3. Pecado Original: uma Análise Bíblica
4. Pecado Original: Uma Análise Teológica

Introdução
O ensino bíblico a respeito do pecado apresenta nitidamente dupla face: a depravação total da humanidade e a superabundante Glória de Deus.
Um dos mais profundos problemas da teologia e da filosofia é a existência e ação do mal. Ao longo da História, o mal tem sido motivo de estudo, pesquisa e discussão, de modo especulativo, mas também de maneira séria. Haja vista o poder do mal impor-se de modo natural na experiência humana, a preocupação com a sua origem desafia a inteligência e aguça o interesse em descobri-lo na sua essência.
Neste campo da realidade universal do mal entra a História da raça humana através da primeira criatura: o homem. Este, por seu (livre) arbítrio, cai na rede de engano do agente do mal, o Diabo, e pratica o pecado de rebelião contra o Criador.
O que é pecado? Como se manifesta? Como entrou no mundo? Essas perguntas têm deixado muitos pensadores perplexos. A abordagem teológica e também filosófica acerca do pecado e o que corretamente ensina a Bíblia sobre o assunto.
A sombra do pecado está sobre cada aspecto da existência humana. O pecado é um inimigo que seduz; por dentro, compele-nos ao mal, como parte de nossa natureza caída. Nesta vida, o pecado é intimamente conhecido, ainda que permaneça estranho e misterioso. Promete a liberdade, mas escraviza, produzindo desejos que não podem ser satisfeitos. Quanto mais nos debatemos para escapar ao seu domínio, tanto mais inextricavelmente nos enlaça. Compreender o pecado nos ajuda no conhecimento de Deus, porém o pecado distorce até mesmo nosso conhecimento do próprio eu. Mas se a luz da iluminação divina consegue penetrar essas trevas, e não somente as trevas mas também a própria luz, então poderão ser melhor analisadas.
Percebe-se a importância prática do estudo do pecado na sua gravidade. O pecado é contra Deus. Afeta a totalidade da criação, inclusive a humanidade. Até mesmo o menor dos pecados pode provocar o juízo eterno. E o remédio para o pecado é nada menos que a morte de Cristo na cruz. Os resultados do pecado abrangem todo o terror do sofrimento e da morte. Finalmente, as trevas do pecado demonstram num contraste nítido e terrível e por outro lado manifesta a Glória de Deus através da Sua ação salvadora.
Outras doutrinas sobre o pecado distorce todo o conhecimento verdadeiro e lança dúvidas sobre eles. Ao defendermos a fé cristã, defrontamos com um dilema ético: como pode existir o mal no mundo governado por um Deus onipotente e inteiramente bom? O estudo da natureza divina deve considerar o controle providencial de Deus sobre um mundo amaldiçoado pelo pecado. O estudo do Universo deve descrevê-lo como tendo sido criado bom, mas que agora geme, ansiando pela redenção.
O estudo da humanidade deve considerar a natureza humana, que se tornou grotescamente desumana e desnaturada. A doutrina de Cristo depara-se com a pergunta de como a natureza plenamente humana do Filho de Deus, nascido de uma virgem, pode ser totalmente impecável. O estudo da salvação deve declarar não somente para qual destino a humanidade é salva, mas também de qual destino foi resgatada.
A doutrina do Espírito Santo deve considerar a convicção e a santificação, levando em conta a carne pecaminosa.
A doutrina eclesiástica deve adaptar seu ministério a essa humanidade distorcida pelo pecado, dentro e fora da Igreja. O estudo dos tempos do fim precisa descrever, e também defender, o juízo divino contra os pecadores ao mesmo tempo em que aponta o fim do pecado. Finalmente, cabe à teologia praticar, evangelizar, aconselhar, educar, governar a Igreja, influir na sociedade e encorajar a santidade a despeito do pecado.
O estudo do pecado, entretanto, apresenta muitas dificuldades. É revoltante, pois focaliza a fealdade grosseira do pecado generalizado e flagrante e o logro sutil do secreto e pessoal. A sociedade pós-cristã de hoje reduz o pecado a sentimentos ou atos, desconhecendo ou rejeitando totalmente o mal. Mais insidiosamente, o estudo do pecado é frustrado pelo próprio mal, uma vez que este é irracional por natureza.
O número de conceitos extrabíblicos é imenso. A despeito de não serem bíblicos, estudá-los é importante porque nos permite:
- 1) pensar mais clara e biblicamente a respeito do Cristianismo;
- 2) defender melhor a fé e elaborar uma crítica mais correta dos outros sistemas;
- 3) avaliar mais criticamente as novidades em psicoterapias, programas políticos, abordagens educacionais, e assim por diante;
- 4) ministrar de modo mais eficaz aos crentes e não-crentes que mantêm essas e outras ideias antibíblicas.
