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Introdução

1. O Novo Testamento

2. O Evangelho

3. Os Sinóticos

4. Eventos do Novo Testamento

5. Atos dos Apóstolos



Uma visão global dos livros do NT, assim como os de toda a Bíblia, é fundamental para se compreender a sua mensagem e o propósito de Deus ao nos dar a sua revelação. Eles não são peças isoladas que alguém aleatoriamente coleci-onou, mas partes de um conjunto harmônico e completo.

Cada livro tem a sua parcela de contribuição para o todo que Deus quis que conhecêssemos. Não seria suficiente conhecer os evangelhos sem as epístolas, assim como estas não teriam sentido sem aqueles e sem o livro de Atos, onde temos a narrativa dos fatos históricos da vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, do Pentecostes, da pregação dos apóstolos e da expansão da Igreja. Ouve-se dizer que em textos como João 3:16 ou Romanos 1:16 (preciosíssimos, sem dúvida) já temos todo o evangelho de Deus. Não é verdade. O evangelho de Deus está apresentado em 66 livros, todos igualmente importantes e necessários para conhecermos aquilo que Deus intencionou revelar-nos. Nada mais e nada menos. Pois a Escritura é “a escola do Espírito Santo na qual, assim como nada proveitoso e necessário de se conhecer foi omitido, também nada é ensinado além do que é preciso saber”. (Calvino)

Para aprofundar o assunto, podemos explorar alguns aspectos adicionais que enriquecem a compreensão da importância de ver a Bíblia. Quando se estuda a Bíblia, é crucial interpretar cada livro e passagem dentro do seu contexto imediato, mas também à luz do cânon completo das Escrituras. O Novo Testamento, por exemplo, não pode ser plenamente compreendido sem referência ao Antigo Testamento, que fornece o pano de fundo histórico, cultural e teológico para a vinda de Cristo e a formação da Igreja. Da mesma forma, as epístolas apostólicas explicam e aplicam os ensinamentos de Jesus e os eventos narrados nos Evangelhos e em Atos, mostrando como a vida e obra de Cristo impactam a fé e a prática cristã. Em um mundo cada vez mais pluralista e secularizado, a interpretação da Bíblia enfrenta novos desafios. A leitura crítica e acadêmica das Escrituras, as diferentes abordagens hermenêuticas e as questões éticas contemporâneas exigem que os cristãos mantenham um compromisso com a integridade da mensagem bíblica, ao mesmo tempo em que buscam respostas relevantes para os dilemas atuais. Esse compromisso só pode ser mantido se a Bíblia for vista como um todo, onde cada livro, mesmo os mais antigos ou aparentemente irrelevantes, tem algo a contribuir para a vida cristã hoje.

Ao longo da história, a Igreja tem afirmado a autoridade e a suficiência das Escrituras, reconhecendo nelas a revelação completa de Deus para a humanidade. Desde os primeiros credos até as confissões reformadas, a Igreja tem defendido a ideia de que a Bíblia, em sua totalidade, é necessária para a salvação e a vida cristã. Este testemunho histórico é uma evidência da importância de se manter uma visão global e integrada das Escrituras. Ao explorar esses estudos, podemos aprofundar nossa compreensão da importância de abordar a Bíblia como um todo coeso e interdependente, onde cada livro desempenha um papel vital na revelação de Deus e na formação da fé cristã.

Contudo devemos saber que cada livro contribui com ensinamentos, exemplos e mandamentos que moldam a ética, a espiritualidade e a missão do cristão. A leitura e a aplicação dos ensinamentos bíblicos exigem uma visão integral das Escrituras, para evitar interpretações fragmentadas que possam distorcer a mensagem original. A harmonia entre doutrina e prática cristã é alcançada quando se entende que toda a Escritura é inspirada e útil para o ensino, repreensão, correção e instrução na justiça (2 Timóteo 3:16).



1. O Novo Testamento

Novo Testamento é o nome que se dá aos 27 livros que compõem a segunda parte da Bíblia.

Ao contrário dos livros do Antigo Testamento, que foram escritos em hebraico (com algumas porções em aramaico) e num longo espaço de tempo(cerca de 1.500 anos), esses foram todos escritos em grego e num curto período (pouco mais de meio século). Neles encontramos diferentes gêneros literários como narrativas históricas, epístolas doutrinárias e pastorais, homílias, cartas pessoais e profecias. Alguns desses gêneros são bem peculiares, como os evangelhos, e outros seguem até certo ponto modelos literários da época (do mundo grego-romano) como o livro de Atos e algumas das epístolas. Todos servem, nada obstante, ao mesmo propósito final do seu divino autor: fornecer a revelação de Deus ao homem com o propósito de salvá-lo.

Nesse sentido, são a continuação do que Deus já havia anteriormente revelado e escriturado através dos 39 livros do Antigo Testamento, no processo que chamamos de revelação progressiva de Deus. Geralmente se diz que o Novo Testamento é o cumprimento daquilo que Deus prometeu no Antigo e isso, até certo ponto, é verdade.

Temos no NT a concretização de muitas expectativas do AT e o cumprimento explícito de muitas das suas profecias, especialmente das que se relacionam com a vinda e o reino do Messias. Mas o Novo Testamento é mais do que simplesmente o cumprimento do Antigo, pois este não se esgota e nem se exclui com aquele. Eles não se substituem, mas se completam. A mensagem do A.T. ainda é para os nossos dias assim como as promessas e realidades tratadas historicamente no NT já podiam ser, até certo ponto, antecipadas e gozadas no período do A.T.

Ambos os Testamentos são parte daquela revelação que começou a ser dada pelos profetas e que foi confirmada e culminou com o verdadeiro Profeta, do qual os outros eram mensageiros e figura, Jesus Cristo, conforme nos ensina Hb 1:1.

