
Introdução
Até o século XVII, muitos criam que a Bíblia era considerada absolutamente como palavra “ditada por Deus”, partindo do conceito de inspiração bíblica como ditado. Esta compreensão havia sido tema de inevitáveis e incontáveis polêmicas interpretativas do modus vivendi da sociedade. A partir daí, com a Bíblia disponível à todos, não mais fechada somente para o clero como antes da reforma protestante, desperta entre os estudiosos cristãos à trabalhar na apologética da fé cristã contra o racionalismo influenciado pelo iluminismo da época.
Evangelhos Sinótico é o nome atribuído aos três primeiros evangelhos do Novo Testamento. Isso ocorre pelo fato que os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas possuem uma grande quantidade de histórias em comum, na mesma sequência e, até algumas vezes, utilizando exatamente a mesma estrutura e utilizando as mesmas palavras.
São semelhantes por seu paralelismo, sendo este nome designando os três primeiros evangelhos. O evangelho de João não é sinótico, pois este relata a história de Jesus de maneira substancialmente distinta, significa que a maioria dos acontecimentos registrados em João não aparece em Mateus, Marcos e Lucas. Como por exemplo apresenta apenas 7 sinais (milagres) de Jesus.
No século XVIII, descoberto o assim chamado problema sinótico. O estudo crítico demonstrou que no texto dos evangelhos há divergências e diferenças que evidenciam o trabalho pessoal do escritor, sem deixar de lado a inspiração divina. Desde então, os exegetas se viram na contingência de considerar o Evangelho como um livro escrito por homens, que têm suas qualidades e seus defeitos, e estão sujeitos também à crí tica.

1. Entendendo os Sinóticos
A comparação entre os Evangelhos Sinóticos permite uma percepção de como teria sido o início da recepção da mensagem de Jesus. Marcos, Mateus e Lucas coincidem com tanta frequência que podem ser lidos como “sinóticos” (do grego, synopsis, “vista do conjunto”). A explicação mais razoável para isso é que o evangelho de Marcos, o mais curto, tenha servido de base escrita para Mateus e Lucas.
Entendendo os Evangelhos Sinóticos: Uma Análise Teológica e Literária
A análise dos Evangelhos Sinóticos—Mateus, Marcos e Lucas—oferece uma visão profunda sobre como a mensagem de Jesus foi transmitida e preservada nas primeiras comunidades cristãs. A palavra “sinótico” vem do grego synopsis, que significa “vista em conjunto”, e reflete a notável semelhança entre esses três evangelhos. Essa proximidade não apenas sugere uma fonte comum, mas também levanta questões importantes sobre a transmissão da tradição cristã e a inspiração dos textos sagrados.
A Relação entre os Evangelhos Sinóticos
Acredita-se que o Evangelho de Marcos seja o mais antigo dos três, e é frequentemente considerado a fonte primária para Mateus e Lucas. Com seus 661 versículos, Marcos é o mais curto, mas sua influência é evidente: apenas 20 versículos de Marcos não têm paralelos em Mateus ou Lucas. Mateus, com 1068 versículos, e Lucas, com 1149 versículos, não só preservam grande parte do material de Marcos, mas também acrescentam suas próprias narrativas e ensinos, que refletem as necessidades e contextos das comunidades para as quais foram escritos.
Marcos como Fonte Primária:
A hipótese de que Marcos serviu como base para os outros dois evangelhos é suportada pela estrutura narrativa. Quando Mateus e Lucas seguem Marcos, o fazem de maneira quase idêntica, sugerindo que ambos evangelistas trabalharam com o texto de Marcos de forma independente. No entanto, quando se afastam de Marcos, as diferenças na organização dos eventos e nos ensinamentos sugerem fontes adicionais, o que nos leva à teoria da “Fonte Q”.
A Teoria da Dupla Fonte e a “Fonte Q”
A teoria da dupla fonte propõe que Mateus e Lucas não apenas utilizaram Marcos, mas também uma segunda fonte, conhecida como “Fonte Q” (Quelle em alemão, que significa “fonte”). Esta fonte hipotética, que não sobreviveu até os dias atuais, é composta por ditos e ensinos de Jesus (logia), que aparecem em Mateus e Lucas, mas não em Marcos. Por exemplo, o famoso Sermão do Monte em Mateus (Mt 5-7) e o Sermão da Planície em Lucas (Lc 6.20-49) contêm material que se acredita ter vindo dessa Fonte Q.
Exemplo da Fonte Q:
Um exemplo ilustrativo é a frase “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon” (Mateus 6:24), que reaparece em Lucas 16:13 na parábola do administrador infiel. A coincidência literal e temática entre os dois textos sugere que ambos os evangelistas estavam usando uma fonte comum além de Marcos.
A Singularidade dos Evangelhos
Apesar das semelhanças, cada evangelho apresenta uma perspectiva única sobre a vida e os ensinos de Jesus. Mateus, por exemplo, enfatiza o cumprimento das profecias do Antigo Testamento, retratando Jesus como o Messias prometido a Israel. Lucas, por sua vez, foca na universalidade da salvação oferecida por Cristo, destacando a misericórdia e a compaixão de Jesus para com os marginalizados. Marcos, com seu estilo direto e vigoroso, apresenta Jesus como o Filho de Deus que sofre e vence pela cruz.
Versículos Chave:
- Mateus 5:17: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para cumpri-los.”
- Lucas 19:10: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.”
- Marcos 10:45: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”
Conclusão: A Harmonia e a Distinção dos Sinóticos
A comparação entre os Evangelhos Sinóticos revela tanto a harmonia quanto a distinção na forma como a mensagem de Jesus foi comunicada. Enquanto as semelhanças apontam para uma tradição comum e fontes compartilhadas, as diferenças refletem as preocupações teológicas e pastorais específicas de cada evangelista. Este estudo não apenas enriquece nossa compreensão dos evangelhos, mas também nos convida a refletir sobre a riqueza e a profundidade da revelação divina através de múltiplas perspectivas. Como afirma Hebreus 1:1-2, “Havendo Deus, antigamente, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”.
Tópicos Sugeridos para Estudo:
- A Hipótese das Fontes: Explorando a teoria da dupla fonte e a Fonte Q.