Muitas teorias, tomando como ponto de partida o existencialismo, argumentam que os seres humanos enfrentam um dilema quando suas limitadas capacidades são inadequadas para satisfazer as possibilidades e escolhas virtualmente limitadas de suas percepções e imaginações. Tal situação produz tensão, ansiedade, assim,o pecado é a tentativa fútil de se resolver à tensão, através de meios inapropriados, ao invés de aceitar e arrepender-se no modo cristão, a fim de pensar e voltar-se para Deus. Num desdobramento mais radical, argumenta-se que a existência individual é um estado pecaminoso porque as pessoas estão alienadas a deuses da base da realidade existencialista. Antes, aparecia em forma primitiva com o filósofo judaico Filo, atualmente, expressam os teólogos liberais, como Paul Tillich, muitas das religiões orientais e o pensamento da Nova Era.
Alguns acreditam que o pecado e o mal não sejam reais, porém meras ilusões que podem ser vencidas pela percepção correta. A Ciência Cristã, o hinduísmo, o budismo, o pensamento positivo de alguns tipos de cristianismo popular, boa parte da psicologia e aspectos do movimento da Nova Era ressoam essa teoria. O pecado também tem sido interpretado em termos dos restos não envolvidos de características animais primevas, como a agressão. Os defensores dessa ideia dizem que a história do Éden é realmente um mito a respeito do desenvolvimento da consciência moral, e não uma queda.
A teologia da libertação entende que o pecado é a opressão de um grupo da sociedade por outro. Os teólogos da libertação frequentemente combinam as teorias econômicas de Karl Marx (que falam da luta entre as classes, em que o proletariado acabará vencendo a burguesia) com temas bíblicos (tais como a vitória de Israel contra a escravidão) e também identificam os oprimidos pelo emprego de termos econômicos, raciais, de distinção entre os sexos e outros. O pecado é eliminado pela remoção das condições sociais que provocam a opressão. Os extremistas propõem a derrubada violenta dos opressores irredimíveis, ao passo que os moderados enfatizam a mudança através da ação social e da educação.
Entre os mais antigos conceitos de pecado está o dualismo, a crença de que há uma luta entre forças preexistentes iguais (virtual ou realmente), os deuses do bem e do mal. As duas forças cósmicas, com sua luta, são a causa da pecaminosidade na esfera temporal. Essa ideia aparece nas religiões do Oriente antigo, como o gnosticismo, o maniqueísmo[1] e o zoroastrismo[2]. Em muitas versões do hinduísmo e do budismo bem como na sua descendente, a Nova Era, o mal é reduzido a uma necessidade amoral.
A teologia moderna vê Deus como finito, ou até mesmo em evolução moral.
E o mundo sofrerá males enquanto o lado escuro da natureza divina não for controlado, ideia típica da mistura que a teologia do processo faz com a física e o misticismo oriental. Grande parte do pensamento popular, o cristianismo desinformado. O amismo[3] e muitos sistemas moralistas sustentam que o pecado consiste somente em ações deliberadas. Pessoas moralmente livres simplesmente fazem escolhas livres. Não existe a natureza pecaminosa, apenas eventos reais do pecado. A salvação é simplesmente comportar-se melhor e praticar o bem.
O ateísmo sustenta que o mal é meramente uma probabilidade de um cosmos sem Deus. O pecado é rejeitado, a ética é apenas questão de preferência, e a salvação, mera autopromoção humanística. Embora muitas dessas teorias pareçam conter algum discernimento, nenhuma delas aceita a Bíblia como revelação plenamente inspirada.
As Escrituras ensinam que o pecado é real e pessoal; que se originou na queda de Adão, propagou-se entre a humanidade, que outrora fora criada boa por um Deus totalmente bom.
1. Hamartia
A questão do mal é tratada na Bíblia a partir do relato do livro de Gênesis sobre a Queda do homem. O relato histórico descreve o princípio da tentação ao homem e seu pecado, trazendo maldição para a sua vida pessoal e a toda a humanidade. As questões levantadas ao longo da História sobre a Queda serão aclaradas neste capítulo. Na teologia cristã, a doutrina do pecado ocupa grande espaço porque o cristianismo é a religião da redenção da raça humana. De todas as doutrinas bíblicas, três delas são de vasta amplitude porque tratam de Deus, do pecado e da redenção. Existe uma interrelação entre essas três doutrinas. É impossível tratar do pecado sem mencionar a redenção do pecador e, naturalmente, a sua relação com a sua fonte: Deus.
O termo hamartiologia deriva de dois vocábulos da língua grega, a língua do Novo Testamento: hamartia e logos, os quais significam estudo acerca do pecado. O termo é aplicável ao pecado, seja este considerado um ato, seja considerado um estado ou uma condição. O sentido do termo é que o pecado é um desvio do fim (ou propósito) estabelecido por Deus para determinado fato ou conduta humana.
O QUE É PECADO
A palavra pecado é sinônima de muitas outras usadas na Bíblia, as quais indicam conceitos bíblicos distintos sobre o pecado. São vários os termos que amplificam o conceito de pecado nas suas várias manifestações.
Encontramos no Antigo Testamento pelo menos oito palavras básicas que conceituam o pecado; no Novo Testamento, temos, pelo menos, doze outras que descrevem as várias formas de manifestações negativas relacionadas com o termo “pecado”. No étimo das palavras mencionadas no Antigo Testamento descobrimos a abrangência do pecado em suas manifestações.
