz de escrever em vários estilos. Seu parágrafo de abertura é no estilo clássico, enquanto em outras partes sua linguagem assemelha-se à da Septuaginta (a tradução em grego do Antigo Testamento). Fica claro que ele entendia ser este um estilo adequado para o texto religioso que elaborava.

Seu principal interesse é pela história da salvação, a história do que Deus realizou em Jesus para trazer a salvação aos pecadores.

Lucas deixa claro que esta salvação está disponível aos pecadores. Ele tem uma grande preocupação pelos de má reputação, negligenciados na religião contemporânea mas que podiam encontrar a paz na salvação de Deus. Lucas registra várias profecias do sofrimento e da morte de Cristo e dedica muito espaço a isso. Diz-se às vezes que ele tem pouco interesse pela escatologia (as últimas coisas). Isto não faz justiça a Lucas, pois o pensamento de que o reino de Deus virá com poder nos tempos finais está certamente presente na sua obra (12.35-48; 17.22-37; 21.25-36). Lucas se preocupa com muitas pessoas que seriam negligenciadas pela maioria dos escritores do seu tempo — crianças, mulheres e os pobres. Embora estas pessoas fossem geralmente consideradas como tendo pequena importância, Lucas demonstra a especial solicitude de Jesus para com elas.

Digna de destaque na estrutura literária do Evangelho é a descrição que Lucas faz da jornada de Jesus em direção a Jerusalém, e o sacrifício na cruz (9.51-19.44). A soberania de Deus no ministério e na morte de Jesus é enfatizada conforme Jesus dirige-se à cidade onde deve morrer pelos pecadores (9.22; 17.25; 18.31-33; cf. At 4.28).

A importância da oração é acentuada

Lucas registra que Jesus orou antes das ocasiões cruciais de seu ministério. Nove preces de Jesus são incluídas no Evangelho (sete das quais encontradas somente em Lucas), juntamente com parábolas sobre oração encontrada somente em Lucas. Expressões de júbilo frequentemente acompanham as boas novas do Messias em Lucas. Somente este Evangelho inclui as magníficas canções de júbilo que acompanharam o nascimento do Messias (1.46-55, 68-79; 2.14.29-32).

A Peregrinação Judaica da Galiléia a Jerusalém

Os judeus da Galiléia frequentemente viajavam para o templo de Jerusalém. A rota mais direta de Cafarnaum era para Ginéia passando por Samaria, Sicar, Leboná e Betel. Alguns judeus, entretanto, a fim de evitar a qualquer custo a passagem por Samaria, iam para o sul, saindo de Citópolis pela margem oeste do rio Jordão até Jericó.

Última Viagem a Jerusalém

Durante a última viagem de Jesus a Jerusalém (Lc 9.51-56), ele foi repudiado por uma aldeia Samaritana hostil. Assim, em vez de passar por Samaria, ele aparentemente tomou um caminho mais longo, partindo de Citópolis, atravessando para a margem leste do rio Jordão para seguir em direção ao sul. Cruzando novamente o rio Jordão próximo a Jericó, Jesus subiu a montanha para Betânia e finalmente chegou a Jerusalém.

Os Evangelhos não apresentam apenas um quadro das atividades de Jesus, nem tampouco são apenas biografias técnicas e modernas, que seguem métodos desconhecidos em seus dias. 

Os três Evangelhos Sinóticos são escritos pessoais e complementares, não são três tentativas incompletas de realizarem a mesma tarefa.  São livros espirituais que, juntamente com o Evangelho de João, oferecem a todas as gerações Jesus Cristo, a Palavra encarnada.



Atos dos Apóstolos é um livro de estilo único e especial no NT. O autor não tinha um modelo a seguir.

O Livro de Atos dos Apóstolos, tradicionalmente atribuído a Lucas, o médico e companheiro de viagem do apóstolo Paulo, é a segunda parte de uma obra que começa com o Evangelho de Lucas. Atos serve como uma ponte entre os Evangelhos e as Epístolas, narrando a transição do ministério de Jesus na Terra para a obra do Espírito Santo através dos apóstolos e da igreja primitiva.