- A Singularidade Teológica de Cada Evangelho Sinótico.
- Comparação dos Relatos do Sermão do Monte e do Sermão da Planície.
- O Evangelho de Marcos como Base Narrativa para Mateus e Lucas.
- A Tradição Oral e a Formação dos Evangelhos: Perspectivas Históricas.
Versículos Relevantes para Reflexão:
- Hebreus 1:1-2: A revelação progressiva de Deus através dos tempos.
- Mateus 7:28-29: A autoridade dos ensinamentos de Jesus.
- Lucas 1:1-4: A intenção de Lucas ao escrever seu evangelho.
- 2 Pedro 1:16-21: A origem divina das escrituras.
Este texto serve como um guia para entender melhor a complexidade e a riqueza dos Evangelhos Sinóticos, ao mesmo tempo em que destaca a singularidade de cada um na transmissão da mensagem de Jesus. Além do material narrativo (oral) do evangelho de Mateus, Marcos, e Lucas, estes incluem logias (grego: “ditos”) de um texto perdido, conhecido como “Fonte Q”. Semelhanças tão exatas não podem ser fruto de tradição oral. A teoria da dupla fonte explica as concordâncias dos sinóticos.

2. Perspectivas do Evangelho
Os evangelhos são um gênero de literatura do cristianismo primitivo que conta a vida de Jesus, a fim de preservar seus ensinamentos ou revelar aspectos da natureza de Deus. O desenvolvimento do cânon do Novo Testamento deixou quatro evangelhos canônicos, que são aceitos como os únicos evangelhos autênticos para a maioria dos cristãos.
Entretanto, existem muitos outros evangelhos. Eles são conhecidos como apócrifos e foram escritos geralmente depois dos quatro evangelhos canônicos. Alguns destes evangelhos deixaram vestígios importantes na tradição cristã, incluindo a iconografia[1].
Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João são chamados evangelhos canónicos por serem os únicos que o cristianismo primitivo admitiu como legítimos e hoje integram o Novo Testamento da Bíblia, sendo também os únicos aceitos pelos grupos que sucederam. As igrejas cristãs só aceitam estes quatro evangelhos como tendo sido inspirados e fazendo parte do Cânon. As igrejas cristãs, católica, ortodoxa e protestantes tem na Bíblia, incluindo os evangelhos, a base de sua fé e de sua prática.
O Evangelho de Mateus
Foi escrito para convencer os judeus de que Jesus era mesmo o Messias que estava por vir, por isso enfatiza o Antigo Testamento e as profecias a respeito do ungido.
O Evangelho de Marcos (discípulo de Pedro)
Foi escrito para evangelizar principalmente os romanos, relata somente quatro das parábolas de Jesus, enfatizando principalmente ações imediatas de Jesus.
O Evangelho de Lucas
Foi escrito para os gentios convertidos (não judeus), enfatizando a misericórdia de Deus através da salvação por Jesus Cristo, principalmente para os pobres e humildes de coração.
O evangelho do Apóstolo João
Foi escrito para doutrinar os novos convertidos. Não cita nenhuma das parábolas de Jesus (afinal, as parábolas já eram conhecidas no meio cristão, através dos relatos contidos nos outros evangelhos), porém combate com firmeza as primeiras heresias surgidas no princípio do cristianismo, como por exemplo: o gnosticismo[2] (que negava a verdadeira encarnação do Filho de Deus) e outras seitas semelhantes, que também negavam a divindade de Jesus Cristo, como o docetismo[3].
Apesar de sua estrutura geral ser a mesma dos evangelhos sinóticos, João é claramente diferente deles (Marcos, Mateus e Lucas). Por um lado, o Jesus histórico mal pode ser reconhecido: Jerusalém é mais importante do que sua terra natal, a Galileia.
No lugar das pregações e parábolas, nas quais se nota a forma convidativa com que Jesus falava, aparecem discursos majestosos, nos quais Jesus anuncia de onde e para quê ele foi enviado. Tanto João Batista quanto o narrador falam no mesmo estilo solene de Jesus.
Por outro lado, somente João menciona detalhes concretos que desaparecem pouco depois da época de Jesus: Betânia e Enom como lugares de batismo (Jo 1.28; 3.23), Sicar como cidade de samaritanos (4.5). Somente João fala sobre o Gabatá, o lugar do tribunal romano de Jerusalém (Jo 19.13), sobre a peregrinação para Páscoa e a festa dos tabernáculos (Jo 2.23; 7.2) e da festa de dedicação do templo (Jo 10.22). Um discurso feito no último dia da festa dos tabernáculos faz referência a um ritual de água executado nesse dia (Jo 7.37).
Algumas vezes é difícil encontrar coerência entre esse evangelho e Mateus, Marcos ou Lucas. Teria Jesus batizado como João (Jo 3.22ss). Teria ele, diferentemente do que diz Mateus (Jo 10.5s; 15.24), buscado “ovelhas perdidas de Israel”, também em Samaria (Jo 4.12), de modo que os judeus o chamassem de samaritano, a fim de insultá-lo (8.48).
É concebível que, diferentemente das narrativas dos sinóticos, tenha havido mais do que apenas uma festa de Páscoa durante a vida pública de Jesus (Jo 2.13; 6.4; 11.55).
A linguagem usada em João é específica, como se usa em grupos que possuem uma terminologia comum. As sentenças são construídas de maneira simples, o grego está correto, o vocabulário é limitado e ao mesmo tempo distante do coloquial. Existe expressões extremadas que falam sobre a vida, a verdade, o caminho, o mundo, a luz, a escuridão, o conhecimento e o desconhecimento.
3. A Fonte Q
Amensagem de Jesus está também na fonte Q, que, assim como os textos sapienciais do AT, dá bons conselhos sobre como ser bem-sucedido na vida. Mateus e Lucas dispunham da chamada fonte Q (do alemão: Quelle, fonte) uma obra redigida em grego, mas na qual alguns ditos se tornam mais compreensíveis quando vertidos de volta ao aramaico, língua materna de Jesus.
- Por exemplo: em Lucas 11.34, o olho é chamado de candeia do corpo; o aramaico usa essa expressão para referir-se ao olhar que irradia o que está escondido no interior do ser humano.