Designação do Pecado no A.t.
1) Hatta’t. Este vocábulo, que aparece 522 vezes nas páginas veterotestamentárias, e seu termo correlato no Novo Testamento — hamartia — sugerem a ideia de “errar o alvo” ou “desviar-se do rumo”, como o arqueiro antigo que atirava as suas flechas e errava o alvo. Porém, o termo também sugere alguém que erra o alvo propositadamente; ou seja, que atinge outro alvo intencionalmente.
Não se trata de uma ideia passiva de erro, mas implica uma ação proposital. Significa que cada ser humano tem da parte de Deus um alvo definido diante de si para alcançá-lo. O termo em apreço denota tanto a disposição de pecar como o ato resultante dela. Em síntese, o homem não foi criado para o pecado; se pecou, foi por seu (livre) arbítrio, sua livre escolha (Lv 16.21; SI 1.1; 51.4; 103.10; Is 1. 18; Dn 9.16; Os 12.8).
2) Pesha. O sentido tradicional dessa palavra é “transgredir, rebelar, revoltar-se”. Porém, uma variante forte para defini-la implica o ato de invadir, de ir além, de rebelar-se. O termo aponta para alguém que foi além dos limites estabelecidos (Gn 31.36; I Rs 12.19; 2 Rs 3.5; SI 51.13; 89.32; Is 1.2; Am 4.4).
3) Raa. Outra palavra hebraica que tem seu equivalente no grego — como kakos ou poneros — e traz a ideia básica de “romper, quebrar; aquilo que causa dano, dor ou tristeza”. E um tipo de pecado deliberado, malicioso, planejado, que provoca e enfurece. Dá a ideia de ser “mau” (Gn 8.21; Ex 33.4; Jr II.II; Mq 2.1-3). Indica também algo injurioso e moralmente errado. São os pecados expressos por violência (Gn 3.5; 38.7; Jz 11.27).
O profeta Isaías profetizou que Deus criou a luz e as trevas, a paz e o mal (Is 45.7). É o mal em forma de calamidade, ruína, miséria, aflição, infortúnio. Deus não tem culpa do mal existente, porque, na verdade, a responsabilidade pelos pecados cometidos recai, à luz da Bíblia, sobre a criatura rebelde, transgressora e incriminada, e não sobre o Criador.
4) Rama quer dizer “enganar”; dá a ideia de prender numa armadilha, num laço. Implica, portanto, um tipo de pecado em forma de cilada para outrem cair. É uma forma de enganar e agir traiçoeiramente (SI 32.2; 34.13; 55.11; Jó 13.7; Is 53.9).
5) Pata. E um termo que dá a ideia de seduzir. O sentido literal da palavra é “ser aberto” ou “abrir espaço” para o pecado ter livre curso. No Éden, Adão e Eva se deixaram seduzir pelo engano do pecado e pelo pai do pecado (Satanás), personificado numa serpente (Gn 3.4-7).
6) Shagag. O sentido aqui é “errar ou extraviar-se”, como uma ovelha ou um bêbado (Is 28.7). E um tipo de erro pelo qual o transgressor torna-se responsável, ante a lei divina que condena o seu erro, o pecado (Lv 4.2; Nm 15.22).
7) Rasba’. Esta palavra aparece especialmente nos Salmos, com a ideia de “impiedade ou perversidade”. O sentido metafórico é o pecado em oposição à justiça (Êx 2.13; SI 9; SI 16; Pv 15.9; Ez 18.23).
8) Ta’a. Este vocábulo se refere ao “ato de extravio deliberado”. Não se trata de algo acidental, e sim algo que uma pessoa comete sem perceber o fruto negativo gerado pelos seus atos pecaminosos (Nm 15.22; SI 58.3; 119.21; Is 53.6; Ez 44.10,15).
Existem outras variantes do termo que ensinam sobre o pecado no Antigo Testamento, mas nos detivemos apenas em oito deles que ilustram a diversidade e a perversidade do pecado em suas várias manifestações.
Designação do Pecado No N.t.
No grego, a palavra “pecado” também tem vários sentidos, e alguns são correlatos com os termos hebraicos. Todos esses vocábulos do grego bíblico descrevem o pecado em seus vários aspectos. Apresentaremos uma lista menos extensa, mas igualmente proveitosa para definir incisivas das palavras mais usadas com mais frequência no N.T. acerca do pecado.
1) Hamartia. Já citada em correlação com katta’a (Hb.), seu sentido é “errar o alvo, perder o rumo, fracassar”. Indica que o primeiro homem, no princípio, perdeu o rumo de sua vida e fracassou em não atingir o padrão divino estabelecido para a sua vida. No Novo Testamento, os escritores usaram o termo hamartia para designar o pecado.
Ainda que o sentido equivalente no Antigo Testamento seja o de “errar o alvo”, nas páginas neotestamentárias a palavra em apreço tem uma abrangência bem maior — possui um sentido mais forte que a ideia de “fracasso ou transgressão”. Ela tem o sentido de “poder de engano do pecado” (Rm 5.12; Hb 3.13); é mais que um fracasso. Trata-se de uma condição responsável ou uma característica que implica culpabilidade.