Nem todas as profecias e promessas do A.T. foram cumpridas no NT, da mesma forma como não temos no NT apenas cumprimentos, mas outras profecias e promessas, bem como o desenvolvimento e o clímax da revelação que já fora dada anteriormente. São parte da revelação do pacto que Deus estabeleceu com o homem, e completam essa revelação. Um não é mais importante do que o outro e nenhum estaria completo por si só. Se queremos entender a revelação de Deus, em sentido amplo e adequado, não podemos valorizar um em detrimento do outro.

É conhecida a expressão que “o N.T. está latente no A.T. assim como o A.T. está patente no N.T.”. Melhor dizer que a revelação iniciada no AT é continuada, expandida e completada no NT. Você precisa dos dois para ter toda a revelação!

Por que “Novo Testamento”?

O termo testamento não é a melhor tradução e não expressa corretamente a ideia do seu conteúdo. Ele vem do latim testamentum, que foi como se traduziu a palavra grega diatheke e a hebraica berith. Ambas têm o sentido de aliança, pacto ou concerto, que é a ideia mais adequada para o conteúdo da revelação, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Eles contêm a mensagem da aliança ou pacto que Deus estabeleceu com o homem, desde a sua criação, aliança essa que foi quebrada por este já no Jardim do Éden, mas restaurada e cumprida na pessoa do mediador, Jesus Cristo.

Daí ser Jesus, juntamente com os conceitos de Reino e Aliança, os temas centrais e unificadores das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento.

Essa aliança foi confirmada e realizada através de diversas administrações ou pactos temporais, ao longo dos tempos. Nessa aliança, administrada e expandida através de pactos temporais (Edênico, Noético, Abraâmico, Mosaico ou Sinaítico, Davídico e Novo) encontramos as estipulações de Deus para o homem, com promessas e advertências, bênçãos e maldições.

A Bíblia usa o termo “nova aliança”, tanto no AT (Jr 31:31) como no NT (Mt 26:28; 1Co 11:25; Hb 8:8,13; 9:15; 12:24). Em Hebreus, a expressão é uma referência à aliança ou administração do pacto que, com a vinda de Cristo, substituiu o sistema antigo de culto estabelecido na aliança mosaica (leis cerimoniais). É o que chamamos de Novo Pacto ou Nova Aliança. O termo grego usado para qualificar a aliança como “nova”, em todo o NT (exceto em Hb. 12:24), assim como na Septuaginta, koine, é o que transmite a ideia de “algo renovado” ou “restaurado” e não necessariamente no sentido de “algo inédito”, ou “inexistente anteriormente”. Ela é “nova” em relação à velha. É “renovada”, tornada melhor e superior. Este é o sentido de kaine, no uso com diatheke nessas passagens.

As expressões aplicadas às duas coleções de livros sagrados, vêm do século II. Os livros escritos pelos apóstolos e outros homens ligados a eles (sob autoridade apostólica) logo passaram a ser reconhecidos como tendo a mesma autoridade dos livros que os judeus consideravam sagrados (As Escrituras), pelo menos pela maioria da Igreja. Já no tempo dos apóstolos isto acontecia (lTm 5:18; 2Pe 3:15-16). Todavia, um pouco mais tarde, foi sentida a necessidade de se dar uma designação a essas duas classes de escritos: os que os judeus chamavam de Escritura (Jo 19:37; lPe 2:6, sem artigo no texto grego); a Escritura (Jo 13:18; Rm 4:3), as Escrituras (Mt 22:29; 1Co 15:3,4); a Lei (Mt 12:5); a Lei e os Profetas (Mt 7:12) ou ainda a Lei, os Profetas e os Salmos (Lc 24:44) e os outros escritos dos apóstolos e de outros sob sua autoridade, que eram igualmente considerados sagrados e autoritativos (parte do Cânon). Um uso que já prevalecia forneceu os nomes adequados. O termo A Nova Aliança, usado por Jesus e os apóstolos para referir-se à promessa de Jeremias 31:31, que se cumpriu com a vinda do Messias, sugeriu naturalmente a aplicação da frase a Antiga Aliança.

Essa expressão já tinha sido usada até mesmo por Paulo (2Co 3:14), embora talvez não se referindo a todo o conjunto de livros sagrados dos judeus, mas, pelo menos, a uma parte dele. Foi assim que surgiu na Igreja Grega o uso das expressões A Antiga Aliança (e palaia diatheke) e A Nova Aliança (e kaine diatheke) para designar os escritos sagrados dos judeus e dos cristãos, respectivamente. Na Igreja Latina prevaleceu o uso de Velho e Novo Testamento (Vetus et Novum Testamentum). A razão disso é porque a palavra latina equivalente para o sentido primário de diatheke (no grego literário) é testamentum e não foedus ou pactum, como seria mais adequado, para o sentido bíblico do termo.

Tertuliano (Imperador) preferia o uso de instrumentum (termo usado tecnicamente para denotar um escrito pelo qual alguma coisa deveria ser testada ou provada), Agostinho usava tanto instrumentum como testamentum, mas o uso que acabou prevalecendo na Igreja Ocidental foi este último. Da Vulgata e do uso dos pais latinos o termo Testamento passou para todas as versões modernas, como designativo das duas seções da Bíblia. É o que usamos hoje, embora Aliança fosse melhor.

Já afirmamos que o Novo Testamento é o prosseguimento da revelação divina, escriturada e dada por Deus através dos apóstolos e outros a eles ligados. Essa revelação foi dada através de diferentes gêneros literários: narrativas históricas, parábolas, sermões, hinos, epístolas, profecias, etc.

Os livros do NT, que contêm esses diferentes gêneros literários, são geralmente agrupados em quatro categorias:

As Epístolas costumam ser divididas em Paulinas e Gerais. O livro de Atos deve ser melhor classificado como história teológica, pois seu objetivo principal não é histórico, mas teológico.