Os provérbios veterotestamentários falam ao homem esforçado; já a logia da fonte Q se dirigem ao pobre que mal consegue se sustentar. A pobreza na região rural da Galileia é interpretada como crise do final dos tempos, e os pobres são orientados a defender, de forma confiante e não violenta, a ideia que a salvação de Israel começará neles.
- Q exorta a ser generoso com aqueles que são ainda mais pobres (6.20s); adverte contra as preocupações desanimadoras (Lc 12.22ss); reforça sua confiança na bondade de Deus, lembrando-lhes sua própria bondade (Lc 11.10s).
Os pobres são elogiados (Lc 6.20s) pelos bons resultados de tais ensinos; louva-se a Deus por preferir os “pequeninos aos sábios” (Lc 10.21). Como “filhos de Deus”, eles devem seguir o exemplo do pai e demonstrar bondade aos maus (Lc 6.35); a oração ao Pai encoraja a isso.
O conflito em torno da mensagem de Jesus surge por causa de seus milagres (Lc 7.22s; 11.14s); os lugares na Galileia onde Jesus atuou são ameaçados de destruição (Lc 10.13ss).
A fonte Q enfatiza a singularidade de Jesus; para ele, há somente discípulos ou inimigos (Lc 11.23); ele se afasta dessa geração (Lc 7.31ss) e chama os fariseus de sepulturas invisíveis (Lc 11.44).
- Esta descompostura tinha um significado muito concreto na Galileia: em Tiberíades, Herodes construíra por cima de sepulcros; os judeus evitavam a cidade, pois ao pisar inadvertidamente em uma sepultura, a pessoa não sabia que estava “impura” e que precisava se purificar para não ofender a Deus.
Mas os discípulos de Jesus são advertidos com a mesma severidade ao julgar o próximo (Lc 6.37) ou observar as pequenas falhas dos irmãos (isto é, outros judeus), mas não as suas próprias (Lc 6.41).
Na época em que Jesus viveu entre eles, os discípulos podem ter anotado palavras dele para usá-las quando eram enviados para pregar de forma autônoma (Mc 6.7ss).
Dois anos depois da morte/ressurreição de Jesus, os cristãos judeus helenizados precisaram fugir de Jerusalém. É possível que tenham usado aquelas anotações em aramaico para redigir a primeira versão da fonte Q, que então levaram consigo a título de lembrança.
As experiências com essa perseguição podem ter intensificado em Q o relato dos conflitos que causaram a morte de Jesus, de forma que a vulnerabilidade vivida por Jesus pode ter sido compreendida de maneira mais radical (Lc 10.3s). Em Q, a separação do povo judeu começa de maneira judaica. Em Jesus há mais sabedoria do que em Salomão; João Batista é mais do que um profeta (Lc 7.26; 11.31). Este mais se refere à mensagem do juízo final, quando não importará a eleição de Israel, mas as ações de cada indivíduo (Lc 3.8).
As palavras duras denunciam que a separação do seu próprio povo é dolorosa. É como se alguém não pudesse enterrar nem mesmo o próprio pai falecido (Lc 9.60). Estrangeiros se sentam à mesa com os pais de Israel, e Israel é lançado fora; e haverá pranto e ranger de dentes.
Antes da Guerra Judaica (a partir de 44 d.C.)
Os discursos sobre o fim dos tempos tornaram-se ainda mais radicais. Partidos judaicos brigavam ferozmente entre si e levantavam falsas esperanças:
• Profetas anunciavam que Israel precisava ir para o deserto a fim de encontrar novamente o pão (maná);
• Sacerdotes garantiam que Deus salvaria o templo;
• Zelotes diziam que o povo precisava do poder político.
Por meio do relato da tentação de Jesus (Mt 4.1ss), a fonte Q interpreta essas esperanças como propostas de Satanás; Jesus as rejeita usando palavras das próprias Escrituras Sagradas judaicas. Mas, a mesma radicalização da advertência sobre o final dos tempos valia também para a comunidade de Jesus. Não é suficiente somente chamá-lo de Senhor! (Lc 13.15); ao voltar, o Senhor despedaçará (Lc 12.46) o escravo que açoita ao outro escravo.
A mensagem do vindouro emoldura Q. No início, João Batista anuncia a vinda daquele que vem separar o trigo do joio (Lc 3.17); no final, Q adverte as pessoas que já não contam mais com a vinda do Filho do homem (Lc 7.34; 9.58; 17.22).
O discípulo não está acima do seu mestre (Lc 6.40). Com essa atitude, os cristãos conseguem adiar o debate sobre o princípio do final dos tempos para tempos mais tranquilos.

4. Sinótico de Marcos
É provável que Marcos tenha surgido em Roma, onde desde cedo havia comunidades cristãs com muitas conexões com todo o Império Romano. Por isso, todas as tradições de Jesus incluídas em Marcos puderam confluir aqui. Marcos organizou pequenas compilações:
Depois de sete histórias sobre o início da obra de Jesus (1.16-39) seguem-se polêmicas, ligadas a narrativas sobre o surgimento da “família” de Jesus (até 3.35); depois vêm as parábolas (até 4.34), etc.
A introdução (1.1-13) conta como a atuação de Jesus foi preparada no deserto; em seguida, Marcos descreve, em três seções, o caminho de Jesus pela Palestina.
1. Jesus anda pela Galileia e chega a uma região habitada por gentios (1.14-8.26).
2. Jesus atravessa a Galileia em direção a Jerusalém, passando por Jericó (8.27-10.52).
3. Jesus entra na cidade, vai para o templo e morre no Gólgota (11-15).
— A conclusão do livro (16) é enigmática: mulheres fogem horrorizadas e não contam a ninguém sobre a mensagem de ressurreição dada pelos anjos. Na Antiguidade, um final aberto era tão estranho que mais tarde Marcos foi complementado com relatos da ressurreição extraídos de Mateus, Lucas e João (16.9-20).

Usando sequências de motivos que permeiam o evangelho, Marcos induz conexões entre textos aparentemente não relacionados.
Jesus percorre a Galiléia e faz milagres.