2) Kakía. No grego, relaciona-se com “perversidade ou depravação, como algo oposto à virtude”. E um termo que descreve o caráter e a disposição interiores, e não apenas os atos exteriores. Dele deriva-se outra palavra, kakos, cujo sentido transcende o mal-estar físico ou doenças (Mc 1.32; Mt 21.41; 24.48; At 9.13; Rm 12.17; 13,3,4,10; 16.19; I Tm 6.10).
3) Adikía. Denota “injustiça, falta de integridade”; como alguém que abandona o caminho original. Em sentido amplo, esse termo refere-se a qualquer conduta errada e significa, ainda, “agravo, ofensa feita a alguém” (2Co 12.13; Hb 8.12; Rm1.18; 9.14). O texto cf. Romanos 1.18 descreve a injustiça como inimizade para com a verdade. Em 1Jo 5.17, o apóstolo afirma que toda iniquidade (gr. adikia) é pecado (gr. hamartia).
4) Anomia ou anomos. Denotam “ilegalidade”; tais palavras são traduzidas frequentemente como “iniquidade ou transgressão”. Porém, o sentido literal de literal de anomia é “sem lei”. Quem transgride a lei de Deus pratica a iniquidade (Mt 13.41; 24.12; ITm 1.9). O Anticristo é anomos, o iníquo. (2Ts 2.8).
5) Apistia. Deriva de pistis “crer, confiar, infidelidade, “falta de fé ou algum tipo de resistência ou vergonha”. (Hb 3.12; ITm I.I3). Em ITimóteo 1.13 está escrito: “… alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade [gr. apistia]”.
6) Aseheia. Usado por Paulo nas epístolas com o sentido de “impiedade” (Rm 1.18; 11.26; 2Tm 2.16; Tt 2.12; Jd 15,18). Portanto, a impiedade ou a irreverência são a base da aseheia.
7) Aselgeia. Denota “relaxamento, licenciosidade ou mesmo sensualidade”. Em Judas v.4 encontramos dois termos que explicam essas palavras: … homens ímpios [aseheis] que convertem em dissolução [aselgeian, libertinagem’] a graça de Deus”. Esse termo descreve, pois, uma entrega sem restrições à prática do pecado. Os especialistas o descrevem como algo maldito que domina uma pessoa e a torna impudica de tal modo que perde totalmente o senso de vergonha. O termo em análise significa, por conseguinte, “a pura e autosatisfação sem o menor pudor”, haja vista o desejo pelos prazeres tornar a sua vítima despudorada, sem restrições. As chamadas taras sexuais, a embriaguez e outras manifestações são típicas de aselgeia. (Mt 7.22; 2 Co 12.21; G1 5.19; Ef 4.19; I Pe 4.3; Jd v.4; Rm 13.13; 2 Pe 2.2,7,18).
8) Epithymia. Significa “desejo”. Porém, é o contexto da palavra encontrada no Novo Testamento que pode indicar o caráter moral do desejo, se é bom ou mau. Coisas, como: “motivo, intenção, direção e relação, revelarão o caráter moral de epithymia” (Mc 4.19; Lc 22.15; Fp 1.23; ITs 2.17). De modo geral, o vocábulo quase sempre se identifica com algo negativo e pecaminoso. Daí o significado poderá indicar “desejo incontinente, normalmente traduzido como concupiscência, paixão impura”. (G1 5.24; Cl 3.5; ITs 4.5;Tg 1.14; 2 Pe 2.10).
9) Parahasis. Aparece nas páginas neotestamentárias umas oito vezes. O significado primário do termo é “transgressão”, que dá a ideia de alguém que não respeita as leis, passando dos limites estabelecidos. Emprega-se esse vocábulo com o sentido de “desvio, violação e transgressão”. No texto de Romanos 5.14, Paulo faz uma relação entre hamartia e parahasis, ao afirmar: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão”.
O apóstolo Paulo não está dizendo que os que pecaram desde Adão até Moisés estão livres de culpa, e sim que aquelas gerações, não tendo a lei de Moisés, seu pecado era tão real quanto ao dos que tinham a lei. Em ITimóteo 2.14 está escrito que Eva caiu em transgressão (parahasis), ao ser enganada, porque ela foi rebelde contra a ordem divina. ela podia ter evitado o pecado de desobediência.
10) Paraptoma. Deriva de parapipto e significa “decair ao lado de, perder o caminho, fracassar”. De modo geral, significa “lapso moral ou uma ofensa pela qual a pessoa é responsável”. (Mt 6.14; Rm 5.15-20; 2Co 5.19; G1 6.19; Ef 2.1; Tg 5.16).
11) Planao. Tem um sentido subjetivo de pecado porque se refere àquele que se desgarra culposamente. A palavra “desgarrar” relaciona-se com a ovelha que foge do aprisco (IPe 2.25); também significa “levar, por meio do engano, outras pessoas ao mau caminho”. (Mt 24.5,6; 1Jo 1.8).
Todas essas palavras, segundo o seu étimo, descrevem o caráter geral do pecado. Porém, definiremos o pecado, também, em outras perspectivas, para que entendamos toda a sua abrangência na vida humana.