Esses livros estão arranjados em ordem lógica, e não cronológica. O arranjo começa com os Evangelhos, que narram os atos e ensinos de Jesus durante seu ministério terreno, passa para o livro de Atos, que narra a continuidade desses atos e ensinos através dos apóstolos, à medida que se expande o Cristianismo de Jerusalém para o mundo gentílico, continua com as Epístolas, que desenvolvem as doutrinas da Igreja e as normas de sua conduta e organização, para terminar com a visão do triunfo final de Cristo em sua segunda vinda, no livro de Apocalipse.

Uma visão global dos livros do NT, assim como os de toda a Bíblia, é fundamental para se compreender a sua mensagem e o propósito de Deus ao nos dar a sua revelação. Eles não são peças isoladas que alguém aleatoriamente colecionou, mas partes de um conjunto harmônico e completo.

Cada livro tem a sua parcela de contribuição para o todo que Deus quis que conhecêssemos. Não seria suficiente conhecer os evangelhos sem as epístolas, assim como estas não teriam sentido sem aqueles e sem o livro de Atos, onde temos a narrativa dos fatos históricos da vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, do Pentecostes, da pregação dos apóstolos e da expansão da Igreja. O evangelho de Deus está apresentado em 66 livros, todos igualmente importantes e necessários para conhecermos aquilo que Deus intencionou revelar-nos. Nada mais e nada menos.



O Novo Testamento começa com quatro livros que têm o mesmo título “Evangelho”: são os mais excelentes de todos os livros da Sagrada Escritura “enquanto são o principal testemunho da vida e doutrina do Verbo Encarnado, nosso Salvador – Jesus Cristo”.

O termo Evangelho vem do latim “evangelium” e do grego “evangelion” e significa boa nova, boa notícia. No grego clássico e helênico designava uma notícia alegre, especialmente uma vitória. Também podia indicar a recompensa que se dava ao portador dessa boa notícia. Os romanos chamavam de evangelho ao conjunto de benefícios que o imperador Augusto tinha trazido à humanidade e, também, usavam a palavra para anunciar o nascimento de um herdeiro de César ou da ascenção de um César ao trono.

A tradução da Septuaginta (LXX) já usava este termo no sentido de anunciar os tempos messiânicos (Is 52,7) e também no sentido da chegada do Reino de Deus (Is 61,1 cf Lc 4,18s).

Na igreja primitiva, Evangelho significava os livros que tratavam da boa nova da salvação messiânica. Esta “boa notícia” não é simplesmente mais uma mensagem de bem para a humanidade: ela é decisiva e definitiva, pois é a proclamação de que Jesus, com sua morte e ressurreição, nos libertou, nos redimiu dos nossos pecados, dando pleno cumprimento às promessas salvadoras que Deus tinha feito através dos profetas no Antigo Testamento.

Só existe um Evangelho que leva à salvação: o pregado pelos apóstolos que, por sua vez, o receberam de Cristo, que lhes disse: “ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

O termo “Evangelho” encontrado nos Evangelhos (p.e., Mt. 4,23; 9,35; 24,14; 26,13. Mc 1,14.15; 8,35; 10,29; 13,10; 14,9; 16,15), vem sempre da boca de Jesus ou, então, se refere à sua pregação. Há uma exceção: Mc 1,1. Em Lucas prevalece o verbo “evangelizar” (Lc 1,19; 2,10; 3,18; 4,18.43; 7,22; 8,1; 9,6; 16,16; 20,1) e reencontrado nos sinóticos apenas em Mt 11,5.

Há uma identificação entre o que Jesus diz, faz e é: “quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”, Mc 8.35. Nesse paralelismo é evidente a identificação entre o Evangelho e Jesus. E mais claramente: “quem tiver deixado irmãos, irmãs ou mãe… por causa de mim e por causa do evangelho…”, Mc 10,29. Portanto, “Evangelho”, mais do que uma nova doutrina designa a novidade da pessoa de Jesus. Ele se tornou portador de toda a novidade, sendo portador de si mesmo.

A tradição eclesiástica atribui os Evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e João.

Existem também Evangelhos apócrifos de Tomé, Tiago, Nicodemos, que a consciência cristã não reconheceu como Palavra de Deus: contem traços de história e verdade, ao lado de seções fantasiosas e heréticas.

Na tradição da Igreja, os Evangelhos são simbolizados pelos animais descritos em Ez 1,10 e Ap 4,6-8: o leão Marcos, o touro Lucas, o homem Mateus e a águia João. A tradição adaptou esses símbolos aos autores sagrados levando em conta o início de cada Evangelho, como:

*Esta atribuição de símbolos aos evangelistas não se deve aos autores de Ez e do Ap, mas é obra de escritores cristãos dos séculos II/IV.

O conteúdo dos quatro Evangelhos é, em linhas gerais, o mesmo. Embora cada um comece de maneira diferente, todos coincidem no essencial: a apresentação de Jesus e da sua mensagem. Cristo não é somente o objeto do Evangelho mas também o sujeito, pois Ele é o seu autor.

Mateus e Lucas tem dois capítulos para a infância de Jesus e acontecimentos anteriores ao nascimento dele: anunciação do anjo a José em Mateus e a Maria em Lucas que também fala da anunciação a Zacarias pai de João Batista. Marcos e João colocam Jesus diretamente e cena como adulto.

Ainda que a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo constituam o essencial da narrativa evangélica, os outros atos e gestos de Jesus e sobretudo seus ensinamentos não são negligenciáveis, tanto mais quanto a Ressurreição lhe dá um sentido novo.

Os Evangelhos não se propõem a fazer uma biografia de Jesus, mas a dar os ensinamentos necessários à salvação da humanidade. Jo 20,30s “estes sinais foram escritos para que , crendo tenham a vida em seu nome”. Não se trata de uma fé meramente intelectual mas de uma fé que deve fazer-se vida.