Marcos completa as histórias de milagres com dois motivos enigmáticos:
- Jesus ordena silêncio tanto aos que havia curado publicamente como aos demônios que o reconhecem como “Filho de Deus”, e mesmo aos discípulos que levara consigo especialmente quando ressuscitou um morto.
- Os discípulos não compreendem quem Jesus é. Em seis milagres (4.35-6.56), Jesus se mostra a eles cheio do poder de Deus, mas eles permanecem obstinados. A tradição sobre o envio dos discípulos inserida neste ciclo reforça o enigma.
Jesus vai para Jerusalém
No caminho, ensina seus discípulos. Marcos começa com duas narrativas sobre Pedro: quando ele reconhece que Jesus é “O Cristo”, este lhe ordena silêncio; quando Pedro quer livrar Jesus do sofrimento, este o chama de Satanás.
Essas narrativas indicam o sentido da ordem de silêncio: só quem acompanha Jesus em seu sofrimento pode testemunhar da dignidade dele.
No entanto, a incompreensão dos discípulos se torna ainda mais enigmática. Jesus se revela a eles sob a luz divina; o próprio Deus os admoesta a dar atenção ao seu filho amado. Mas eles apenas se assustam e não entendem. As experiências com a proximidade de Jesus com Deus (Mc 4.41; 6.51s; 9.6) poderiam encorajá-los a acompanhar Jesus nos seus sofrimentos; mas eles o acompanham a Jerusalém cheios de medo.
No relato da paixão
A angústia também se apodera de Jesus. Mas em oração ao Pai no Monte das Oliveiras, ele se esforça para aceitar seu sofrimento. Ele quer incluir pelo menos seus três discípulos principais (14.32ss), mas eles dormem e não escutam sua oração, apesar de serem justamente aqueles a quem o próprio Deus tinha advertido para que obedecessem a seu filho.
— A sequência mais significativa de motivos usada por Marcos em seu evangelho são as palavras Filho de Deus. Jesus é chamado assim nos três pontos críticos da narrativa por Deus, por seus opositores, por um romano:
1. Em sua chamada: Jesus recebe o batismo de João junto com pecadores; o céu se abre e Deus o chama de “filho amado” (1.9-11).
2. Ao ser condenado à morte: Jesus provoca a condenação respondendo afirmativamente ao ser questionado se ele era “filho do Deus bendito” (14.62).
3. Em sua morte: quando Jesus morre, o véu do Santo dos Santos se rasga e o centurião que estava como sentinela perto da cruz exclama: Este homem era o Filho de Deus! (15.38S).
A expressão “Filho de Deus” não pode ser separada dessas cenas. Marcos não cria novas expressões linguísticas; ele conta sobre o mistério de existirem dois lados irreconciliáveis na missão de Jesus: ele se torna um homem afastado de Deus, e por isso mesmo abre um caminho que leva a Deus.
O propósito narrativo de Marcos está além do texto
As mulheres tinham presenciado tanto a morte como o sepultamento de Jesus, e também escutaram como Deus confirmava novamente o ministério de Jesus por meio do anjo. Elas, portanto, conhecem os dois lados da missão de Jesus, mas, ainda assim, continuam sem entender. A esperança de que a morte de Jesus não seria o final nasceu apenas de uma promessa de Jesus recapitulada pelo anjo: depois de sua morte, Jesus irá para a Galileia à frente de seus discípulos (14.28; 16.7).
Fecha-se o ciclo do caminho de Jesus; a partir da Galileia (nas igrejas cristãs), o Ressuscitado recomeçará a abrir o caminho a Deus para os que estão afastados.
Na época de Marcos, essa tradição já era considerada ultrapassada, pois desde a Guerra Judaica a Galileia era inacessível aos cristãos. Marcos, no entanto, registrou todas essas tradições a respeito de Jesus para que, em qualquer lugar onde se reflita a respeito do caminho de Jesus, seja possível haver um começo no qual o Ressuscitado vai adiante de seus discípulos.
Caracterização
Este foi o primeiro dentre os canônicos a ser escrito, provavelmente entre 64 e 70 d.C. (ano da destruição do Templo de Jerusalém). A data mais aceita é de 65 d.C.
Acredita-se que este Evangelho tenha sido escrito em Roma e alguns escritores antigos afirmam que Marcos foi companheiro de Pedro e que teria escrito o Evangelho logo após a morte deste. Escrito em grego, apresenta uma redação simples e popular, com falas cotidianas.
Marcos apresenta uma cristologia simples e acessível de Jesus de Nazaré, dividindo-se em duas partes complementares. Como nos diz Harrington (1985): — a primeira: apresenta quem é Jesus de Nazaré: o Cristo, messias, Filho de Deus e Rei do novo povo de Deus, — a segunda: nos orienta um pouco mais sobre a morte de Jesus, confirmando ser ele mesmo filho de Deus através da descoberta do túmulo vazio e a confirmação da ressurreição.
O contexto de Marcos se insere dentro de um universo de dominação romana e perseguições. Assim, na tentativa de responder as várias questões da sua comunidade, que era formada em sua maioria por pagãos convertidos, e de simpatizantes de seu movimento. Esse Evangelho Sinótico transparece a fase mais primitiva das reflexões da Igreja acerca de Cristo e seus ensinamentos.
Destarte, Marcos tenta responder as muitas dúvidas das suas comunidades. Por exemplo, Jesus, mesmo sendo messias, morreu na cruz, considerado uma penalidade degradante; apresenta assim um Jesus extremamente humano, muitas vezes incompreendido pela família e mesmos pelos seus discípulos. Essa incompreensão ocorre no episódio no qual Jesus confessa seu messianismo, enquanto Pedro o repreende, por esperar um messias mais político que religioso, que libertasse seu povo dos dominadores romanos:
E começou a ensinar-lhes: ―O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. Dizia isso abertamente. Pedro, chamando-o de lado, começou a recriminá-lo. Ele, porém, voltando-se e vendo os seus discípulos, recriminou a Pedro, dizendo: ―Arreda-te de mim, satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens. (Mc, 8.31-33).