2. O Começo do Pecado
A Bíblia refere-se a um evento nos recônditos mais distantes do tempo, além da experiência humana, quando o pecado se tornou uma realidade. Uma criatura extraordinária, a serpente, já estava confirmada na iniquidade antes de o pecado entrar no mundo através de Adão (Rm 5.12; ver Gn 3). Essa antiga serpente aparece em outros lugares como o grande dragão, Satanás e o diabo (Ap 12.9; 20.2). O diabo tem andado pecando e assassinando desde o princípio (Jo 8.44; 1Jo 3.8). O orgulho (1Tm 3.6) e uma queda de anjos (Jd 6; Ap 12.7-9) também se associam a essa catástrofe cósmica.
As Escrituras também nos ensinam a respeito de outra queda: Adão e Eva foram criados “bons” e colocados num jardim idílico, no Éden, desfrutando de estreita comunhão com Deus (Gn 1.26-2.25). Por não serem divinos e porque eram capazes de pecar, era necessária uma contínua dependência de Deus. Semelhantemente, precisavam comer regularmente da árvore da vida. Isto nos é sugerido pelo convite a comer de todas as árvores, inclusive da árvore da vida, antes da Queda (Gn 2.16), e pela rigorosa proibição depois desta (Gn 3.22,23). Houvessem obedecido, teriam sido frutíferos e alegres para sempre (Gn 1.28-30). Alternativamente, após um período de prova, poderiam conseguir um estado mais permanente de imortalidade, mediante a trasladação para o céu (Gn 5.21-24; 2Rs 2.1-12) ou pela ressurreição do corpo sepultado na terra (cf. os crentes, 1Co 15.35-54).
Deus permitiu que o Éden fosse invadido por Satanás, o qual tentou Eva com astúcia (Gn 3.1-5). Desconsiderando a Palavra de Deus, Eva entregou-se ao desejo por beleza e sabedoria. Tomou do fruto proibido, ofereceu-o ao seu marido e juntos comeram-no (Gn 3.6). Eva fora enganada pela serpente, mas Adão parece ter pecado em plena consciência (2Co 11.3; 1Tm 2.14; Deus concorda tacitamente com esse fato em Gn 3.13-19). É possível que Adão tenha recebido do próprio Deus a proibição de comer da árvore e que Eva a tenha ouvido somente através do marido (Gn 2.17; cf. 2.22). Adão, portanto, tinha mais responsabilidade diante de Deus, e Eva era mais suscetível diante de Satanás (cf. Jo 20.29). Talvez seja esta a explicação da ênfase que a Bíblia atribui ao pecado de Adão (Rm 5.12-21; 1Co 15.21,22), embora, na realidade, Eva tenha pecado primeiro. Finalmente, é crucial observar que o pecado deles começou na sua livre escolha moral, e não na tentação (a que poderiam ter resistido: 1Co 10.13; Tg 4.7). Isto é, embora a tentação os incentivasse a pecar, a serpente não colheu o fruto tampouco os forçou a comê-lo. O casal optou por assim fazer.
- O primeiro pecado da humanidade abrangeu todos os demais pecados: a afronta e desobediência a Deus, o orgulho, a incredulidade, desejos errados, o desviar outras pessoas, assassinato em massa da posteridade e a submissão voluntária ao diabo.
As consequências imediatas foram numerosas, extensivas e irônicas (observe cuidadosamente Gn 1.26-3.24). O relacionamento entre Deus e os homens, de franca comunhão, amor, confiança e segurança, foi trocado por isolamento, autodefesa, culpa e banimento. Adão e Eva, bem como o relacionamento entre eles, entraram em degeneração. A intimidade e a inocência cederam lugar à acusação (jogavam a culpa um sobre o outro). Seu desejo rebelde pela independência resultou em dores de parto, labuta e morte. Seus olhos realmente foram abertos, e eles conheceram o bem e o mal (mediante um atalho), mas era pesado esse conhecimento sem o equilíbrio de outros atributos divinos, como o amor, a sabedoria e o conhecimento. A criação, confiada aos cuidados de Adão, foi amaldiçoada, gemendo pela libertação dos resultados da infidelidade dele (Rm 8.20,22). Satanás, que oferecera a Eva as alturas da divindade e prometera ao homem e à mulher que estes não morreriam, foi mais amaldiçoado que todas as criaturas e condenado à destruição eterna pela descendência de Eva (ver Mt 25.41). Finalmente, o primeiro casal humano trouxe a morte a todos os seus filhos (Rm 5.12-21; 1Co 15.20-28).
O Midrash judaico entende a advertência divina de que a morte viria quando (literalmente) “no dia em que comessem da árvore” (Gn 2.17) como uma referência à morte física de Adão (Gn 3.19; 5.5), pois um dia, aos olhos de Deus, é como mil anos (Sl 90.4), e Adão viveu apenas 930 anos (Gn 5.5). Outros a entendem como uma consequência natural do afastamento da árvore da vida. Muitos rabinos judaicos defendiam a ideia de que Adão nunca foi imortal e que sua morte teria chegado imediatamente se Deus, em sua misericórdia, não a tivesse adiado. A maioria sustenta que a morte espiritual ou a separação de Deus ocorreu naquele mesmo dia.