Este livro é único no Novo Testamento por seu enfoque histórico e teológico, documentando o nascimento e a expansão do Cristianismo desde Jerusalém até os confins do mundo romano. Através de uma série de discursos, milagres e eventos marcantes, Atos demonstra como a mensagem do Evangelho rompeu barreiras culturais, religiosas e geográficas, levando a luz de Cristo a todos os povos.

Atos pode ser dividido em duas partes principais: os primeiros capítulos (1-12) focam na liderança de Pedro e no desenvolvimento da igreja em Jerusalém, enquanto os capítulos posteriores (13-28) se concentram nas viagens missionárias de Paulo, culminando com sua chegada a Roma. A narrativa destaca o papel central do Espírito Santo, que guia, capacita e impulsiona os apóstolos na sua missão de testemunhar a ressurreição de Jesus Cristo.

Os temas principais de Atos incluem o poder e a presença do Espírito Santo, a expansão do evangelho aos gentios, e a unidade da igreja em meio à diversidade. A obra de Lucas não é apenas um relato histórico, mas também uma obra teológica que mostra como o plano redentor de Deus, iniciado com a promessa feita a Abraão, está sendo cumprido através da igreja, que é agora o novo Israel, uma comunidade de fé inclusiva e missionária.

Atos dos Apóstolos é uma leitura essencial para entender o desenvolvimento da igreja cristã, oferecendo lições valiosas sobre fé, perseverança, e o poder transformador do Evangelho em um mundo muitas vezes hostil. A história da igreja primitiva em Atos continua a inspirar e desafiar os cristãos de todas as eras a serem testemunhas fiéis de Cristo, independentemente das circunstâncias.

É verdade que no helenismo havia relatos ressaltando as qualidades e ações de homens de Deus. Mas pouco têm em comum com Atos dos Apóstolos, pois naquelas obras o centro das atenções são os homens de Deus, e em Atos o que interessa é a ação do Senhor Jesus Cristo por meio do Espírito Santo. Igualmente os atos dos apóstolos apócrifos são na verdade coletâneas de lendas; há pouca semelhança entre eles e o livro de Lucas.

A primeira parte de Atos ressalta como o evangelho foi aceito inicialmente em Jerusalém, como nasceu a Igreja e como ela vivia.

A segunda parte descreve o avanço do evangelho para a Samaria e Antioquia na Síria. Agora já são os gentios que, em grande número, encontram o caminho de Jesus Cristo e é exatamente Pedro que os ajuda nessa descoberta.

E, finalmente, as viagens missionárias de Paulo mostram como, passo a passo, o evangelho de Jesus vai penetrando o império romano. Praticamente no meio do livro está o capítulo 15 que descreve a disputa ferrenha acerca da questão, se os gentios podem pertencer ao povo de Deus sem se tornarem judeus. A igreja primitiva responde afirmativamente a isso e, dessa forma, apoia a estratégia e prática missionária do apóstolo Paulo. Já não há empecilhos para a edificação de igrejas cristãs entre os gentios. Apesar do aprisionamento de Paulo e de sua viagem para o interrogatório diante do imperador em Roma, Atos conclui com as palavras de vitória: Paulo pregava o reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo abertamente, e sem impedimento algum (At 28.31).

—Afirmações-chave

— Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra. Atos 1.8

— E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Atos 2.42

— Senhores, que devo fazer para que seja salvo? Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa. Atos 16.30b,31

O autor faz um relato tendencioso sobre o cristianismo primitivo. Ele não idealiza a situação, e tampouco conta tudo que aconteceu. Nem mesmo todos os eventos importantes são tratados. Ele escolhe o que é importante para ele, para alcançar o seu objetivo, e omite, pelo mesmo motivo, o que lhe parece prescindível. O que é importante para os seus objetivos ele detalha; e repete o que gostaria de ressaltar de maneira especial. De acordo com isso, as notícias sobre a igreja primitiva são um tanto resumidas. Como funcionou a comunhão de bens é indicado mas não descrito em detalhes.