Marcos insiste em apresentar os defeitos dos discípulos de maneira a que as comunidades se sentissem assim refletidas, vendo os defeitos deles e tomando consciência dos seus defeitos, e assimilando assim as respostas às suas dúvidas. Como destaca Harrington (1985), esta passagem versa mais sobre a situação histórica pela qual a comunidade de Marcos está vivendo e para a qual ele está escrevendo, do que propriamente dito sobre situação histórica do ministério de Jesus.
Marcos está escrevendo para a sua comunidade e é a cristologia que o interessa. Desta maneira, ele evoca a figura de Jesus, e através da rememoração de seus atos e palavras tenta responder as duas questões principais:
— Primeiro: Quem é ele? É o messias:
Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesárea de Filipe, e no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou? Eles responderam: João Batista‖; outros, Elias, outros ainda: um dos profetas. E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: ―Tu és Cristo”. (Mc 8.27–29).
— Segundo: De que maneira ele se realiza como o messias? Morrendo e ressuscitando depois de três dias:
Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios, zombarão dele e cuspirão nele, o açoitarão e o matarão, e três dias depois ele ressuscitará. (Mc 10.32-33).
Com o surgimento do Evangelho de Marcos, começa a divinização do Jesus terrestre, criando uma grande tensão com a fé judaica e seu monoteísmo. Surge desse modo também uma ruptura ou emancipação da linguagem simbólica ritual em relação ao sistema simbólico judaico, como explicita Theissen (2009). Marcos fundamenta ainda os novos ritos dos primeiros cristãos: o Batismo e a Ceia. A atividade pública de Jesus começa com o batismo por João Batista e sua última ação é a instituição da Ceia.
Enquanto comiam ele tomou um pão, abençoou, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é meu corpo. Depois, tomou um cálice, rendeu graças, deu a eles, e todos dele beberam. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, que é derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus”. (Mc 14.22-25).
Jesus, por um lado, questiona alguns ritos do judaísmo, como a disputa em torno do que é puro e impuro: questiona radicalmente essa distinção, baseada nos preceitos alimentares, que no dia a dia, separam judeus e pagãos.
CONTEÚDO
O evangelho segundo Marcos retrata o tempo do ministério público de Jesus. Começa com a apresentação de João Batista e o batismo de Jesus por João. Termina com o sofrimento de Jesus e com os relatos dos encontros com o Cristo ressurreto. A ênfase dessa narrativa está nos atos de Jesus. Eles são apresentados em relatos breves e nos dão uma visão nítida dos milagres de Jesus, dos seus efeitos sobre os habitantes da Palestina e das discussões de Jesus com os líderes dos judeus. É evidente que Marcos também relata palavras e discursos de Jesus, mas, se contrastados com os seus atos, estão em segundo plano.
Como já foi mencionado, o evangelho segundo Marcos é o mais breve dos sinóticos. Desta forma se coloca como base para a pesquisa bíblica sobre os sinóticos. Quase todo o seu conteúdo está também em Mateus e em Lucas. Isso não caracteriza, no entanto, a dependência literária entre os outros dois evangelhos sinópticos e Marcos. As razões desse questionamento já foram datadas no capítulo anterior. Colocamos Marcos antes dos outros dois sinópticos apenas por razões de método, para facilitar a aprendizagem do conhecimento bíblico.
Divisão, versículos-chave, afirmações-chave
Essa forma de esboçar as perícopes de Marcos não pretende ser completa. São citados somente os trechos mais relevantes para a síntese desse evangelho, e que devem, portanto, ser aprendidos. Isso não dispensa a leitura cuidadosa do próprio evangelho. Pelo contrário, será um desafio para tal.
Afirmações-chave
— “Jesus disse: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”. Marcos 1.15
— “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Marcos 10.45
— O sumo sacerdote lhe disse: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” Jesus respondeu: “Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as nuvens do céu”. Marcos 14.61b-62.
GÊNERO LITERÁRIO
O evangelho de Marcos é considerado por muitos o evangelho mais antigo. Isso poderia levar à conclusão de que em Marcos o leitor está mais próximo dos fatos da vida de Jesus, o que não é o caso. O autor fez uma seleção de relatos sobre atos e discursos de Jesus e os redigiu de forma aparentemente desconexa.
Podemos observar essa característica na maneira com que ele liga os textos, ou seja, por meio de conectivos como e, novamente ou de lá. Não é possível reconhecer um cronograma exato dos atos de Jesus nesse evangelho, ao contrário do que temos em João.
Percebemos também que a estrutura do evangelho não leva em conta a sequência cronológica dos fatos, pois a tradição sobre a vida de Jesus é organizada de acordo com três pontos geográficos:
- os acontecimentos na Galiléia,
- os acontecimentos no caminho para Jerusalém,
- os acontecimentos em Jerusalém.
Dessas observações concluímos que esse evangelho não pretende fazer uma descrição completa da vida de Jesus. O que deve ser ressaltado e proclamado, em vez disso, são os grandes atos de Deus na vida de Jesus.
Marcos organiza o seu evangelho do ponto de vista de um escritor.
Ele decidiu organizar o material de acordo com pontos geográficos, como poderia ter decidido organizá-lo de acordo com parâmetros cronológicos. O que vale para a estrutura geral do livro, pode ser observado também nos textos individuais. Em vários pontos do evangelho ele interrompe a sua apresentação com uma inserção, o que deixa o leitor curioso para ver o fim daquela história. Ele conta, por exemplo, que os familiares de Jesus o procuram e querem prendê-lo, porque têm certeza de que ele está louco (3.21). Antes de Marcos contar o término dessa história (3.31-35), descreve a discussão de Jesus com os escribas, que afirmam que Jesus expulsa demônios pelo poder de Belzebu. Jesus adverte esses críticos para que não caiam na blasfêmia contra o Espírito Santo, que não pode ser perdoada. Só então Marcos volta aos familiares de Jesus e conta como este reage contra os devaneios deles.
Inserções desse tipo podem ser encontradas nos seguintes trechos: 5.25-34 entre 5.21-24 e 35-43; 6.14-29 entre 6.6-13 e 30ss; 11.15-19 entre 11.12-14 e 20-25; 14.3-9 entre 14.1-2 e 10-11. Essa forma de transmissão dos fatos não pode ser explicada pela sequência cronológica dos acontecimentos. Aqui um escritor estruturou o seu trabalho de forma intencional. Podemos observar esse aspecto também nos trechos em que um acontecimento descrito mais tarde no evangelho é anunciado previamente por uma nota breve. É assim que Jesus pede que os seus discípulos aprontem um pequeno barco, para que a multidão não o pressione (3.9).
