5. Teorias Filosóficas do Pecado
8. O propósito de Deus em permitir o pecado

5. Teorias Filosóficas do Pecado
Ao longo da história, a humanidade tem se deparado com a questão do mal e do pecado, levantando inúmeras discussões e teorias que buscam entender sua origem e natureza. Filósofos, sociólogos, psicólogos e teólogos têm se esforçado para oferecer respostas que, muitas vezes, divergem da perspectiva bíblica. A Palavra de Deus, no entanto, oferece uma visão clara sobre o pecado. Em Romanos 3:23, está escrito: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Também em 1 João 3:4 lemos: “Todo aquele que pratica o pecado transgride a lei; de fato, o pecado é a transgressão da lei.” Neste contexto, exploraremos algumas das principais teorias filosóficas sobre o pecado, suas implicações e como elas se alinham ou divergem da verdade bíblica.
1. Conceitos Antiteístas e Anticristãos
As teorias filosóficas sobre o pecado muitas vezes surgem de premissas antiteístas e anticristãs, que rejeitam a autoridade das Escrituras. Essas teorias, em sua maioria, são especulativas e arbitrárias, tentando definir o pecado sem considerar a revelação divina. Este tipo de abordagem pode levar a conclusões que são completamente incompatíveis com a doutrina cristã. A tentativa de compreender o pecado sem a orientação da Palavra de Deus inevitavelmente resulta em distorções que comprometem a verdadeira natureza do pecado como algo moral e espiritual, não apenas metafísico.
2. Natureza Metafísica do Pecado
Uma das áreas de debate entre os filósofos é a natureza metafísica do pecado. Questões como “O pecado é uma substância, um princípio ou um ato?” ou “É uma privação, negação ou defeito?” são frequentemente discutidas. Algumas teorias sugerem que o pecado poderia ser uma substância ou um elemento físico, mas essa perspectiva é problemática. A Bíblia não descreve o pecado como uma substância física, mas sim como uma condição espiritual que afeta a relação do ser humano com Deus. A confusão sobre a natureza do pecado pode levar a mal-entendidos sobre como ele deve ser tratado e superado.
3. Natureza Moral do Pecado
Além da metafísica, a natureza moral do pecado é outra área de intenso debate. A moralidade do pecado está diretamente relacionada à lei de Deus, à santidade e à justiça divina. O pecado, segundo as Escrituras, é a transgressão da lei de Deus (1João 3:4). Qualquer teoria que ignore ou minimize o aspecto moral do pecado, tratando-o apenas como uma falha física ou uma condição inata, perde de vista a verdadeira gravidade do pecado. O pecado é uma ofensa à santidade de Deus, e é por isso que tem consequências eternas. Reconhecer a natureza moral do pecado é essencial para entender a necessidade de redenção através de Cristo.
4. Teoria Filosófica-Antibíblica: O Mal como Princípio Eterno
Uma das teorias mais controversas é a que propõe a existência de um princípio eterno do mal, frequentemente associada ao gnosticismo, marcionismo e maniqueísmo. Esta teoria sugere que o mal é uma força coeterna com Deus, o que implica que o pecado é inevitável e parte integrante da natureza humana. Tal perspectiva é claramente antibíblica, pois a Bíblia ensina que o pecado teve um início no ato de desobediência de Adão e Eva e não é uma força eterna ou incontrolável. Gênesis 3:17 mostra que o pecado entrou no mundo através da escolha humana e não por uma força eterna fora do controle de Deus. Além disso, essa teoria compromete a responsabilidade humana, sugerindo que o pecado é algo que não pode ser superado. No entanto, a Bíblia nos ensina que, embora todos tenham pecado, a redenção e a libertação do pecado são possíveis através de Jesus Cristo.
Esse texto oferece uma visão crítica sobre as teorias filosóficas do pecado, destacando suas falhas à luz da doutrina bíblica e reafirmando a importância de uma compreensão correta do pecado segundo as Escrituras.
6. O Pecado Individual
Para determinar qual é a verdade sobre o pecado, devemos examinar as Escrituras. O ser humano é produto do ambiente e realmente é bom…como dizem muitos psicólogos e outros estudiosos?
Pv 4:23 “Guarda com toda diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. A palavra coração quer dizer o homem interior, a alma, inclusive a mente, as emoções e a vontade. O versículo diz que devemos colocar uma guarda no coração para o proteger (olhar, guardar, proteger). A razão disso é que o coração é a fonte da vida. Aquilo que sai de nós, que é expresso em nossas vidas é o que está dentro de nós. (Mt 12:33-37)
O fruto de uma árvore revela que tipo de árvore ela é. A árvore tem uma natureza boa ou corrupta, quer dizer inútil, ruim, e foi usada para descrever peixes podres. A árvore é igual ao seu fruto. Jesus disse que os fariseus eram maus. Significa um espírito mau. Jesus disse que o que sai da boca é o que transborda do coração. Por que as palavras os condenam? Porque elas mostram a corrupção interior que existe neles. Marcos 7:21-23 A ideia chave nessa declaração é que existe uma progressão lógica e cronológica que explica o pecado. No interior da pessoa começam os pensamentos que se tornarão ações pecaminosas. A fonte do pecado, segundo estes versículos, é uma natureza corrupta e má. Nem o ambiente, nem a influência social podem explicar o pecado.