Não obstante a condenação, Deus graciosamente confeccionou túnicas de peles para Adão e Eva, a fim de substituir os aventais de folhas que eles haviam providenciado por sua própria iniciativa (Gn 3.7,21).
3. Pecado Original: uma Análise Bíblica
As Escrituras ensinam que o pecado de Adão afetou muito mais que a ele próprio (Rm 5.12-21; 1Co 15.21,22). Esta questão é chamada pecado original e postula três perguntas: até que ponto, por quais meios e em que base o pecado de Adão é transmitido ao restante da humanidade? Qualquer teoria do pecado original precisa responder as três perguntas e satisfazer os seguintes critérios bíblicos:
Cumpricidade
Toda a humanidade, em algum sentido, está unida ou vinculada, como numa única entidade, a Adão (por causa dele, todas as pessoas estão fora da Bem-Aventurança do Éden; Rm 5.12-21; 1Co 15.21,22).
Corrupção
Por estar a natureza humana tão deteriorada pela Queda, pessoa alguma tem a capacidade de fazer o que é espiritualmente bom sem a ajuda graciosa de Deus. A esta condição chamamos corrupção total ou depravação da natureza. Não significa que as pessoas não possam fazer algum bem aparente, apenas que nada do que elas façam será suficiente para torná-las merecedoras da salvação. E este ensino não é exclusivamente calvinista. Até mesmo Armínio (mas não todos os seus seguidores) descreveu o ”livre-arbítrio do homem em favor do verdadeiro bem”, na condição de preso, destruído e perdido… não tem nenhuma capacidade a não ser aquela despertada pela graça divina. A intenção de Armínio, assim como depois a de Wesley, não era manter a liberdade humana a despeito da Queda, mas asseverar que a graça divina era maior até mesmo que a destruição provocada pela Queda.
Assim a corrupção é reconhecida na Bíblia.
—Salmos 51.5 menciona Davi sendo concebido em pecado, ou seja: seu pecado remontava à concepção.
—Romanos 7.7-24 sugere que o pecado, embora morto, estava em Paulo desde o princípio.
— Efésios 2.3 declara que todos somos ―por natureza filhos da ira. Natureza (phusis) fala da realidade fundamental ou origem de uma coisa. Daí ser corrupto o conteúdo de todas as pessoas. Posto que a Bíblia ensina estarem corrompidos os adultos e que cada um produz o seu igual Jó 14.4; Mt 7.17,18; Lc 6.43), os seres humanos forçosamente produzem filhos corruptos. A natureza corrupta produzindo filhos corruptos é a melhor explicação da universalidade do pecado.
Embora vários trechos dos Evangelhos se refiram à humildade e à receptividade espiritual das crianças (Mt 10.42; 11.25,26; 18.1-7; 19.13-15; Mc 9.33-37,41,42; 10.13-16; Lc 9.46-48; 10.21; 18.15-17), nenhum as afirma incorruptas. Realmente, algumas crianças são até mesmo endemoninhadas (Mt 15.22; 17.18; Mc 7.25; 9.17).
A pecaminosidade de todos
A Bíblia é clara ao afirmar a universalidade do pecado, como descrito em Romanos 5.12: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” Esta passagem não deixa margem para exceções; a condição pecaminosa é uma realidade que afeta toda a humanidade. Rm 5.12 declara que “todos pecaram”. Rm 5.18 diz que mediante um só pecado todos foram condenados, o que subentende que todos pecaram. Rm 5.19 diz que mediante o pecado de um só homem todos foram feitos pecadores. Textos que falam da pecaminosidade universal não fazem exceções à infância. Crianças impecáveis seriam salvas sem Cristo, mas isto é (antibíblico Jo 14.6; At 4.12). Ser merecedor de castigo também indica o pecado.
1. A Queda de Adão e a Herança do Pecado
O pecado de Adão, o primeiro homem, teve consequências universais. Romanos 5.18 destaca que, por um só delito, veio o julgamento sobre todos os homens para a condenação. Isso implica que a humanidade herdou a natureza pecaminosa de Adão, resultando em uma inclinação inata ao pecado desde o nascimento.
2. A Condição Pecaminosa das Crianças
Embora algumas tradições religiosas defendam a ideia da inocência das crianças, a Bíblia não faz essa distinção. Romanos 5.19 afirma que, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, sugerindo que a natureza pecaminosa é transmitida a todos, independentemente da idade. Crianças impecáveis seriam salvas sem Cristo, mas essa noção contraria a verdade bíblica, conforme João 14.6: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” e Atos 4.12: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.”
3. A Universalidade da Culpa e do Castigo
A justiça divina exige que todo pecado seja punido. A própria existência de castigo é evidência do pecado, pois Deus é justo e santo, e não deixaria o pecado impune. Em Romanos 6.23, lemos que “o salário do pecado é a morte”. Assim, todos são merecedores do castigo divino, e todos necessitam da redenção que só pode ser encontrada em Cristo.