— Se estava de fato precisando do barco, ou o que faria com o barco, só descobrimos no capítulo seguinte (4.1-2). Isso acontece também em outros trechos, como por exemplo em 11.11, que prepara a cena para 11.15ss e 14.54 que sinaliza o que vai acontecer em 14.66ss. João diz no final do seu evangelho, que não haveria lugar no mundo para os livros, se pudéssemos escrever tudo que Jesus fez (João 21.25).
Marcos também transmite essa ideia da diversidade e da profusão do ministério de Jesus, só que de outra forma:
— Ele reúne os muitos relatos de curas e expulsão de demônios em coletâneas que não ressaltam o final individual de cada caso, mas que deixam um mesmo impacto (1.32-34; 3.7-12; 6.53-56).
O mesmo vale para o ministério de ensino de Jesus, também tão abrangente (1.39; 2.13; 4.2,33; 10.1), do qual o evangelho só traz detalhes de alguns poucos relatos.
Resumindo essas características, temos o seguinte quadro:
— o evangelho de Marcos contém a tradição sobre o ministério de Jesus ordenada de acordo com parâmetros geográficos. No final do relato está a história do sofrimento e da ressurreição, na qual também a sequência cronológica dos fatos tem importância. No restante do texto, vê-se que as perícopes não foram ordenadas aleatoriamente. O autor estruturou o seu evangelho de acordo com regras e um estilo literário definido, e assim ajuda o leitor a entender o ministério de Jesus.
CONTEXTO HISTÓRICO
Não é por acaso que a mensagem libertadora de Jesus Cristo é associada ao alvorecer do reino de Deus (1.15). Marcos dá importância especial a esse aspecto, e ressalta nos primeiros oito capítulos do seu evangelho, que formas isso assume na vida das pessoas. Elas experimentaram os milagres de cura, ficaram admiradas sobre os seus feitos poderosos e ouviram a sua pregação de arrependimento, que causava tanto o protesto dos teólogos judaicos, quanto a fé genuína de pessoas muito simples. Tudo isso acontecia na Galiléia, que para os judeus mais religiosos não era exatamente o melhor lugar para o aparecimento do Messias e para o início do reino de Deus.
Para eles aquela região era de periferia, longe do centro vital dos escolhidos. Mas Jesus veio exatamente para os que estão distantes, para os pecadores, para os gentios. A boa notícia é para eles e é isso o que importa para Marcos. Ele está escrevendo um evangelho para os gentios. É por isso que, quando ele fala de Jerusalém, da cidade do templo, do centro nervoso do judaísmo, ele relata quase exclusivamente as discussões de Jesus com os líderes dos judeus. Em Jerusalém é preparado o seu processo, aqui a sua sentença de morte é pronunciada, levada à força aos romanos e executada. O Messias de Israel morre por causa da incredulidade de Israel e assim se torna o Messias para todas as nações. É isso que Marcos aprendeu de Paulo e redescobriu nos relatos de Pedro sobre a vida de Jesus.
ÊNFASES TEOLÓGICAS
Se chamamos a Jesus de Messias de Israel, percebemos que no início do seu relato (até 8.26) Marcos economiza no uso do título Messias de outras referências à pessoa de Jesus.
Somente algumas exceções são feitas nas indicações sobre o mistério da sua pessoa (2.10,17b,19,28). No mais, o relato nessa primeira parte é marcada pelo questionamento intrigante: “Quem é este, que realiza esses poderosos feitos?” (4.41;6.2,14-16).
Mas isso muda radicalmente com a pergunta de Jesus em Cesaréia de Filipe: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” (8.29), que Pedro responde com a confissão: “Tu és o Cristo”. A partir daí Jesus fala com os discípulos sobre a necessidade do seu sofrimento (8.31; 9.31; 10.33s) e da sua morte expiatória (10.45). Ele permite que os seus discípulos mais íntimos participem da transfiguração (9.2-8), responde a questões sobre o profeta Elias, que virá outra vez (9.11-13), declara que ele mesmo é o Cristo (9.41) e prepara a sua entrada triunfal em Jerusalém (11.1-11).
Em Jerusalém, a questão da sua autoridade e de sua reivindicação de ser o Messias continua a ter relevância (11.27-33; 12.1-12; 12.35-37; 13.26,27,32). Ela é colocada pelo sumo sacerdote no interrogatório diante do sinédrio: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” Jesus responde com a declaração: “Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo poderoso e vindo com as nuvens do céu” (14.61s).
Com isso o mistério sobre a sua pessoa é revelado. Essa revelação também suscita a oposição declarada, que resulta na sentença de morte. Os outros escritores de evangelhos lidam de forma diferente com a questão do mistério sobre a pessoa de Jesus. João coloca a proclamação de Jesus como o Filho de Deus no centro do seu evangelho desde o início (Jo 1.14).
Marcos relata que Jesus ordenava aos seus discípulos e às pessoas curadas por ele, que não falassem dele. Até aos demônios ordenou que se calassem (1.34,44; 3.11,12; 5.43; 7.36; 8.26,30; 9.9). Por outro lado, na intimidade Jesus falava aos seus discípulos sobre a sua missão (7.17s; 9.30s; 10.10); às vezes era necessário explicar-lhes as parábolas (4.10ss,34b). Segundo o relato de Marcos, ele fez todo o possível para proteger o mistério do Messias. Muitos estudiosos do NT argumentam que essa não é uma forma teológica de se estruturar um evangelho.
Mas o que Marcos queria era documentar o que é imprescindível no relato sobre a vida de Jesus: Se Jesus quisesse realizar a missão que o pai celestial lhe delegara levar o reino de Deus às pessoas, ensinar os discípulos e prepará-los para a sua missão — ele precisaria de tempo.
Confessar precocemente que era o Messias teria causado o fim imediato do seu ministério. Os romanos tinham ojeriza por esse tipo de comportamento. Mesmo que em geral fossem tão tolerantes em questões religiosas, não toleravam a reivindicação do poder por alguém em ser o imperador. Um rei dos judeus não iria muito longe.