O início da missão aos gentios é descrito em todos os seus detalhes (capítulos 10 e 11). A perseguição iniciada por Herodes Agripa I só é mencionada, mesmo tendo feito do apóstolo Tiago seu mártir (At 12.1ss). A história de Pedro e Cornélio é contada duas vezes (At 10.9ss; 11.5ss), a conversão de Paulo até três vezes (At 9.3ss; 22.5ss; 26.12ss). Em tudo isso percebe-se uma estrutura intencional do autor. Percebemos esse aspecto também nos resumos que ele faz. Eles têm função semelhante aos resumos no evangelho de Marcos. Lá servem para mostrar o ministério global de Jesus. Em Atos refletem a vida da igreja primitiva como um todo; o autor só entra em detalhes quando isso é importante para a continuação da sua história (por exemplo At 4.32-37 quando fala da oração fervorosa da igreja oprimida). Uma forma muito usada pelo autor para apresentar a vida da igreja são os discursos, os sermões. Como é característico de vários historiadores antigos, ele os insere no seu texto para cativar a atenção dos seus leitores. Eles aparecem no seu relato em pontos estratégicos de mudança.

O autor usa as diferentes formas cristãs do discurso:

O discurso de Paulo no Areópago tem chamado a atenção de muitas pessoas (At 17.22ss). Receberá atenção especial na questão da autoria do livro. Temos ainda as palavras de Paulo diante dos anciãos de Éfeso em Mileto (At 20.18ss); após o seu aprisionamento em Jerusalém (At 22.1ss); diante do sinédrio (At 23.1ss) e diante de Festo e Agripa (At 26.2ss).

*Muitos intérpretes do método histórico-crítico consideram os discursos e sermões frutos da imaginação do autor e não discursos proferidos de fato. Eles seriam apenas estilo literário.

A indicação de D. Guthrie sobre a historiografia antiga de acordo com Tucídides, contradiz essa posição. Tucídides elaborou os discursos na sua obra porque não conseguia lembrá-los textualmente. Mas se esforçou em reproduzir o mais fielmente possível o sentido daquilo que tinha sido dito. Isso poderia servir de princípio para avaliação dos discursos em Atos dos Apóstolos. Pois é pouco provável que alguém tenha anotado os discursos quando foram proferidos. Isso poderia ter acontecido nos sermões de Jesus, de acordo com costumes judeus e rabínicos, mas não nos discursos de Atos.

Lucas não pode nem ser considerado testemunha ocular em muitos discursos. Não restava outra alternativa a não ser a descrita em Lucas 1.1-4: ele precisou fazer uma investigação acurada de tudo que tinha sido registrado para depois anotar e organizar o material. Podemos imaginar que os discursos dos apóstolos tenham sido transmitidos oralmente. Precisamos pressupor que houve preocupação por exatidão histórica, pois o autor ressalta explicitamente essa atitude.

Visto que Atos dos Apóstolos é a segunda parte de uma obra, basta aqui referir o leitor ao material sobre o evangelho de Lucas, em cuja apresentação o contexto histórico já foi descrito.

O Livro de Atos dos Apóstolos foi escrito em um período de significativa mudança e tumulto no mundo antigo, durante a segunda metade do século I d.C. Esse período histórico, marcado pela expansão do Império Romano e por profundas transformações culturais, religiosas e políticas, forneceu o pano de fundo para o surgimento e a rápida disseminação do Cristianismo.

1. O Império Romano e a Pax Romana

O cenário em que se desenrola a narrativa de Atos é o vasto Império Romano, que na época abarcava a maior parte do mundo mediterrâneo. Governado pelo imperador Nero na parte final do período em que Atos foi escrito, o império proporcionava uma relativa estabilidade política conhecida como Pax Romana. Essa paz, juntamente com uma rede de estradas bem desenvolvida e uma marinha poderosa, facilitou as viagens e a comunicação entre as várias províncias do império. Essa infraestrutura permitiu aos apóstolos e outros missionários cristãos viajarem amplamente e pregarem o Evangelho em regiões distantes.