As Escrituras são citadas com freqüência pelo próprio Jesus e mostram que o que tinha sido anunciado está se cumprindo em Sua pessoa. Ele é o Messias anunciado pelo Antigo Testamento.



3. Os Sinóticos

As semelhanças entre Marcos, Mateus e Lucas são tantas que se podem transcrever em três colunas paralelas, permitindo assim uma visão de conjunto, com um só olhar, ou Sinopse (syn= conjunto, hopsis = visão) quer das semelhanças, quer das diferenças entre eles. Por este aspecto, convencionou-se chamá-los Evangelhos Sinóticos. Um levantamento aproximado do número de versículos pode ser assim resumido:

                            Mt        Mc       Lc

Comum aos três           330      330      330

Comum a Mt / Mc         178      178

Comum a Mt / Lc          230                 230

Comum a Mc / Lc                     100      100

Próprio de cada um      330      53        500

Nos Sinóticos, os fatos e atos de Jesus e seus ensinamentos às multidões através da Galiléia, Judéia e Jerusalém representam perto de ¾ dos sinóticos e apenas a metade em João. Os últimos dias, os diálogos com os discípulos e as narrativas da Paixão ocupam ¼ dos Sinóticos e perto da metade de João.

São nas narrativas da aparição após a Ressurreição que se apresentam as maiores diferenças entre os Evangelhos: seja em relação ao calendário, aos lugares, aos modos de aparição, seja em relação à própria escolha dos episódios.

Dos sete milagres (sinais) que João conta, só dois são comuns aos outros: a multiplicação dos pães e o caminhar sobre o lago. Mas a maior diferença está nos discursos, que em João obedecem a um tema unificador, partindo de um acontecimento ou de um diálogo pessoal até alcançar uma grande profundidade doutrinal.

As diferenças de conteúdo e de estrutura são relativamente pequenas nos Sinóticos mas relativamente grandes entre estes e João, mas é sempre o mesmo Jesus e a mesma mensagem vistos de perspectivas diferentes.

Quanto às datas, não as temos de modo preciso, pois há opiniões diferentes. Para alguns o primeiro a escrever foi Mateus, em Israel e em aramaico em 50, tendo sido traduzido para o grego em 80, porque o aramaico havia entrado em desuso; o original aramaico se perdeu. Esta redação serviu de base para Marcos que teria escrito por volta de 65/70 e para Lucas que escreveu em 75. Alguns identificam o Mateus aramaico com a fonte “Q” (fonte escrita comum – ou fontes – normalmente, denominada Q do Alemão Quelle , significando “fonte”).

Para outros o primeiro escrito foi de Marcos que teria escrito pelo fim da vida de Pedro, por volta de 55-65 uma vez que não supõe a ruína de Jerusalém. Mateus e Lucas também seriam anteriores a queda da cidade, e se utilizariam de Marcos e da fonte Q. Lucas escreveu os Atos em 62 e o seu Evangelho antes, ora Marcos é anterior a Lucas, o que o levaria aos anos 60. Mateus na sua forma grega é posterior a Marcos, mas anterior a 70, ano da queda da cidade de Jerusalém. Dá para se perceber que o assunto é complexo e ainda está em aberto.

Podemos observar três etapas na divulgação dos Evangelhos:

— De Jesus aos apóstolos através de sua vida e de sua palavra. É a base sólida dos quatro Evangelhos. Antes da Páscoa, a compreensão dos ouvintes era lenta; depois de Pentecostes os apóstolos, guiados pelo Espírito Santo, passaram a entender mais claramente a divindade de Jesus e o profundo sentido de sua mensagem de salvação.

— Dos apóstolos às comunidades a primeira pregação. Kerigma  (cerne da mensagem cristã) e a catequese dos apóstolos e colaboradores tem como núcleo a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. A este núcleo se acrescentam, principalmente, as narrações de milagres que comprovam o poder de Jesus e as parábolas que manifestam a doutrina de Jesus sob a forma de ensino. Esta etapa influenciou decisivamente a forma que o Evangelho escrito viria a tomar. Na pregação havia uma adaptação aos diversos ambientes nos quais ela se realizava, de acordo com a necessidade, a fim de se tornar mais viva e significativa.

O ensino (didakhe) era para a formação dos convertidos para um maior esclarecimento da fé visando uma vivência cristã mais perfeita e para poderem dar as razões da sua esperança (1Pe 3.15). Os primeiros cristãos tinham um grande desejo de conhecer em pormenores a vida do Senhor, sobretudo as suas palavras, os seus milagres, a sua pessoa, particularmente o que se referia à sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Um aspecto importante a se ter em conta é a preponderância e a autoridade dos apóstolos. Alguns teólogos observam que o Evangelho de Marcos, de certa maneira, é o “Evangelho de Pedro”, de quem Marcos o ouviu diretamente e serviu de fonte para os outros evangelistas, e também o fato de Pedro ter pregado em Jerusalém e Antioquia, comunidades onde surgiram os Evangelhos de Mateus e Lucas.

— Das comunidades cristãs aos evangelistas. A medida que iam pregando o Evangelho, os apóstolos experimentaram a necessidade de deixar por escrito ao menos algumas partes do mesmo: palavras, milagres e ditos de Jesus a fim de facilitar a aprendizagem dos discípulos.

— Durante quarenta anos formaram-se tradições orais. Conservavam e transmitiam, por meio da pregação, da liturgia e do ensino, todas a matérias com que nos deparamos nos Evangelhos.

A partir do momento em que os testemunhos da primeira hora começaram a desaparecer surgiu a preocupação de conservar por escrito os diversos ensinamentos, sistematizando os diversos fragmentos da pregação evangélica. Lucas (1,1) afirma que muitos se propuseram a escrever antes dele. Das diversas compilações, quatro foram reconhecidas pela Igreja como inspiradas por Deus.