O ser humano é realmente corrupto por natureza?
Os humanistas dizem que a natureza do ser humano é mais ou menos neutra, enquanto a nova Era diz que ela é boa. O que diz a Bíblia?
—Gn 6:5: a natureza dessas pessoas era totalmente corrupta.
—Sl 51:5: tem a conotação de culpa que merece punição. A palavra “pecado” quer dizer sair do caminho certo. Davi disse que ele nasceu fora do caminho, numa condição de culpa (Sl 103:10).
—Jr 17:9: há duas palavras interessantes neste versículo. “Enganoso” significa “seguir ou estender sobre”. Ela assumiu um significado figurado que é igual a aproveitar-se de ou passar a perna em alguém. A outra palavra, “perverso” significa ser doente além da possibilidade de ser curado. A maldade do coração humano é vinculada com a ideia de estar sem poder para sair da situação.
—Ef 2:1-3: a palavra morto é mais uma expressão do fato de que o ser humano não pode fazer nada sozinho para sair da situação do pecado. É uma descrição da natureza do pecado. Por causa do pecado e dos delitos (transgressões, um passo fora do caminho) o homem está morto. O pecador é uma pessoa que vive segundo o padrão do mundo e do Diabo. Ele tem o sistema do mundo como ponto de referência final na sua vida. Ele é assim por natureza.
A Bíblia dá bastante testemunho da pecaminosidade do ser humano, deixando bem claro que ele não é bom, mas na sua natureza básica é má e ele está morto no pecado
Até que ponto a natureza humana é corrupta? Quais aspectos do ser humano são afetados pelo pecado? Alguns teólogos, como: Irineu de Lyon e Tomás de Aquino, por exemplo — dizem que quando o homem caiu, ele apenas perdeu a justiça original mas que as capacidades intelectuais e emocionais não foram corrompidas. A vontade foi afetada mas não a mente. Outros dizem que o homem tem uma depravação total. Quais aspectos do ser humano foram atingidos pelo pecado?
— A mente: 1Co 2:14: O homem natural é a pessoa que vive como se existisse apenas o mundo físico, ou seja, que ignora o mundo espiritual. Seu ponto de referência é ele mesmo. Ele é um ateu prático. Para ele o evangelho é estupidez e tolice, uma verdadeira loucura. Ele não pode (poder, ser capaz) aceitar (receber um presente) as coisas de Deus. Ao interpretar o evangelho a partir do pressuposto da autonomia humana, o evangelho não faz sentido. Por isso, ele está sem entender.
— A vontade: Is 30:9: “Pois este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do Senhor”.Eles são rebeldes porque eles querem ser assim. A frase ― “não querem!” quer dizer “não disposto”, ou “sem a vontade de fazer alguma coisa”. Eles não ouvem porque eles não querem. Em 2Pe 2:19 usa a expressão ―“escravos da corrupção” descrevendo tais pessoas.
— As emoções: Jo 3:19 “Eles amaram as trevas”. Eles estimaram e tiveram satisfação no mal. E isso foi manifestado nas suas obras.
Temos evidência na Bíblia a favor da corrupção total do ser humano
Nenhum aspecto dele ficou sem dano por causa da queda. A mente, as emoções e a vontade, juntas sofreram as consequências do pecado. Nós vimos que o ser humano inteiro é afetado. Mas qual a gravidade de sua situação? O homem tem capacidade de mudar-se a si mesmo para se tornar bom?
— Jr 13:23 – A palavra mal é (a pessoa acostumada a fazer o mal é uma pessoa com uma natureza má). Uma pessoa assim não tem capacidade de mudar a sua natureza.
— João 6:44 – “Ninguém pode” significa que a pessoa em si não é capaz. Ela não é livre. Conforme Ap. Paulo diz em Romanos 6:16, “ela é escrava do pecado”.
Pecado Social
O teólogo Thomas Hanks diz que a ideia de opressão é uma categoria estrutural da teologia bíblica, que é absolutamente fundamental, mas que ela é muito negligenciada entre os teólogos evangélicos. Ele fez um estudo das palavras no Antigo Testamento que significam opressão e mostrou que a Bíblia considera a pobreza resultado da opressão. Também a exploração dos pobres é um pecado muito grave, segundo o estudo de Hanks. Vamos ver alguns exemplos:
—Opressão: quer dizer injustiça; este conceito está vinculado com o abuso de poder, ou seja, o uso de poder de maneira cruel e injusta. Ec 4:1 em Sl 103:6,7 a opressão é o contrário da justiça. Os atos de Deus para salvar o seu povo incluem a restauração da justiça. O Salmo 103 mostra que uma grande preocupação do Senhor é a defesa dos oprimidos. — Mas por quê?