2. A Cultura Greco-Romana e o Helenismo

O império romano era fortemente influenciado pela cultura grega, uma herança do domínio de Alexandre, o Grande, alguns séculos antes. O Helenismo, a fusão das culturas grega e oriental, permeava todo o mundo mediterrâneo e influenciava aspectos da vida cotidiana, como a língua, a filosofia, e a religião. O grego koiné, uma forma simplificada da língua grega clássica, era a língua franca do império e o meio pelo qual o Novo Testamento, incluindo Atos, foi escrito e disseminado. Isso ajudou a tornar a mensagem cristã acessível a um público diversificado e multiculturado.

3. O Judaísmo do Segundo Templo

O Judaísmo também desempenha um papel crucial no contexto de Atos. O Templo de Jerusalém, antes de sua destruição em 70 d.C., era o centro espiritual e cultural da vida judaica. A Judéia, sob o domínio romano, era uma região de intenso fervor religioso, onde muitas seitas e grupos judeus diferentes coexistiam, incluindo os fariseus, saduceus, essênios, e zelotes. O Cristianismo surgiu como uma seita dentro do Judaísmo, com os primeiros cristãos, inclusive os apóstolos, sendo judeus que acreditavam que Jesus de Nazaré era o Messias prometido nas Escrituras Hebraicas.

Essa origem judaica é evidente nas primeiras partes de Atos, onde os apóstolos pregam quase exclusivamente aos judeus e frequentam o Templo. No entanto, à medida que a narrativa avança, vemos a tensão crescente entre os cristãos e as autoridades judaicas, bem como a expansão do evangelho aos gentios, marcando o início da separação entre Cristianismo e Judaísmo.

4. A Perseguição e a Dispersão dos Cristãos

Os primeiros cristãos enfrentaram perseguição tanto das autoridades judaicas quanto das romanas. Em Jerusalém, o apedrejamento de Estêvão, um dos primeiros diáconos da igreja, marcou o início de uma perseguição mais ampla, que forçou muitos cristãos a fugirem para outras regiões. Essa dispersão, conhecida como diáspora cristã, foi paradoxalmente uma das principais razões para a propagação do Cristianismo além das fronteiras da Judéia.

Por outro lado, as autoridades romanas, embora inicialmente tolerassem o Cristianismo como uma variante do Judaísmo, começaram a ver o movimento cristão como uma ameaça ao culto imperial e à ordem pública, especialmente à medida que ele se distanciava do Judaísmo e atraía conversos gentios. Essa crescente hostilidade culminou em perseguições sistemáticas durante os reinados de Nero e outros imperadores subsequentes.

5. Os Movimentos Missionários e a Expansão da Igreja

Um dos temas centrais de Atos é a expansão missionária do Cristianismo. As viagens missionárias de Paulo, que se iniciam em Atos 13, são um exemplo notável da estratégia missionária da igreja primitiva. Paulo, um cidadão romano e ex-fariseu, utilizou sua formação judaica e seu conhecimento da cultura greco-romana para pregar o Evangelho em sinagogas e praças públicas em cidades como Antioquia, Corinto, Éfeso e Roma. A conversão de gentios e a fundação de igrejas em cidades chave do império demonstram como o Cristianismo rapidamente transcendeu suas raízes judaicas e se estabeleceu como uma fé global.

6. As Tensões Internas e a Definição da Identidade Cristã

Finalmente, o livro de Atos também reflete as tensões internas da igreja primitiva em relação à inclusão dos gentios. O Concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, foi um marco na definição da identidade cristã, decidindo que os gentios convertidos não precisavam seguir as práticas da Lei Mosaica, como a circuncisão, para serem aceitos na comunidade cristã. Essa decisão teve profundas implicações para a expansão do Cristianismo e para a sua distinção do Judaísmo.