4. A Necessidade Universal de Salvação
Diante da pecaminosidade universal, surge a necessidade universal de salvação. Sem Cristo, todos estão condenados à separação eterna de Deus. A redenção oferecida por Jesus Cristo é a única solução para a condição pecaminosa da humanidade, como enfatizado em 1 João 1.9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça.”
5. Reflexões sobre a Graça e a Justiça de Deus
A compreensão da pecaminosidade de todos nos leva a refletir sobre a graça e a justiça de Deus. Enquanto a justiça divina exige a condenação do pecado, a graça de Deus oferece perdão e reconciliação através de Jesus Cristo. Este equilíbrio entre justiça e graça é central para o entendimento da obra redentora de Cristo.
Esses tópicos e reflexões ampliam a discussão sobre a pecaminosidade universal e reforçam a necessidade da salvação através de Jesus Cristo.
A salvação das crianças
Todas as pessoas, até mesmo as crianças pequenas, estão sujeitas ao castigo. “Filhos da ira” (Ef 2.3) é um semitismo que indica o castigo divino (cf. 2Pe 2.14). As imprecações bíblicas contra crianças (Sl 137.9) indicam esse fato. Romanos 5.12 diz que a morte física (cf. 5.6-8,10,14,17) chega a todos porque todos têm pecado, aparentemente até as crianças. As crianças, antes da idade de responsabilidade ou consentimento moral (a idade cronológica provavelmente varia com o indivíduo), não são pessoalmente culpadas. As crianças não têm o conhecimento do bem e do mal (Dt 1.39; cf. Gn 2.17). Romanos 7-9-11 declara que Paulo vivia até à chegada da lei mosaica (cf. 7.1), a qual fez “reviver o pecado, que o enganou e matou espiritualmente”.
O paralelo entre Adão e Eva
Embora as crianças sejam consideradas pecadoras e, portanto, passíveis do inferno, isso não significa que serão realmente mandadas para lá. Várias doutrinas indicam diferentes mecanismos para a salvação de algumas ou de todas: a eleição condicional dentro do calvinismo; o batismo das crianças dentro do sacramentalismo; a fé pré-consciente; a presciência de Deus de como a criança teria vivido; a graciosidade específica de Deus para com as crianças; a aliança implícita com uma família crente (talvez incluindo a “lei do coração”, cf. Rm 2.14,15), que toma o lugar da aliança com Adão; a graça proveniente (do latim, que vem antes da salvação) que oferece a expiação a todos que não têm idade para a prestação de contas. De qualquer maneira, podemos estar certos de que o Juiz de toda a terra faz tudo com justiça (Gn 18.25).
Rm 5.12-21 e, em grau menor, 1Co 15.21,22 enfatizam um nítido paralelo entre Adão e Cristo. Rm 5.19 é especialmente relevante: “Porque, como, pela desobediência de um só homem [Adão], muitos foram feitos [kathistêmi] pecadores, assim, pela obediência de um [Cristo] muitos serão feitos [kathistêmi] justos”.
No Novo Testamento kathistêmi tipicamente se refere a uma pessoa nomeando outra para um cargo. Nenhum ato propriamente dito é exigido para receber o cargo. Logo, pessoas que não haviam pecado especificamente poderiam ser feitas pecadoras por Adão. Paralelamente à obra de Cristo, Adão, por um ato legal, pode qualificar as pessoas como pecadoras, mesmo não havendo pecado da parte delas. (Que a pessoa precisa aceitar Cristo para ser salva não pode fazer parte desse paralelo, pois crianças incapazes de conscientemente aceitar Cristo podem ser salvas (2Sm 12.23).
Nem Todos São Iguais a Adão
Em Rm 5.14, Paulo destaca uma realidade importante sobre o pecado e a morte: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura daquele que havia de vir.” Esta passagem sugere que, embora todos os seres humanos sejam afetados pelo pecado e pela morte, nem todos pecaram exatamente da mesma maneira que Adão.
1. A Singularidade do Pecado de Adão
O pecado de Adão foi único em sua natureza e impacto. Ele não foi apenas um ato de desobediência, mas o ato que introduziu o pecado no mundo. Adão, como representante da humanidade, tomou uma decisão que teve consequências cósmicas. Sua transgressão resultou na queda da humanidade e na corrupção da criação, como discutido em Romanos 5.12. Adão, como figura prototípica, simboliza a entrada do pecado e da morte no mundo, criando uma condição de pecado herdada por todos os seus descendentes.
2. A Variedade de Pecados e suas Consequências
Embora todos os seres humanos sejam herdeiros da natureza pecaminosa de Adão, a maneira como o pecado se manifesta na vida de cada indivíduo pode variar. Paulo reconhece que nem todos pecaram da mesma forma que Adão. Alguns pecam por ignorância, outros por escolha consciente, mas todos são responsáveis por seus atos diante de Deus. O fato de que a morte reinou “mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão” indica que a morte é a consequência universal do pecado, independentemente da natureza específica desse pecado.