Os autores serviram-se da pregação apostólica, do material escrito anteriormente mas não como meros compiladores e sim como autores, imprimindo um cunho pessoal, uma ordem e uma redação apropriados aos seus leitores imediatos, de acordo com a necessidade deles. Em função disto, os Evangelhos revelam uma determinada visão teológica própria e uma particular preocupação doutrinal. Eles selecionaram o que lhes pareceu mais importante, resumiram e agruparam elementos discursivos e narrativos à volta de um tema ou de um lugar. Em todo este trabalho foram guiados e iluminados pelo Espírito Santo sem lhes alterar a personalidade ou seus cunhos pessoais de escritores.

Inicialmente é bom lembrar que os evangelistas escreveram para um público de fiéis. Portanto, o que mais interessava era o sentido e não a historicidade das palavras, e sim, os atos de Jesus. Isto não implica em que os eventos históricos não sejam importantes. Há uma relação entre os fatos e os personagens. Exemplo: Augusto, Tibério, Pôncio Pilatos, Herodes, Anãs e Caifás, etc. E também dados geográficos: Tiberíades, Cafarnaúm, Cesaréia, Belém; assim como costumes (túnicas, sandálias) e o quadro religioso (a Lei e os Profetas).

Os Evangelhos manifestam um claro interesse pela atividade terrena de Jesus sem, contudo, atribuir-lhe uma cronologia ou topografia precisa. Exemplo: naquele tempo, depois, em seguida, em casa, sobre a montanha, etc.

A imagem de Jesus não foi desfigurada nem alterada. Os Evangelhos começaram a ser redigidos apenas uns trinta anos depois da vida terrena de Jesus, quando ainda viviam muitas testemunhas oculares.

A mensagem de Jesus se propagou com o acompanhamento dos apóstolos. Exemplo: Pedro e João vão à Samaria, Barnabé vai à Antioquia, conforme vemos nos Atos dos Apóstolos, e Paulo mantinha correspondência com as diversas comunidades por ele fundadas.

Paulo faz referências a fábulas, mitos e erros, dizendo que cuidou para que não se misturassem com a doutrina autêntica os muitos erros e desvios ocorridos. Eles foram recolhidos na literatura apócrifa, cujo estilo é, evidentemente, imaginoso e fictício.

A Igreja teve a assistência do Espírito Santo para discernir claramente a autenticidade ou não das doutrinas propostas aos cristãos. No século II a Igreja chega à consciência de que os Evangelhos, como documentos escritos, contém de fato, de modo garantido, o Evangelho, a Boa Nova de Cristo como Palavra de Deus.

Os Evangelhos é o Kerigma da fé em Jesus. Deve-se ter em conta que a fé não contamina os fatos, mas, antes, ilumina-os no seu verdadeiro significado. Podemos afirmar que o Jesus da história é o Cristo da fé.

Os Evangelhos são arrolados, propriamente, como uma parte do Novo Testamento mas o período que eles abrangem é ainda da dispensação Mosaica. São preparados para a nova dispensação que haveria de vir e que foi iniciada no dia de Pentecostes, cinquenta dias depois da ressurreição. Jesus cresceu debaixo da dispensação Judaica ou Mosaica. Foi circuncidado, freqüentava a sinagoga e quando alguém perguntou-lhe o que fazer para herdar a Vida Eterna, Ele citou ou Dez Mandamentos.

O período abrangido pelos Evangelhos é transitório de uma dispensação para outra e é preparatória para a mensagem de salvação como temos agora no Novo Testamento.

Durante o período dos Evangelhos, Jesus estava aqui na carne e andava entre os homens como Senhor e Mestre. Ele podia dizer e disse a alguém “Teus pecados estão perdoados…” a outro “Tua fé te salvou…”, a outro “Levanta, toma tua cama e vá…” e ao ladrão na cruz “Hoje estarás comigo no paraíso”.

Quando o ministério de Jesus de preparação foi completo pela sua morte na cruz, e sua ressurreição, então, Ele enviou o Espírito Santo (Deus Espírito) para dar, através de homens, escolhidos, os grandes e universais termos de salvação para todos os homens, em todas as regiões e em todos os tempos. Isso temos, em sua totalidade, no Novo Testamento.



4. Eventos do Novo Testamento

O século I foi o primeiro século da Era Cristã. Sendo um período de cem anos, que se notabilizou pelo nascimento de Jesus Cristo, o surgimento do Cristianismo e o auge do Império Romano.

Início era cristã

A Era Cristã marca o início de um período histórico centralizado na vida e obra de Jesus Cristo, figura central do Cristianismo. Estima-se que Jesus tenha nascido entre 6 a.C. e 4 a.C., apesar de a tradição teológica situar seu nascimento no ano 1 a.C. Este cálculo é resultado de erros em calendários antigos, mas independentemente da data exata, o nascimento de Jesus é celebrado no Natal e é um dos eventos mais significativos da história.

Por volta de 26 d.C., Jesus foi batizado por João Batista no rio Jordão, marcando o início de seu ministério público. Este evento simboliza a confirmação divina de sua missão e o início de uma nova era para os que viriam a segui-lo. Dois anos depois, em 28 d.C., Jesus celebrou a primeira Páscoa de seu ministério, um evento crucial que prefiguraria seu papel como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Em 30 d.C., ocorreram os eventos mais importantes da fé cristã: a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Sua crucificação, seguida pela ressurreição ao terceiro dia, é o cerne da fé cristã, pois é interpretada como o ato redentor que oferece a salvação à humanidade. Esses eventos inauguraram a Era Cristã, uma nova fase na história religiosa e cultural do mundo, cujas repercussões moldam a civilização ocidental até hoje.

O período dos Apóstolos refere-se à época imediatamente após a ascensão de Jesus Cristo, quando seus discípulos, agora chamados apóstolos, assumiram a liderança do movimento cristão nascente. Este período, que se estende aproximadamente entre 30 d.C. e 100 d.C., foi crucial para a formação e expansão da Igreja Cristã. Após o Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, eles começaram a pregar o evangelho com grande poder e ousadia, inicialmente em Jerusalém e depois em várias partes do Império Romano.