Pv 14:31 tem a resposta. “Deus toma o lado dos pobres, segundo este versículo. Eles são pessoas criadas à imagem de Deus, portanto, quem explora os pobres está atacando a imagem de Deus. É uma forma de rebelião contra Deus”.
No Novo Testamento este tema continua. Tg 2:1-7, 15-16 e 5:1-6 diz pelo menos duas coisas importantes.
—Primeiro, a exploração do povo que resulta em pobreza é um pecado muito sério contra Deus.
—Segundo, é também um pecado dar preferência aos ricos e não ajudar os pobres. Portanto, devemos tratar os pobres com dignidade e ajudá-los, mas, além disso, o mal estrutural que causa a pobreza deve ser derrotado.
- A opressão, e a pobreza que é o fruto dela, não são consistentes com o Reino de Deus. Por isso, Is 9:4-7 diz que o Messias e o Reino de Deus viriam para libertar os oprimidos.
Podemos receber ajuda do pensamento econômico e social de João Calvino. Este pode ser brevemente resumido assim:
1. É necessário começar por saber qual a atitude que o Senhor deseja que tenhamos diante dos bens materiais: quais os meios lícitos de ganhá-los e qual o seu uso adequado e legítimo.
2. Não devemos buscar os bens terrenos por cobiça. Se vivermos na pobreza, devemos suportá-la pacientemente; se tivermos riquezas, não devemos nos prender a elas nem confiar nelas, devendo estar dispostos a renunciá-las se isso convier a Deus. Tanto o possuir como o não possuir devem ser indiferentes e sem maior valor, considerando a bênção de Deus como maior do que todas as coisas, buscando o reino espiritual de Jesus Cristo sem nos envolvermos em ambições iníquas.
3. Trabalhemos honestamente para ganhar a vida. Recebamos nossos lucros como vindos das mãos de Deus. Não usemos de má fé para nos apossarmos dos bens dos outros, mas sirvamos ao próximo com consciência limpa. Que o fruto de nosso trabalho seja o salário justo. Ao vender e ao comprar não usemos de fraude, astúcia ou mentira. Apliquemos ao nosso trabalho a mesma honestidade e lealdade que esperamos dos outros.
4. Finalmente, quem nada possui não deixe de render graças a Deus e de comer seu pão com alegria. Quem muito possui não use de glutonaria, de luxo, de orgulho e de vaidade, gastando dinheiro com coisas supérfluas; antes, seja em tudo moderado, e empregue seus bens em ajudar e socorrer o próximo, reconhecendo-se como quem recebeu seus bens de Deus e que deles há de um dia prestar contas. Devemos nos lembrar que o que tem em abundância use apenas o necessário para que o que nada tem não fique privado.
5. Em resumo, assim como Jesus Cristo deu-se por nós, também comuniquemos ao próximo, com amor, as graças que recebemos, ajudando-o na sua pobreza e socorrendo-o na sua miséria. Isto é o que nos cabe fazer.
Também podemos lembrar aqui o que disse Abraham Kuyper, um dos gigantes da tradição reformada, em seu discurso no Congresso Social Cristão, em 1891:
Deus não deseja que alguém deva matar-se no trabalho e, mesmo assim, não ter nenhum pão para si e para sua família. E Deus não quer muito menos que qualquer pessoa com mãos e vontade de trabalhar padeça fome ou seja reduzido à condição de mendigo simplesmente por causa de não haver nenhum trabalho. Se temos ‘comida e roupa’, então é verdade que o santo apóstolo ordena que devamos nos contentar com isso. Mas não pode nem deve nunca ser excusado em nós que, enquanto o nosso Pai no céu deseja com bondade divina que uma abundância de comida venha da terra, mediante nossa culpa, essa rica generosidade seja dividida de forma tão desigual que enquanto um se farta de pão, outro vá com o estômago vazio para seu catre e, algumas vezes, não tenha nem mesmo um catre.
7. A Doutrina Bíblica
Doutrina significa princípios que servem de base a um sistema religioso, político, filosófico, científico fundamentadas na ideologia, seja individual ou coletiva.
O ser humano é totalmente corrompido pelo pecado
O homem está morto espiritualmente (Ef 2:1-3). Ele odeia a Deus e não quer nenhuma relação com Ele (Rm 1:18-22). O homem também não tem capacidade de vencer o pecado (Jr 13:23). O arbítrio dele está corrompido e é um escravo do pecado. O pecado afeta toda a natureza dele, inclusive a mente (1Cor 2:14), a vontade, (Is 30:9), e a emoções (João 3:19). Por causa do pecado, o ser humano está afastado de Deus. Ele inimigo de Deus e está sob a ira de Deus. A penalidade do pecado é a morte física e a morte eterna (Rm 5:15; 1Co 15:22). A Bíblia ensina a doutrina da depravação total do ser humano. A doutrina da depravação total não significa que a pessoa seja tão má quanto pode ser.