Devemos a Marcos a representação tão dramática dessa situação na vida de Jesus. Os seus leitores teriam a oportunidade de sentir esse drama e, dessa forma, entender melhor o mistério da pessoa de Jesus. Ele não era nenhum libertador político e também não queria que as expectativas pelo Messias, tão grandes naquela época, levassem o povo a aclamá-lo como tal (cf. Jo 6.15). Ele queria simplesmente cumprir a missão do seu Pai celestial, que era de entregar a sua vida como pagamento por muitos (10.45). Dessa forma ele se tornou salvador de muitas pessoas.
UNIDADE
Em todas as versões alemãs modernas temos a indicação de que há dificuldades com os manuscritos em relação aos versículos 9-20 do capítulo 16. Os versículos 9-20 não constam de alguns dos manuscritos mais antigos. Esta última observação, mesmo resumida, acerta em cheio a realidade dos fatos:
— Os versículos 9-20 não estão nos dois manuscritos completos mais antigos: o Sinaítico e o Vaticano.
Mas outros manuscritos como o Alexandrino, o Códice Efraimita “rescriptus”, o Códice Beza Cantabrigiense, cuja forma textual vem do século II, contém esses versículos. Além disso, alguns manuscritos menos importantes trazem a versão que a Gute Nachricht (Bíblia na Linguagem de Hoje em alemão) cita nas notas. Como explicar as conclusões tiradas dos manuscritos?
―Alguns teólogos estão falando de um “final falsificado” do evangelho de Marcos. Isto está fora de questão!
Essa forma de tratar o assunto parece indicar que nesse texto são transmitidos fatos inverossímeis. Basta olhar para o texto e verificar que esse não é o caso. O que está nesse texto é descrito em detalhes nos outros evangelhos.
Mesmo assim permanece a questão, se os versículos 9-20 de fato pertenceram ao evangelho original de Marcos. Isso é questionável porque os dois manuscritos citados não contém esses versículos. Em outras palavras, deve ter havido um evangelho de Marcos que terminava com o versículo 8, que não é exatamente um final de livro muito marcante. O que segue é um resumo das histórias da ressurreição encontradas nos outros evangelhos.
A maioria dos estudiosos atuais concorda que um revisor anônimo que trabalhava com os evangelhos no século II tenha acrescentado os versículos 9-20. A essa altura ele tinha acesso aos outros evangelhos e por isso pôde fazer um resumo dos seus capítulos finais. É possível reconhecer esse tipo de influência em várias versões atuais.
Mesmo assim, seria interessante refletir sobre as alternativas que F. Godet sugeriu; ele apresenta as conclusões da crítica textual que mostram, segundo ele, que esse final não fazia parte do texto original do evangelho:
1) Entre os versículos 8 e 9 há uma ruptura evidente.
2) O versículo 1 é repetido no versículo 9.
3) O conteúdo dos versículos 9-20 consiste, em grande parte, de um resumo breve dos acontecimentos da páscoa, que, nos outros evangelhos, são descritos em detalhes.
Segundo a tradição da igreja antiga, Marcos realizou parte do seu ministério em Alexandria. Será que ele mesmo escreveu o final do seu evangelho lá e depois o enviou a Roma?
Isso explicaria a ruptura no texto antes do final tanto pelo tempo quanto pela distância para que o final chegasse ao seu destino. A favor dessa posição está o fato de que o estilo de Marcos é mantido no final, como também a continuação da atitude crítica do autor em relação aos discípulos de Jesus (cf. 16.14). Esse final teria então sido acrescentado ao texto original e, juntamente com o evangelho completo de Marcos, teria sido preservado em Roma. A partir do século II teriam surgido as primeiras cópias já com esse final.
Nenhum dos quatro Evangelhos declara seu autor. Juntos, fornecem à Igreja um testemunho autorizado e coletivo da pessoa e da obra de Jesus através dos apóstolos — um tema frequentemente enfatizado em Marcos (3.14; 4.10; 5.37; 8.32 e notas).
Não há nada de inconsistente nos apóstolos se utilizarem de cooperadores tais como João Marcos, cujo o nome aparece no alto deste Evangelho, para transformar este testemunho individual e coletivo em escrita. Quanto aos relacionamentos entre João Marcos e os apóstolos, ver At 12.12,25; 13.5, 3; Cl 4.10; 2Tm 4.11; Fm 24.
Autor
A autoria de Marcos é estabelecida por certas considerações externas. Apesar de o título “Segundo Marcos” não ser original, ele aparece em todas as antigas listas canônicas e em muitos manuscritos arcaicos e acredita-se que tenha sido incluído bem no início da história do texto.
Em segundo lugar, os primeiros pais da Igreja tais como Papias (140 d.C.), Justino Mártir (150 d.C.), Irineu (185 d.C.) e Clemente de Alexandria (195 d.C.), afirmam que Marcos escreveu o segundo Evangelho. Papias refere-se a Marcos como o “intérprete de Pedro”. Outra razão para se aceitar a autenticidade da autoria de Marcos é que, nos segundo e terceiro séculos da Igreja, livros que falsamente afirmavam ter autoria apostólica geralmente atribuíam sua autoria a apóstolos bem conhecidos em vez de figuras secundárias como João Marcos.
No próprio texto, uma indicação velada da ligação de Marcos com este Evangelho pode ser observada em outra nota aparentemente irrelevante de um “certo rapaz” que fugiu quando Jesus foi preso. Alguns intérpretes sugeriram que esta é a forma de Marcos referir-se a si próprio na ocasião (14.51, nota). A evidência possível da posição de Marcos como “intérprete” de Pedro (apóstolo) é a ordem cronológica simplificada dos acontecimentos em Marcos, que se reflete na narração de Pedro daqueles fatos no Livro de Atos (At 3.13, 14; 10. 36-43).
Data e Ocasião
Se Marcos foi usado por Mateus e Lucas, ele é o mais antigo dos Evangelhos e não pode ser datado depois do ano 70 d.C. aproximadamente.