O contexto histórico de Atos dos Apóstolos é, portanto, um mosaico complexo de influências políticas, culturais, religiosas e sociais. Com o Cristianismo emergindo como uma força transformadora em meio a um império diversificado e frequentemente hostil, Atos não apenas narra a história da igreja primitiva, mas também revela as lutas, a fé e a perseverança daqueles que foram chamados para ser testemunhas de Cristo “até aos confins da terra” (Atos 1:8). Este contexto histórico é essencial para entender a mensagem de Atos e o impacto duradouro do Cristianismo no mundo antigo e além.

Qual é o objetivo do autor com esse segundo livro, que ele evidentemente considera a continuação do primeiro (At 1.1). Várias respostas foram dadas a essa pergunta. Enquanto algumas são questionáveis, outras podem ser fundamentadas no texto.

Podemos pressupor que o objetivo principal de Atos é mostrar como a mensagem de Jesus Cristo se tornou a boa notícia para todos os povos. Já a promessa do Senhor ressurreto antes da ascensão anuncia esse aspecto (At 1.8). Foi dessa perspectiva que o autor escreveu o seu primeiro livro (Lc 24.26s). Ao autor parece importante ressaltar que nesse caminho do evangelho houve dificuldades com as autoridades romanas, pois frequentemente é citada a acusação de que os cristãos estariam ameaçando o império romano. O autor descreve de diversas formas que as autoridades estavam do lado do apóstolo Paulo, pois ele gozava de privilégios especiais por ser cidadão romano.

Mais um objetivo parcial pode ser observado: em várias ocasiões se torna claro que Pedro e Paulo podem ser comparados. Isso é importante para aquele grupo de estudiosos que questiona o apostolado de Paulo.

Se no evangelho Lucas pôde se basear em muitas fontes, esse não foi o caso em Atos. Possivelmente houve um relato de viagens, que ele passou para o livro nos trechos transmitidos em primeira pessoa, “nós”. Outras fontes, no entanto, não podem ser comprovadas. Por isso podemos considerar Atos um livro de estilo e unidade peculiares, escrito por um único autor. Entretanto, na transmissão desse livro encontramos dificuldades nos manuscritos. Atos dos Apóstolos se nos apresenta em duas formas textuais gregas diferentes e, em parte, consideravelmente divergentes.

— Por um lado temos o texto alexandrino, é uma tradição que vai até o século III e é, em geral, a forma textual mais confiável, encontrada nos manuscritos Vaticano, Sinaítico, Alexandrino e Códice Eframita, como também nos papiros.

— Por outro lado, existe o texto ocidental, que encontramos no Códice Beza Cantabrigiense, na versão latina e siríaca e também é citado pelos pais da igreja Irineu e Tertuliano. Em alguns aspectos o texto data do século II, mas não é muito confiável, pois em muitos trechos é possível perceber uma revisão intencional do texto alexandrino (cf. At 8.37; 15.29). Por isso o texto alexandrino, via de regra, é considerado o texto original. Há exceções ocasionais que precisam de fundamentação sólida.

Tradicionalmente, o nome de Lucas, o médico e companheiro de Paulo em sua segunda e terceira jornadas missionárias e na viagem à Roma, é aceito como o autor de Atos. As evidências da igreja primitiva também apontam para Lucas, como sendo o autor. Irineu (130-200 d.C.), Clemente de Alexandria (153-217 d.C.), o antigo documento anônimo Cânon Muratório (170 d.C.) e Eusébio (325 d.C.) todos creditam Lucas como sendo o autor. Encontramos evidências para a autoria de Lucas nos conhecidos trechos “nós”, encontrados na segunda metade do livro (16.10-17; 20:5-15; 21.1-18; 27.1—28.16). Estas passagens mostram que o narrador de Atos acompanhou a Paulo desde Trôade na Ásia Menor, até Filipos no continente europeu, retornando com ele para Trôade. Mais adiante ele e Paulo viajaram da Palestina para Roma.