Muitos pecadores conseguem fazer boas obras e mostram amor e compaixão para com os outros. De fato, todo mundo faz ações boas e ruins. Mas a depravação total significa que mesmo as boas obras estão poluídas por motivos maus. O pecador não faz sequer uma ação sem pelo menos alguns elementos de egoísmo. A depravação total também significa que nenhuma parte da natureza humana é livre dos efeitos do pecado e que a pessoa é assim completamente desamparada. Ela não pode mudar o seu estado e nem quer mudá-lo. Por causa do pecado, o ser humano está afastado de Deus. Ele é inimigo de Deus e está sob a ira de Deus. A penalidade do pecado é a morte física e a morte eterna (Rm 5:15; 1Co 15:22.) O pecado pessoal curado pelo sacrifício de sangue unicamente.
Três divisões gerais do tema podem ser observadas:
- (1) Pecados cometidos anteriormente ou antes da cruz e neste tempo (Rm 3.25, 26);
- (2) pecados dos não-salvos e dos salvos;
- (3) a morte de Cristo pelos pecados e Sua morte para o pecado (Rm 6.10; 1Pe 3.18).
Qual é a implicação da doutrina da depravação total para o livre-arbítrio?
—A. Para os pelagianos e semipelagianos, a queda não afeta o poder do livre-arbítrio. E, segundo Erasmo, este livre-arbítrio é o “poder da vontade pela qual o homem pode se aplicar a si mesmo as coisas que conduzem a salvação eterna, ou desviar”.
—B. Os arminianos, muitos concordam com a análise dos reformadores. Sem a obra do Espírito, ninguém pode escolher o bem. Mas eles crêem que o Espírito faz uma obra preparativa no coração, ou na natureza espiritual de cada pessoa, a obra da graça preveniente. Esta graça restaura o poder do livre-arbítrio, e nos possibilita fazer uma escolha real. Esta graça equilibra o peso do pecado original e o peso da natureza caída, corrupta. Mas o problema é: a Bíblia ensina a existência desta graça preveniente?
—C. Para Lutero, Calvino, Zuínglio, e a maioria dos batistas, este tipo de livre-arbítrio não existe. Temos a liberdade nas coisas ordinárias: o que vamos comer, aonde iremos, etc. Mas na área da salvação, não. A natureza corrupta escolhe, livremente, fazer o mal, rejeitar a vontade de Deus, a lei de Deus. O homem peca inevitavelmente, por causa da natureza, mas livremente, sem coerção, porque a natureza dele quer pecar, gosta de pecar, não quer agradar a Deus, não pode obedecer a Deus (Rm 8.6-8). Sem a obra do Espírito Santo, o homem não pode fazer nada em elação à salvação.
8. O propósito de Deus em permitir o pecado
As influências externas e as motivações subjetivas que impeliram nossos primeiros pais a esse terrível pecado, em primeira instância não implicam pecado neles, mas veio a ser a ocasião de pecarem ao permitirem que suas mentes fossem ocupadas e sua vontade dominada a despeito da proibição divina. Deus em Sua Palavra diz que Ele converte todo mal em bem (Gn 50:20); ou o pecado em benção; Deus criou esse ser ciente de tudo o que aconteceria mediante o Seu soberano conhecimento, e havendo determinado administrar o pecado para o bem, Ele soberanamente decretou não intervir para impedi-lo, e assim infalivelmente o fez futuro.
Ainda que Deus seja o Soberano e dirija todas as coisas, é sabido, segundo A. A. Hodge que Ele não só permite os atos pecaminosos, mas os dirige e controla segundo a determinação de seus próprios propósitos. Contudo, a pecaminosidade dessas ações pertencem exclusivamente ao agente pecador, e Deus de forma alguma é o autor ou aprovador do pecado. As ações pecaminosas, como todas as demais, são expressas na Escritura como ocorrendo pela permissão de Deus e de acordo com seu propósito, de modo que os homens perversamente dizem serem mandados por Deus (Gn 45.4,5; Ex 7.13).
Deus em Sua Riqueza e Glória
A grandeza de Deus se manifesta não apenas em Sua criação e poder, mas também em Sua infinita sabedoria e justiça. Ele não é surpreendido pelo pecado humano, nem é o autor ou aprovador do mal. Em Sua bondade, Deus estabeleceu critérios e limites através de Sua lei, oferecendo ao homem a escolha de seguir o caminho da obediência ou desobedecer. As Escrituras nos ensinam que a lei de Deus é vida para aqueles que a obedecem, conforme Pv 8:35-36: “Porque quem me achar, achará a vida e alcançará o favor do Senhor. Mas o que pecar contra mim violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte.” Deus, em Sua riqueza e glória, concede ao homem o privilégio da escolha, como foi dado a Adão, capacitando-o com conhecimento suficiente para fazer o bem. Gênesis 2:17 nos lembra: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”
1. Deus e Sua Onisciência
Deus, em Sua infinita sabedoria e onisciência, conhece todas as coisas, inclusive o futuro. Ele não é surpreendido pelo pecado humano, pois já conhece todas as escolhas que cada ser humano fará. Esta onisciência não implica que Deus seja o autor do pecado; ao contrário, Ele sabe das inclinações do coração humano e provê meios para que o homem escolha o bem. Sl 139:1-4 destaca essa verdade: “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos.” A onisciência de Deus nos assegura que nada foge ao Seu controle.