Durante esse tempo, os apóstolos, especialmente Pedro, João, e mais tarde Paulo, desempenharam papéis fundamentais na disseminação do cristianismo. Pedro foi uma figura central na Igreja em Jerusalém, enquanto Paulo, com suas várias viagens missionárias, levou o evangelho aos gentios, fundando igrejas em cidades como Corinto, Éfeso e Roma. As epístolas que Paulo escreveu às igrejas durante esse período constituem grande parte do Novo Testamento e foram essenciais para o desenvolvimento da doutrina cristã.

Este período também foi marcado por perseguições intensas. Os apóstolos e os primeiros cristãos enfrentaram oposição tanto das autoridades judaicas quanto do Império Romano. Muitos apóstolos, incluindo Pedro e Paulo, foram martirizados por causa de sua fé. No entanto, essas adversidades não impediram o crescimento da Igreja, que continuou a se expandir e a se consolidar, estabelecendo as bases para o cristianismo como uma força religiosa e cultural duradoura. O período dos Apóstolos foi, portanto, uma era de fervor espiritual, expansão missionária e formação doutrinária, que moldou o futuro da fé cristã.

As viagens missionárias do apóstolo Paulo foram fundamentais para a expansão do cristianismo no mundo gentio durante o primeiro século. Realizou três principais viagens entre 46 d.C. e 57 d.C., percorrendo regiões da Ásia Menor, Grécia e até Roma. Nessas viagens, Paulo fundou igrejas, pregou o evangelho a diversas comunidades e escreveu várias epístolas que compõem parte significativa do Novo Testamento. Sua obra enfrentou oposição e perseguições, mas teve um impacto duradouro, estabelecendo as bases para o cristianismo como uma religião global e diversificada.

— Gaza Filipe pregou a respeito de Cristo e batizou um eunuco etíope a caminho de Gaza (At 8:26–39).

— Jerusalém  Vários acontecimentos em Jerusalém.

— Jope Pedro recebeu uma visão de que Deus concedera o dom do arrependimento aos gentios (At 10; 11:5–18). Pedro levantou Tabita dos mortos (At 9:36–42).

— Samaria  Filipe ministrou em Samaria (At 8:5–13), e Pedro e João posteriormente ensinaram aqui (At 8:14–25). Após terem eles conferido o dom do Espírito Santo, Simão, o mágigo, tentou comprar deles esse dom (At 8:9–24).

— Cesareia  Neste local, depois que um anjo ministrou a um centurião chamado Cornélio, Pedro permitiu que ele fosse batizado (At. 10). Aqui, Paulo fez a sua defesa perante Agripa (At 25–26).

— Damasco  Jesus apareceu a Saulo (At 9:1–7). Depois que Ananias restaurou a visão de Saulo, este foi batizado e iniciou o seu ministério (At 9:10–27).

— Antioquia (na Síria)  Aqui, os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez (At 11:26). Ágabo profetizou fome (At 11:27–28). Grande dissensão surgiu em Antioquia concernente à circuncisão (At 14:26–28; 15:1–9). Em Antioquia, Paulo iniciou a sua segunda missão, com Silas, Barnabé e Judas Barsabás (At 15:22, 30, 35).

— Tarso  Cidade natal de Paulo; ele foi enviado para cá pelos líderes da Igreja para proteger a vida dele (At 9:29–30).

—  Chipre  Após terem sido perseguidos, alguns dos santos fugiram para esta ilha (At 11:19). Paulo passou por Chipre em sua primeira viagem missionária (At 13:4–5), como o fizeram posteriormente Barnabé e Marcos (At 15:39).

—  Pafos  Paulo amaldiçoou aqui um feiticeiro (At 13:6–11).

—  Derbe Paulo e Barnabé pregaram o evangelho nesta cidade (At 14:6–7, 20–21).

—  Listra  Após Paulo ter curado um paralítico, ele e Barnabé foram aclamados como deuses. Paulo foi apedrejado e dado como morto, mas reviveu e continuou a pregar (At 14:6–21). Lar de Timóteo (At 16:1–3).

— Icônio  Em sua primeira missão, Paulo e Barnabé pregaram aqui e foram ameaçados de apedrejamento (At 13:51–14:7).

—  LaodiceiaeColossos  Laodiceia é um dos ramos da Igreja que Paulo visitou e do qual recebeu cartas (Col 4:16). É também uma das sete cidades relacionadas no livro de Apocalipse (as outras são: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia; ver Ap 1:11). Colossos está a 18 quilômetros a leste de Laodiceia. Paulo escreveu aos santos que viviam aqui.

—  Antioquia (da Pisídia)  Em sua primeira viagem, Paulo e Barnabé ensinaram aos judeus que Cristo veio da semente de Davi. Paulo anunciou o evangelho a Israel, e depois aos gentios. Paulo e Barnabé foram perseguidos e expulsos (At 13:14–50).

Mileto  Enquanto estava aqui, em sua terceira missão, Paulo advertiu os élderes da Igreja de que “lobos cruéis” entrariam no rebanho (At 20:29–31).

Patmos João era prisioneiro nesta ilha quando ele teve as visões atualmente contidas no livro de Apocalipse (Ap 1:9).

Éfeso  Apolo pregou aqui com poder (At 18:24–28). Paulo, em sua terceira missão, ensinou em Éfeso durante dois anos, tendo convertido muitas pessoas (At 19:10, 18). Aqui, ele conferiu o dom do Espírito Santo pela imposição das mãos (At 19:1–7) e realizou muitos milagres, inclusive a expulsão de espíritos malignos (At 19:8–21). Aqui, os adoradores de Diana provocaram um tumulto contra Paulo (At 19:22–41). Parte do livro de Apocalipse foi dirigido à Igreja de Éfeso (Ap 1:11).