Geralmente é admitido que os Evangelhos de Mateus e Lucas foram escritos por volta de 80 a 90 d.C. De qualquer forma, se os livros de Lucas e Atos foram concluídos em torno de 62 d.C., quando termina a narrativa de Atos, Marcos seria ainda anterior.
Além dessas considerações, há base para argumentar que todos os livros do Novo Testamento foram escritos antes de 70 d.C., a data da destruição do templo em Jerusalém e, portanto, ele vem da primeira geração apostólica.
Os pais da Igreja sustentavam que Marcos foi dirigido à igreja de Roma ou, genericamente à Itália. Esta tese é reforçada pela associação de Marcos com Pedro, que em 1Pe 5.13 dirige-se aos cristãos na “Babilônia” (uma provável referência a Roma), pela influência do latim no texto grego; e pela provável referência aos membros da igreja de Roma (15.21; cf. Rm 16.13). A tradução de termos semíticos (3.17; 5.41; 15.22) e a cuidadosa explicação dos costumes judeus (7.2-4; 15.42) sugere que são previstos leitores gentios, embora sem excluir gentios convertidos ao judaísmo.
Propósito do Evangelho
O primeiro propósito de Marcos é apresentar por escrito o testemunho dos apóstolos aos fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus.
Marcos não pretende escrever uma biografia completa ou mesmo um completo relato do ministério público de Jesus. O registro histórico é simplificado, adaptando-se à estrutura básica da proclamação do Evangelho:
— o início do ministério de Jesus com João Batista; o ministério público de Jesus na Galiléia e nas regiões circunvizinhas; e sua jornada final a Jerusalém para o sacrifício na cruz.
Observemos segundo o Evangelho de João, Jesus fez pelo menos cinco visitas a Jerusalém (Marcos 1.14, nota). Mateus e Lucas registram mais dos ensinamentos de Jesus do que Marcos, mas o objetivo de Marcos é diferente. Usando detalhes históricos, ele apresenta uma narrativa ampla do que os apóstolos pregavam sobre a cruz de Cristo (At 1.21, 22; 2.22-24; 1Co 2.2).
Jesus como o Verdadeiro Israelita.
Marcos retrata Jesus como o verdadeiro Israelita cuja vida completa demonstra a necessidade de submissão à Palavra escrita de Deus (1.13, nota; 12.35-37 “O Cristo, filho de Davi”). Neste aspecto, e mais genericamente no serviço e no sofrimento (8.34-9.1), Jesus é apresentado e apresenta a si próprio como o modelo para seus discípulos.
Jesus como o Filho de Deus.
Marcos apresenta a divindade de Jesus como Filho de Deus e Filho do Homem (1.11; 2.10, 28; 3.11; 5.7; 9.7; 14.62; 15.39) brilhando através do estado ambíguo de humilhação necessário para seu chamado messiânico terreno.
Marcos também chama a atenção para o desejo de Jesus esconder sua verdadeira identidade como Messias e Filho de Deus (o assim chamado “segredo messiânico”) daqueles que inevitavelmente não o entenderiam (1.34, 44; 3.12; 5.43; 7.36,37; 8.26, 30; 9.9).
O Evangelho como o Poder de Deus.
Marcos enfatiza a importância da pregação e do ensino da mensagem do Evangelho, não apenas como uma verdade teológica mas como o “poder de Deus” (12.24; cf. Rm 1.16) sobre o mal e a doença (1.27; cf. 16.15-18).
A Missão aos Gentios.
Marcos mostra o interesse de Jesus para com os gentios e a validade da missão da Igreja para eles.
Esta ênfase aparece no perfil básico do livro, no cuidado tomado para explicar os termos e os costumes judaicos, na declaração de que o templo era uma “casa de oração para todas as nações” (11.17), e na confissão final de Cristo pela boca de um gentio (15.39).
Dificuldades de Interpretação
A questão do estilo literário do Evangelho de Marcos tem ocupado estudiosos continuamente, especialmente nos últimos duzentos anos. A questão é importante porque determina o contexto para se interpretar os elementos individuais do Evangelho. Alguns acreditam que os Evangelhos têm um único estilo literário, correspondente a uma mensagem Cristã única. Outros acham que os Evangelhos devem ser comparados às biografias gregas e romanas que combinam em uma obra literária feitos extraordinários e ensinamentos memoráveis.
Os Evangelhos diferem de tais biografias, mais notadamente na ênfase que colocam nos últimos dias e na morte de Jesus de Nazaré, e no seu silêncio sobre a maior parte de sua vida adulta. Já foi dito que os Evangelhos são narrativas da Paixão com longas introduções.
Marcos mesmo situa o começo de seu Evangelho como sendo o “Princípio do evangelho de Jesus Cristo” (1.1-4, notas), como no Antigo Testamento, e seu ponto de referência básico deve ser encontrado lá, especialmente no livro de Êxodo. Êxodo é o documento de uma Aliança cujo enfoque é o registro de como a Aliança foi iniciada sob a liderança de Moisés. Este enfoque corresponde nos Evangelhos ao significado da morte de Jesus, na qual ele derramou o sangue da Nova Aliança (14.24 e nota). O restante do Êxodo diz respeito à carreira de Moisés, o mediador da Aliança; um registro dos sinais que Deus realizou através dele para estabelecer a fé do povo de Deus no meio do Egito incrédulo; e um registro da legislação da Aliança.
Da mesma forma, Jesus chamou para si um novo povo, demonstrando sua autoridade através de milagres e sinais, e outorgou seu ensinamento como o “novo mandamento” (Jo 13.34) da Nova Aliança. Como um registro da vida e dos ensinamentos de Jesus. Marcos assume seu lugar na história da redenção como um documento canônico do Novo Testamento.
[1] termo iconografia ou iconologia esteve relacionado estritamente à história da arte até as décadas de 1920 e 1930 e, remete ao estudo da origem e formação das imagens.
[2] O gnosticismo cristão é uma fusão de símbolos bíblicos e gnósticos da salvação, que constituiu a heresia mais séria a ameaçar o evangelho em território helenista.
[3] Antecedente do gnosticismo, acreditavam que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente.
https://cursos.cgmeb.org/
https://ESTAdokimos.com/
https://SergioValentin.com.br/
por Teo.Prof Pr Sergio Valentin Grizante