2. A Lei de Deus como Orientação para a Vida
A lei de Deus foi dada ao homem como um guia para viver uma vida plena e em harmonia com o Criador. Pv 8:35 nos ensina que quem encontra a sabedoria de Deus, encontra a vida. Esta lei é positiva e tem o propósito de proteger e abençoar aqueles que a obedecem. Deus não deseja a morte ou o sofrimento do homem, mas sim que ele viva abundantemente. A lei divina serve como um mapa que nos conduz ao caminho da retidão, oferecendo vida e bênçãos àqueles que a seguem.
3. O Livre Arbítrio e a Responsabilidade Humana
Deus, em Sua soberania, deu ao homem o livre arbítrio, permitindo que ele escolha entre o bem e o mal. Este privilégio foi concedido a Adão e é uma demonstração do amor e da justiça de Deus. Dt 30:19 diz: “Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.” A capacidade de escolher coloca sobre o homem a responsabilidade de suas ações. Deus não força ninguém a segui-Lo, mas deseja que todos façam essa escolha por amor e fé.
4. Deus como Governante Moral Justo
Deus é um governante moral justo, que estabeleceu leis claras e justas para a humanidade. Ele não apenas criou o homem, mas também deu-lhe a capacidade de entender e obedecer essas leis. Is 33:22 afirma: “Porque o Senhor é o nosso juiz; o Senhor é o nosso legislador; o Senhor é o nosso rei; ele nos salvará.” A justiça de Deus é perfeita, e Ele julga retamente. Como Adão, todos os homens são agentes morais com a capacidade de obedecer ou desobedecer às leis divinas. A justiça de Deus assegura que cada escolha feita será recompensada ou punida de acordo com Sua lei.
Este texto acima reflete sobre a soberania, a justiça e a bondade de Deus, destacando a importância da lei divina, o livre arbítrio humano e a responsabilidade que vem com a escolha de seguir ou desobedecer a Deus.
O pecado da desobediência adâmica
O pecado de Adão trouxe consequências devastadoras para toda a humanidade, levando todos os seres humanos a uma condição de depravação total e separação de Deus. A Escritura nos ensina em Rm 3:23 “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Este versículo destaca a universalidade do pecado e a incapacidade do homem de alcançar a santidade por seus próprios méritos. Desde a queda de Adão, o espírito humano está morto, e o homem está em um estado de escravidão ao pecado, incapaz de se livrar dessa condição sem a intervenção divina. Esta reflexão nos leva a considerar a profundidade do pecado da desobediência adâmica e suas implicações para a humanidade.
A gravidade do pecado da desobediência adâmica, ressalta as consequências devastadoras para a humanidade e a necessidade vital da redenção oferecida por Deus através de Jesus Cristo.
1. A Perda da Virtude da Santidade
O pecado de Adão resultou na perda da virtude da santidade que o homem originalmente possuía diante de Deus. Criado à imagem de Deus, Adão foi dotado de santidade e justiça, mas ao desobedecer, ele e toda a humanidade perderam essa pureza. Em Ge 1:27, lemos que Deus criou o homem à Sua imagem, mas o pecado maculou essa imagem. Agora, todos nascem em pecado e estão destituídos da glória que tinham no Éden. Essa perda da santidade original é o fundamento da condição de pecado em que todos os seres humanos se encontram.
2. A Depravação Total da Humanidade
A desobediência de Adão resultou na depravação total da humanidade, o que significa que todas as áreas da vida humana estão corrompidas pelo pecado. Efésios 2:1 declara: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados.” Esta depravação não significa que o homem é tão mau quanto poderia ser, mas que o pecado afeta todos os aspectos de sua existência: mente, vontade, emoções e corpo. Essa corrupção total torna o homem incapaz de buscar ou agradar a Deus por si mesmo, necessitando da graça de Deus para ser redimido.
3. A Escravidão do Pecado
O pecado da desobediência adâmica coloca o homem em uma condição de escravidão espiritual. Desde o nascimento, o espírito humano está morto, incapaz de se livrar das correntes do pecado por seus próprios esforços. Rm 6:20 nos lembra: “Quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres da justiça.” Esta escravidão ao pecado é uma condição universal que afeta toda a humanidade, indicando que, sem a redenção em Cristo, o homem continua preso a essa condição, incapaz de experimentar a verdadeira liberdade espiritual.
4. A Necessidade da Intervenção Divina
Diante da depravação total e da escravidão ao pecado, a humanidade está em uma posição de completa incapacidade de se redimir. Rm 7:24 expressa o clamor do coração humano: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Somente Deus, por Sua graça e misericórdia, pode resgatar o homem dessa condição. A intervenção divina é necessária para restaurar a vida espiritual e trazer o homem de volta à comunhão com Deus. Essa intervenção foi manifestada de forma suprema em Jesus Cristo, cuja obediência reverteu a desobediência de Adão, oferecendo salvação a todos que crêem.