O autor, provavelmente, era um gentio com educação formal, como demonstra o estilo e o alto nível do grego utilizado tanto no evangelho de Lucas quanto no livro de Atos. Em algumas ocasiões a linguagem grega empregada chega a ser completamente clássica (Lc 1.1-4). A abordagem metódica do autor à escrita e o interesse pela pesquisa, revelam os traços de uma pessoa educada e de treinamento superior. Em Cl 4.14 mostra que Paulo estava com Lucas “o médico amado”. No final do século XIX e no início do século XX, vários estudiosos chamaram atenção para a terminologia médica empregada em Lucas e Atos e para o interesse que o autor demonstrava pelas doenças (Lc 4.38; 8.43-44; At 3.7; 12.23; 13.11; 20.7-11; 28.3, 8). Em anos mais recentes um argumento tem sido apresentado no sentido de que a utilização de terminologia médica era comum entre os autores antigos. Assim, o autor não seria, necessariamente, um médico. Mesmo considerando essa afirmação, é evidente que existe um interesse em questões médicas tanto em Lucas como em Atos. Considerar, portanto, Lucas o médico como o autor é bastante razoável.

Existem três datas sugeridas para o livro de Atos: antes de 70 d.C.; de 80 a 85 d.C. e de 105 a 130 d.C. As duas datas mais recentes baseiam-se parcialmente nas teorias que não acham provável que Lucas seja o autor de Atos, e obtém informações sobre os revolucionários Teudas e Judas (5.36,37) extraídas dos escritos do historiador judaico Flavio Josefo (Antigüidades 18.4-10 e 20.97-98), divulgados na segunda metade do primeiro século. Mas o Teudas mencionado no livro de Atos pode ter sido apenas um dos muitos revolucionários que se manifestaram, por ocasião da morte de Herodes o Grande, e não o Teudas mencionado por Josefo. O conhecimento que Lucas tinha de Judas não foi, necessariamente, derivado de Josefo da mesma forma que o de Josefo pode não ter sido derivado de Lucas. Alguns têm utilizado como argumento a opinião de que Lucas utilizou o registro feito por Josefo da morte do rei Herodes Agripa I, ocorrido em 44 d.C. (At 12.19-22), uma vez que ambos utilizam palavras semelhantes na descrição do evento. Os dois relatos, entretanto, diferem consideravelmente.

Atos dos Apóstolos foi escrito a Teófilo, assim como o evangelho de Lucas. Quem era esse Teófilo e a quem exatamente o livro foi endereçado, foi tratado na discussão sobre o evangelho de Lucas.

A opinião de que Lucas e Atos foram escritos antes da destruição de Jerusalém, ocorrida em 70 d.C., é baseado nas seguintes considerações:

— Primeiro, o capítulo 28 se encerra com a prisão domiciliar de Paulo. Enquanto aguardava sua apresentação à César ele tinha liberdade de pregar àqueles que o procuravam. Isso teria que ter acontecido antes de 64 d.C., que é o ano que marca o grande incêndio de Roma, cuja culpa foi colocada nos cristãos pelo imperador Nero.

— Segundo lugar, o livro de Atos não menciona a morte de Paulo, que parece iminente em 2Tm 4 e que ocorreu em torno do ano 68 d.C.

— Terceiro lugar, próximo do final de Atos, Lucas apresenta o governo romano como benevolente para com o cristianismo. Essa atitude mudou depois do ano 64 d.C.

— Quarto lugar, parte do vocabulário utilizado aponta para uma data mais antiga. Este vocabulário inclui: “discípulo”; “o primeiro dia da semana” (mais tarde tornou-se “o Dia do Senhor”, Ap 1.10); uma referência ao “povo de Israel” em 4.27 (um termo que, mais tarde, compreenderia tanto os judeus como os gentios; Tt 2.14); o título mais antigo “Filho do Homem” (7.56); bem como a linguagem utilizada na descrição de detalhes geográficos e políticos.