—  Trôade Enquanto Paulo esteve aqui, em sua segunda viagem missionária, teve a visão de um homem da Macedônia pedindo ajuda (At. 16:9–12). Durante a sua estada aqui, em sua terceira missão, Paulo levantou Êutico dos mortos (At 20:6–12).

Filipos Paulo, Silas e Timóteo converteram uma mulher chamada Lídia, expulsaram um espírito maligno e foram açoitados (At 16:11–23). Eles receberam ajuda divina para escapar da prisão (At 16:23–26).

—  Atenas Durante sua segunda missão em Atenas, Paulo pregou na Colina de Marte (Areópago) a respeito do “deus desconhecido” (At 17:22–34).

—  Corinto Paulo foi para Corinto em sua segunda missão, onde se hospedou com Áquila e Priscila. Ali ele pregou o evangelho e batizou muitas pessoas (At 18:1–18). De Corinto, Paulo escreveu a sua epístola aos romanos.

—  Tessalônica Paulo pregou aqui durante a sua segunda viagem missionária. Seu grupo missionário partiu para Bereia, depois que os judeus ameaçaram a sua segurança (At 17:1–10).

—  Bereia  Paulo, Silas e Timóteo encontraram nobres almas para ensinar durante a segunda viagem missionária de Paulo. Os judeus de Tessalônica os seguiram e perseguiram (At 17:10–13).

Macedônia Paulo ensinou aqui durante a sua segunda e terceira viagem (At 16:9–40; 19:21). Paulo elogiou a generosidade dos santos macedônios, que fizeram uma coleta para ele e para os santos pobres de Jerusalém (Rom. 15:26; 2 Cor. 8:1–5; 11:9).

Malta  O barco de Paulo naufragou nesta ilha a caminho de Roma (At 26:32; 27:1, 41–44). Ele escapou ileso após ser picado por uma serpente e curou muitos que estavam enfermos em Malta (At 28:1–9).

Roma Paulo pregou aqui por dois anos enquanto estava em prisão domiciliar (At 28:16–31). Ele também escreveu epístolas, ou cartas, aos efésios, filipenses e colossenses, e a Timóteo e Filemon, enquanto esteve prisioneiro em Roma. Pedro escreveu a sua primeira epístola da “Babilônia,” que era provavelmente Roma, logo depois das perseguições de Nero aos cristãos em 64 d.C. Acredita-se que Pedro e Paulo tenham sido mortos aqui.



A segunda divisão do Novo Testamento consiste de um só livro. É um livro, que relata a história da fundação e os primeiros dias na Igreja. Relembrando que a Igreja é de Cristo e não nossa, que Ele a comprou com seu sangue, que Ele é seu fundador e cabeça, naturalmente, estamos interessados em Atos dos Apóstolos, pois é a única história divinamente dada da fundação e dos primeiros dias da Igreja do Deus Vivo.

Há relatos suficientes, entretanto, nos capítulos 2, 8, 9, 10 e 16 para dar-nos divinos inspirados exemplos da conversão do povo de praticamente cada tipo e condição de mente, para que possamos ter a resposta de como tornar-nos cristãos.

Em adição ao exposto, devemos conhecer o livro de Atos dos Apóstolos como uma das maiores crônicas missionárias já escritas. Nele encontramos o motivo e método missionário. Também o livro de Atos contém proveitosas sugestões a respeito do culto e da vida dos primeiros cristãos sob a direção dos Apóstolos. Quatro fatores marcavam o culto deles: “A doutrina dos Apóstolos – a comunhão – o partir do pão – as orações”. Quando espalhados pela amarga perseguição, foram pregando a Palavra de Deus. O livro de Atos dos Apóstolos, como o quinto escrito narrativo, conclui a primeira divisão, que começa em Mateus. Chamamos, assim aos livros desta seção pelo fato de narrarem uma história.

O título tal como o conhecemos não fazia parte do livro original mas pertence ao segundo século d.C. O Evangelho de Lucas e Atos são dois volumes de uma só obra, e seja qual for o título originalmente anteposto ao Evangelho, serviu para os dois livros. Embora o autor não tenha dado um titulo para o seu livro, desde o segundo século a igreja o tem chamado de Atos dos Apóstolos. Mas também, pode ser chamado de Atos de Cristo mediante seus servos ou Atos do Espírito Santo. Mais que qualquer outro livro do Novo Testamento, Atos mostra o valor dos Apóstolos (1:12-26; 6:6; 8:14; 17:13-32; 14:14; 15:1-21).

Nem o Evangelho nem o livro de Atos dá o nome do seu autor, mas foi provavelmente Lucas, amigo e companheiro de Paulo.

A indicação de sua autoria encontra-se nos três “nós”, onde a narrativa está na primeira pessoa do plural (At 16:10-17; 20:5-21:18; 27:1-28:16), dando a entender que o autor era companheiro de Paulo nessas três ocasiões, e que usou o seu diário de viagem como fonte de material. Há quem sugira que esse documento de viagem fosse escrito por um companheiro anônimo de Paulo e incorporado aos Atos por outro autor desconhecido. Mas a uniformidade do estilo entre esta narrativa de viagem e o restante dos Atos e uso da primeira pessoa do plural torna isso pouco provável. A tradição da igreja identifica Lucas uniformemente como sendo o companheiro de Paulo, e a data dos Atos sustenta esta tradição. Juntos, esses dois livros narram o princípio da igreja.

A primeira fase desta história termina com boas novas em Jerusalém (Lc 24. 47), e a segunda em Roma, como “os confins da terra” (At 1.8). O texto de Lucas 1.1-4 serve como prefácio não somente do Evangelho, mas também, de Atos. Embora escritos particularmente a Teófilo, ambos os livros se destinam, em geral, a igreja.