Afastamento da Aliança
Desde que o homem pecou e afastou-se de Deus (aliança), ele agora é considerado prisioneiro de satanás (o príncipe do poder do ar) que o leva a satisfazer todos os desejos da carne, que são inimizades contra Deus. Portanto, se o homem está em um estado de depravação; se é pecador, por causa do pecado de Adão, já que agora sua descendência por geração ordinária está condenada a este estado, sendo impossível fazer qualquer coisa em prol de sua salvação, como ele poderia remover a barreira que o separa de Deus, seu criador?
As Barreiras Impostas pelo pecado do homem são conhecidas
— Desobediência à Palavra de Deus, soberba humana, orgulho, incredulidade, juízo próprio ou autossuficiência.
Mas a grande barreira a ser superada com certeza é a desobediência para com Deus. O homem deu ouvido a satanás e assim tomou sua decisão, como vimos anteriormente. Agora, não pode por si mesmo se achegar a Deus verdadeiramente. Tendo se rebelado contra Deus, esta pena é justa. Eles a mereceram por causa de suas cobiças. Mesmo assim, não foi fechada a eles a oportunidade para uma reconciliação com Deus, Ele lhes promete um descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e livraria o seu povo do pecado (cf Gn 3.15).
As consequências do pecado em nós, homens pecadores, são inúmeras
— As penas interiores são cegueira do entendimento (Ef 4.18); sentidos depravados (Rm 1.28), fortes ilusões (IITs 2.11), dureza de coração (Rm 2.5), pavor na consciência (Is 33.14) afetos torpes (Rm 1.26). As punições exteriores são a maldição de Deus sobre as criaturas, por nossa causa (Gn 3.17) e todos os outros males que caem sobre nós: em nossos corpos, nossos nomes, bens, relações e ocupações (Dt 28.15), e a própria morte, pois o salário do pecado é a morte (Rm 5.12, 6.23).
Mas Deus em Sua misericórdia e amor socorre ao pecador, estabelecendo o pacto da redenção, muito antes da fundação do mundo, Deus já estava preparado para aquilo que o homem faria. O homem rejeitou a Deus, mas Deus não o rejeitou.
9. Aplicação
A doutrina de depravação total é importante para a formulação da soteriologia. O pecador, por ser incapaz de voltar para Deus, depende de uma intervenção altamente radical na sua vida para ser salvo. Ele não pode se tornar crente em Jesus pela força da sua própria decisão. Estando preso no seu pecado, a única decisão que ele tomará ao ouvir o apelo é rejeitar a Jesus. Por isso, é preciso que o Espírito Santo intervenha para capacitar o pecador a receber a Cristo. Assim, não cabe a nós, como pregadores e testemunhas, a tarefa de converter as pessoas através de métodos humanos de persuasão, e não através de situação coercitiva. O resultado do evangelismo é determinado pelo Senhor. E ele promete que a sua Palavra cumprirá o seu propósito.
A doutrina de pecado, portanto, revela uma realidade que é absolutamente necessária encarar para ser salvo. No dia do juízo final, muitos que acham que são cristãos descobrirão que não são. Eles poderiam ter tido uma experiência religiosa, mas nunca se arrependeram de verdade. Muitas vezes isso pode ser por causa de não entender quão grave é pecado.
De dentro para fora
Não basta de ler um folheto, recitar uma oração escrita ou levantar a mão durante o apelo para alcançar a vida eterna. É preciso chegar a um arrependimento profundo, e isso não acontece sem conhecer a depravação e o estado de desamparo total no qual o pecador vive (sua alma). O pecador deve chegar a entender a natureza da sujeira e maldade que poluem o seu coração. Somente assim ele pode confessar sua incapacidade de se salvar, e se jogar totalmente na graça infinita do Senhor. Então, jamais o pregador deverá deixar de pregar sobre pecado.
Convivência mútua
Uma outra aplicação tem a ver com nossos relacionamentos uns com os outros. Francis Schaeffer disse que em toda interação com as outras pessoas devemos sempre relembrar duas coisas. O outro é criado à imagem de Deus, e assim merece ser tratado com toda dignidade que reflete o valor infinito que foi posto nele por Deus. Também, o outro é pecador, carente do amor e perdão de Deus e a nossa paciência, amor e perdão também.
Nunca devemos ficar abalados quando alguém cai, mesmo se fosse uma pessoa muita estimada. Também nunca devemos nos enganar, achando que é somente o outro que pode cair e não nós mesmos. A doutrina de pecado deve nos impulsionar a nos vigiar, e a depender totalmente de Deus, em nossa luta para vencer o pecado.
Sugestões de verdades que podemos acolher
(1) O pecado foi permitido entrar para assegurar uma raça possuída daquela virtude que é devida à decisão do livre-arbítrio para o bem, antes que para o mal. Deus conhece perfeitamente todas as coisas, mas o homem deve aprender por meio da experiência ou revelação (Gn 3.22). Portanto, é dito de Cristo, do lado humano, que Ele aprendeu pela experiência (Hb 2.10; 5.8). Então, deve-se aprender que Deus conhece, a fim de guardar-se.