Tanto Lucas 1.3 quanto Atos 1.1 são dirigidos a Teófilo. Ele pode ter sido aquele que dava suporte, proteção ou um benfeitor de Lucas. Certamente era um gentio que havia recebido instrução cristã (Lc 1.4). Como aquele que dava suporte à Lucas, Teófilo teria providenciado o sustento necessário à pesquisa e escrita dos dois livros.

Como comparação, sabemos que o historiador Josefo teve como patrocinadores os generais Vespasiano e Tito além de outros benfeitores, como por exemplo, certo Epafrodito, a quem ele dedicou o seu livro Contra Ápio.

Lucas coletou o material de sua própria experiência e de fontes semíticas de dentro e fora da Palestina. Ele menciona o nome de várias pessoas que possivelmente o auxiliaram (16.11; 20.4). É provável que chegou a entrevistar a Maria, mãe de Jesus, e a várias outras “testemunhas oculares e ministros da palavra” (Lc 1.2).

O livro de Atos é uma história cuidadosa do desenvolvimento da igreja primitiva. Lucas apresentou uma descrição cheia de detalhes políticos e geográficos, dos ocupantes de cargos governamentais e de suas ações, dos procedimentos imperiais, de uma viagem marítima à Itália, contendo uma terminologia náutica exata. Todos esses registros procedem de um cuidadoso pesquisador sendo ele próprio testemunha ocular de muitos desses eventos.

Lucas tinha vários propósitos

No cap. 1.1,2 indica que no evangelho houve o relato da vida de Jesus até o momento da ascensão. Ele resume o tema geral de Atos da seguinte forma:

— O Senhor irá expandir o seu trabalho “em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. O livro de Atos é chamado “Atos dos Apóstolos”, mas Lucas esboça apenas os ministérios de Pedro (caps. 1-12) e de Paulo (caps. 13-28).  

— Alguns têm detectado, em Lucas, a intenção de defender o cristianismo ou de demonstrar que este não representava uma ameaça ao império romano.

— O progresso da igreja de Cristo pelo mundo. O livro de Atos é um mapa do progresso da igreja pelo mundo antigo, mostrando o surgimento da presente era.

As Nações do Dia de Pentecostes

No primeiro século da era cristã as comunidades judaicas estavam localizadas primariamente na parte oriental do império romano, região na qual o grego era a linguagem falada. Essas comunidades se estendiam, entretanto, até à Itália, na direção ocidental e, na direção do Oriente, até a Babilônia.

Além de habitantes de várias nações, como mostra no mapa a seguir, estiveram presentes no Dia de Pentecostes (At 2.9-11) visitantes da Mesopotâmia e até de regiões situadas mais ao oriente, como a Pártia, a Média e o Elam (atualmente, Irã).



BROWN, Raymond E. Uma introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2005.

COLLINS, Adela. A ação de Jesus no Templo de Herodes; in: CHEVITARESE, André L, Org. CORNELLI, Gabrielli, Org. SELVATICI, Mônica, O

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YERUSHALMI, Yosef H. Zakhor: História Judaica e Memória Judaica. Rio de Janeiro: Imago, 1992.


[1] Um termo usado principalmente na crítica bíblica, para significar as circunstâncias (freqüentemente na vida de uma comunidade) nas quais uma história particular, ditado, etc., foi criada ou preservada e transmitida.
[2] Livro que contém os textos para serem lidos nas liturgias cristãs.
[3] especulação a respeito de um problema realizada por intermédio de dois argumentos, ambos coerentes e críveis em suas formulações respectivas, mas antagônicos em suas conclusões.
[4] Anacronismo consiste num erro cronológico, quando determinados conceitos, objetos, pensamentos, costumes e eventos, por exemplo, são usados para retratar uma época diferente daquela a que de fato pertencem.
[5] Josefo (37 a 100 d.C.) foi sem dúvida alguma um importante apologista, no mundo romano, para a cultura e o povo judaico, particularmente numa época de conflito e tensão



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