Tanto o livro de Atos, como os Evangelhos, querem proporcionar a Teófilo e a outros, a certeza quanto a verdade da fé cristã. Podemos considerar o livro de Atos como uma ponte que liga os Evangelhos às cartas de Paulo. É Atos que nos fornece as evidencias da autoridade do autor das cartas paulinas.

Os apóstolos de maior destaque são: Pedro e Paulo. Apesar de estes dois destacarem de maneira especial, Atos não deixa de mostrar a importância dos outros apóstolos. Sim, é com base nos testemunho dos apóstolos que Cristo está edificando sua igreja (Mt 16:18; Ef 2:20; Ap 21:14), da qual fazem parte do seu fundamento, todos os apóstolos.  

Além de seu próprio diário de viagem, Lucas pode ter usado fontes escritas, especialmente para os primeiros capítulos de sua obra. Sendo companheiro de Paulo, estava em posição de obter informações de primeira mão do apóstolo. Além disso, uma vez que Lucas se encontrava na Palestina durante a prisão de Paulo em Cesaréia (21:18; 27:1), ele teve amplas oportunidades de colher informações sobre o começo da igreja oriundas de testemunhas oculares.

A data dos Atos liga-se ao problema de sua abrupta conclusão. Não sabemos quando foi escrito, mas uma data pouco posterior à conclusão da narrativa parece aceitável. Sendo assim, Atos foi escrito em cerca de 62 d.C.      

Lucas escreveu para assegurar a Teófilo quanto à “certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1:4). Teófilo era provavelmente um gentio convertido ao Cristianismo, e Lucas escreveu para lhe dar um conhecimento mais detalhado das origens cristãs. Isto incluiu a história da vida, morte e ressurreição de Jesus (o “Evangelho”), e o estabelecimento e expansão da igreja.

Falando estritamente, Lucas não escreveu uma história da igreja primitiva. Isto não quer dizer que a sua narrativa não fosse histórica ou exata. A tarefa do “historiador”, entretanto, é fazer uma narrativa compreensível de todos os fatos importantes. Isto, obviamente, Lucas não pretendeu. Ele não nos fala nada sobre as igrejas na Galiléia (At 9:31) ou sobre a evangelização do Egito ou Roma. Sua história não é dos Atos dos Apóstolos, pois apenas três dos doze aparecem na sua narrativa – Pedro, Tiago, João; e os últimos dois são apenas mencionados. O livro dos Atos é o livro dos Atos de Pedro e Paulo. Além disso, Pedro praticamente sai da história depois da conversão de Cornélio, e nós ficamos a imaginar o que lhe aconteceu. Novamente, Lucas não dá explicação sobre a origem dos anciãos da igreja (11:30), sobre como Tiago chegou a um lugar de liderança na igreja de Jerusalém (Is 13), sobre o que Paulo fez em Tarso após a sua conversão (9:30;11:25), e muitos outros importantes assuntos históricos. Mais ainda, ele menciona alguns acontecimentos com poucas palavras (18:19-23), mas conta outros com grandes detalhes (21:17-26:32). Em outras palavras, Lucas conta um história, ele não escreve “a história”. Sua narrativa contém os traços principais da expansão da igreja de Jerusalém até Roma via Samaria, Antioquia, Ásia e Europa; e nesta história, só Pedro e Paulo desempenham papéis destacados.

O propósito principal de Lucas, portanto, em sua obra de dois volumes (Lc-At) é explicar a Teófilo como foi que aconteceu que o Evangelho, que começou com a promessa de restauração do reino de Israel (Lc 1.32-33), terminou com a igreja gentia em Roma, distinta do judaísmo. Atos nos oferece o registro da expansão do cristianismo, desde a descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, em Jerusalém, até a chegada de Paulo a Roma, para pregar a Palavra na capital do mundo.

O magno problema na história do estudo de Atos refere-se à sua fidedignidade em comparação com as epístolas de Paulo. Lucas não se refere às epístolas de Paulo, e nem sempre é fácil relacionar os movimentos de Paulo, conforme se refletem nas epístolas, com o registro de Lucas. O maior dos problemas é o seguinte: Como podem os acontecimentos de Gl 1:16-2:10 estarem relacionados com a narrativa de Lucas? Bons mestres têm discordado entre si, achando que a visita de Gl 2:1-10 refere-se:

Um segundo aspecto do problema apresenta-se pelo contraste entre o retrato de Paulo nos Atos e o que se reflete nas epístolas do próprio missionário. O Paulo de Atos parece ser uma pessoa flexível, razoável, que está pronta a ceder nos seus princípios por amor à prudência (16:3; 21:26); enquanto que o Paulo das epístolas é uma pessoa inflexível de convicções imutáveis (Gl 1:8; 2:3). A mais antiga escola Tübingen de crítica estabeleceu sua teoria da história da igreja primitiva sobre um suposto conflito entre a Cristandade Paulina e a Judaística, e defendia que Atos refletem um estágio tardio da história do conflito, quando uma síntese estava sendo alcançada entre os dois pontos de vista contraditórios.

Obviamente é impossível tratar desses problemas em todos os detalhes, mas eles permanecem no fundo do estudo e muitas vezes penetram diretamente no comentário.



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Módulo I

  1. Sociologia da Religião 30h
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Módulo II

  1. Hebraico I 30h
  2. Teologia Bíblica II 30h

Módulo III

  1. Hermenêutica Bíblica 30h
  2. Língua Portuguesa + Homilética II 30h

Módulo IV

  1. Ética Cristã II e Bioética 30h
  2. Antropologia Cultural 30h

Módulo V

  1. Teologia Sistemática I: Profetas e Reis 30h
  2. Contexto e ambiente do N.T 30h

Módulo VI

  1. Filosofia da Religião 30h
  2. Teologia Paulina 30h

TPA- Trabalho Prática Acompanhada-Conclusão.. 30h

por TeoPrProf Sergio Valentin Grizante