(2) Como pode conhecer o que Deus reconhece a respeito do pecado e seu caráter sem o aparecimento do pecado? Não é esta manifestação uma necessidade.
(3) A que ponto do pecado e de suas consequências deve a humanidade ir, contudo, para que este fim seja realizado?
Consequentemente, a plena expressão do pecado é exigida e a sua punição eterna também.
Anexo
A CRIAÇÃO E A QUEDA
Em nosso Livro anterior tratamos suficientemente sobre alguns dos principais pontos do culto pagão dos ídolos, e como estes falsos deuses surgiram originalmente. Nós também, pela graça de Deus, indicamos brevemente que o Verbo do Pai é Ele mesmo divino, que todas as coisas que existem devem seu próprio ser à sua vontade e poder e que é através d’Ele que o Pai dá ordem à Criação, por Ele que todas as coisas são movidas e através d’Ele que recebem o seu ser.
Agora, Macário, verdadeiro amante de Cristo, devemos dar um passo a mais na fé de nossa sagrada religião e considerar também como o Verbo se fez homem e surgiu entre nós. Para tratar destes assuntos é necessário primeiro que nos lembremos do que já foi dito. Deves entender por que o Verbo do Pai, tão grande e tão elevado, se manifestou em forma corporal. Ele não assumiu um corpo como algo condizente com a sua própria natureza, mas, muito ao contrário, na medida em que Ele é Verbo, Ele é sem corpo. Manifestou-se em um corpo humano por esta única razão, por causa do amor e da bondade de seu Pai, pela salvação de nós homens.
Começaremos, portanto, com a criação do mundo e com Deus seu Criador, pois o primeiro fato que deves entender é este: a renovação da Criação foi levada a efeito pelo mesmo Verbo que a criou em seu início. Em relação à criação do Universo e à criação de todas as coisas tem havido uma diversidade de opiniões, e cada pessoa tem proposto a teoria que bem lhe apraz. Por exemplo, alguns dizem que todas as coisas são auto originadas e, por assim dizer, totalmente ao acaso. Entre estes estão os Epicureos, os quais negam terminantemente que haja alguma Inteligência anterior ao Universo. Outros fazem seu o ponto de vista expressado por Platão, aquele gigante entre os Gregos. Ele disse que Deus fez todas as coisas da matéria pré-existente e incriada, assim como o carpinteiro faz as suas obras da madeira que já existe. Mas os que sustentam esta opinião não se dão conta que negar que Deus seja Ele próprio a causa da matéria significa atribuir-Lhe uma limitação, assim como é indubitavelmente uma limitação por parte do carpinteiro que ele não possa fazer nada a não ser que lhe esteja disponível a madeira. Então, finalmente, temos a teoria dos gnósticos, que inventaram para si mesmos um Artífice de todas as coisas, outro que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Estes simplesmente fecham os seus olhos para o sentido óbvio das Sagradas Escrituras. Tais são as noções que os homens têm elaborado. Mas pelo divino ensinamento da fé cristã nós sabemos que, pelo fato de haver uma Inteligência anterior ao Universo, este não se originou a si mesmo; por ser Deus infinito, e não finito, o Universo não foi feito de uma matéria pré-existente, mas do nada e da absoluta e total não existência, de onde Deus o trouxe ao ser através do Verbo.
Ele diz, neste sentido, no Gênesis:
«No início Deus criou o Céu e a Terra»; e novamente, através daquele valiosíssimo livro ao qual chamamos “O Pastor”:
«Crede primeiro e antes de tudo o mais que há apenas um só Deus o qual criou e ordenou a todas as coisas trazendo-as da não existência ao ser». Paulo também indica a mesma coisa quando nos diz: «Pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela Palavra de Deus, de tal modo que as coisas visíveis provieram das coisas invisíveis». (Hb 11. 3)
Pois Deus é bom, ou antes, Ele é a fonte de toda a bondade, e é impossível por isso que Ele deva algo a alguém. Não devendo a existência a ninguém, Ele criou a todas as coisas do nada mediante seu próprio Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, e de todas as suas criaturas terrenas ele reservou um cuidado especial para a raça humana. A eles que, como animais, eram essencialmente impermanentes, Deus concedeu uma graça de que as demais criaturas estavam privadas, isto é, a marca de sua própria Imagem, uma participação no ser racional do próprio Verbo, de tal modo que, refletindo-O, eles mesmos se tornariam racionais expressando a Inteligência de Deus tanto quanto o próprio Verbo, embora em grau limitado. Deste modo, os homens poderiam continuar para sempre na bem aventurada e única verdadeira vida dos santos no paraíso. Como a vontade do homem poderia, porém, voltar-se para vários caminhos, Deus assegurou-lhes esta graça que lhes havia concedido condicionando-a desde o início a duas coisas. Se eles guardassem a graça e retivessem o amor de sua inocência original, então a vida do paraíso seria sua, sem tristeza, dor ou cuidados, e após ela haveria a certeza da imortalidade no céu. Mas se eles se desviassem do caminho e se tornassem vis, desprezando seu direito natal à beleza, então viriam a cair sob a lei natural da morte e viveriam não mais no paraíso, mas, morrendo fora dele, continuariam na morte e na corrupção. Isto é o que a Sagrada Escritura nos ensina, ao proclamar a ordem de Deus:
«De todas as árvores que estão no jardim vós certamente comereis, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não havereis de comer, pois certamente havereis de morrer».
«Certamente havereis de morrer», isto é, não apenas morrereis, mas permanecereis no estado de morte e corrupção. Estarás talvez a divagar por que motivo estamos discutindo a origem do homem se nos propusemos a falar sobre o Verbo que se fez homem. O primeiro assunto é de importância para o último por este motivo: foi justamente o nosso lamentável estado que fez com que o Verbo se rebaixasse, foi nossa transgressão que tocou o seu amor por nós. Pois Deus havia feito o homem daquela maneira e havia querido que ele permanecesse na incorrupção. Os homens, porém, tendo voltado da contemplação de Deus para o mal que eles próprios inventaram, caíram inevitavelmente sob a lei da morte. Em vez de permanecerem no estado em que Deus os havia criado, entraram em um processo de uma completa degeneração e a morte os tomou inteiramente sob o seu domínio. Pois a transgressão do mandamento os estava fazendo retornarem ao que eles eram segundo a sua natureza, e assim como no início eles haviam sido trazidos ao ser a partir da não existência, passaram a trilhar, pela degeneração, o caminho de volta para a não existência. A presença e o amor do Verbo os havia chamado ao ser; inevitavelmente, então, quando eles perderam o conhecimento de Deus, juntamente com este eles perderam também a sua existência. Pois é somente Deus que existe, o mal é o não ser, a negação e a antítese do bem. Pela natureza, de fato, o homem é mortal, já que ele foi feito do nada; mas ele traz também consigo a Semelhança d’Aquele que É, e se ele preservar esta semelhança através da contemplação constante, então sua natureza seria despojada de seu poder e ele permaneceria indegenerescente. De fato, é isto o que vemos escrito no Livro da Sabedoria:
«A observância de Suas Leis é a garantia da imortalidade». (Sab. 6, 18)
E, incorrompido, o homem seria como Deus, conforme o diz a própria Escritura, onde afirma:
Eu disse: Sois deuses, e todos filhos do Altíssimo. Mas vós como homens morrereis, caireis como um príncipe qualquer” (Salmo 81, 6)
Esta, portanto, era a condição do homem. Deus não apenas o havia feito do nada, mas também lhe tinha graciosamente concedido a Sua própria vida pela graça do Verbo. Os homens, porém, voltando-se das coisas eternas para as coisas corruptíveis, pelo conselho do demônio, se tornaram a causa de sua própria degeneração para a morte, porque, conforme dissemos antes, embora eles fossem por natureza sujeitos à corrupção, a graça de sua união com o Verbo os tornava capazes de escapar na lei natural, desde que eles retivessem a beleza da inocência com a qual haviam sido criados.
Isto é o mesmo que dizer que a presença do Verbo junto a eles lhes fazia de escudo, protegendo-os até mesmo da degeneração natural, conforme também o diz o Livro da Sabedoria:
«Deus criou o homem para a imortalidade e como uma imagem de sua própria eternidade; mas pela inveja do demônio entrou no mundo a morte».
Quando isto aconteceu os homens começaram a morrer e a corrupção correu solta entre eles, tomou poder sobre os mesmos até mais do que seria de se esperar pela natureza, sendo está a penalidade sobre a qual Deus os havia avisado prevenindo-os acerca da transgressão do mandamento. Na verdade, em seus pecados os homens superaram todos os limites. No início inventaram a maldade; envolvendo-se desta maneira na morte e na corrupção, passaram a caminhar gradualmente de mal a pior, não se detendo em nenhum grau de malícia, mas, como se estivessem dominados por um insaciável apetite, continuamente inventando novo tipos de pecados. Os adultérios e os roubos se espalharam por todos os lugares, os assassinatos e as rapinas encheram a terra, a lei foi desrespeitada para dar lugar à corrupção e à injustiça, todos os tipos de iniquidades foram praticados por todos, tanto individualmente como em comum. Cidades fizeram guerra contra cidades, nações se levantaram contra nações, e toda a terra se viu repleta de divisões e lutas, enquanto cada um porfiava em superar o outro em malícia. Até os crimes contrários à natureza não foram desconhecidos, conforme no-lo diz o Apóstolo mártir de Cristo:
“Suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza; e os homens também, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos um para com o outro, cometendo atos vergonhosos com o seu próprio sexo, e recebendo em suas próprias pessoas a recompensa devida pela sua perversidade”. (Rm. 1, 26-7)
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por Teo.Prof Sergio Valentin Grizante