3. A Justiça de Deus e a Responsabilidade Individual
A Bíblia ensina que Deus é justo e trata cada indivíduo de acordo com suas próprias ações. Em Ezequiel 18.20, lemos: “A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” Este princípio sublinha a responsabilidade individual perante Deus. Embora todos sejam afetados pelo pecado original, cada pessoa é responsável por seus próprios pecados e será julgada de acordo com suas ações.
4. A Comparação com Cristo: O Novo Adão
Paulo também contrasta Adão com Cristo, referindo-se a Adão como “figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Enquanto o pecado de Adão trouxe a morte, a obediência de Cristo trouxe a vida. Assim como todos herdaram a morte através de Adão, todos podem receber a vida através de Cristo, o “novo Adão”. Em 1 Coríntios 15.45, Paulo escreve: “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.” Cristo, portanto, reverteu os efeitos do pecado de Adão para aqueles que creem.
5. Conclusão: A Diversidade da Experiência Humana com o Pecado
Embora todos compartilhem a natureza pecaminosa herdada de Adão, a experiência de cada indivíduo com o pecado é única. Nem todos pecam da mesma maneira, mas todos estão sob a condenação do pecado e da morte. Contudo, em Cristo, existe a esperança de vida e reconciliação com Deus. A diversidade na experiência do pecado ressalta a necessidade universal de um Salvador que possa redimir cada pessoa, independentemente da natureza específica de seus pecados.
Este texto explora a complexidade da relação entre o pecado de Adão e o pecado individual, destacando a justiça de Deus e a redenção oferecida por Cristo.
O Pecado de um Só Homem
Em Romanos 5.12, o apóstolo Paulo enfatiza a gravidade e as consequências do pecado original: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” Esta passagem sublinha que o pecado de Adão, o primeiro homem, não foi um ato isolado com consequências limitadas, mas um evento cósmico que afetou toda a humanidade. Através de Adão, o pecado entrou no mundo, trazendo consigo a morte como resultado inevitável.
Paulo reforça esta ideia em 1 Coríntios 15.21-22, onde escreve: “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Pois assim como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados.” Aqui, ele contrasta os efeitos do pecado de Adão com os efeitos redentores de Cristo, destacando que, enquanto a desobediência de um trouxe condenação a todos, a obediência de Cristo trouxe a esperança da vida eterna para todos os que nele creem.
A Terra Amaldiçoada
A consequência do pecado de Adão não se limitou apenas à humanidade, mas se estendeu também à criação. Em Gênesis 3.17-18, lemos a declaração de Deus a Adão após a queda: “E a Adão disse: Porque deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo.”
Aqui, vemos que o pecado de Adão resultou na maldição da terra. A criação, que originalmente era perfeita e abundante, foi sujeita à futilidade e à decadência. Espinhos e cardos passaram a fazer parte do trabalho árduo da agricultura, simbolizando as dificuldades e as lutas que agora fazem parte da existência humana.
A base para essa maldição precisa ser compreendida no contexto da responsabilidade que Adão tinha como representante da criação. Como primeiro homem, ele foi colocado no Jardim do Éden para cultivar e guardar a terra (Gn 2.15). Sua desobediência não afetou apenas sua própria condição, mas também a condição da criação que estava sob sua responsabilidade. A terra, portanto, sofre as consequências do pecado humano, refletindo a ruptura entre Deus, a humanidade e a criação.
Essa maldição, porém, não é o fim da história. Em Romanos 8.19-21, Paulo fala da criação aguardando com expectativa a manifestação dos filhos de Deus, pois “a criação foi sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” Isso aponta para a futura redenção e restauração de todas as coisas em Cristo, quando não apenas a humanidade, mas toda a criação, será renovada.
Este texto explora as profundas implicações do pecado de Adão, tanto para a humanidade quanto para a criação, e a esperança redentora encontrada em Cristo.
Na impecabilidade de Cristo é necessário reconhecer que Cristo possuía natureza humana completa, mas totalmente protegida do pecado. A justiça de Deus, que permitiu ao pecado de Adão passar a outras pessoas, precisa ser preservada.
[1] é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Manes ou Maniqueu, filósofo cristão do século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo
[2] zoroastrismo pregava a interpretação dualista do mundo, dividido entre as forças do bem e do mal.
[3] O Amismo em sua essência é a crença de que Deus não seja um ser, mas sim um sentimento, que denominamos Amor.
4. Pecado Original: Uma Análise Teológica
Muitas tentativas foram feitas para construir um modelo ou teoria teológica que encaixassem esses parâmetros complexos. Algumas das teorias mais relevantes citadas abaixo.
Conceitos Judaicos
Três correntes principais são identificadas no judaísmo. A teoria predominante é a das duas naturezas: “a boa – a má” (cf. Gn 6.5; 8.21). Os rabinos debatiam sobre a idade em que esses impulsos se manifestam, e se o impulso mau é realmente iniquidade ou apenas instinto natural. Seja como for, os maus são controlados pelo impulso mau, ao passo que os bons o controlam. A segunda teoria diz respeito aos “vigilantes” (Gn 6.1-4), anjos cujo dever era fiscalizar a humanidade mas que acabaram pecando com as mulheres. Finalmente, há conceitos de pecado original que antecipam o Cristianismo. Mais dramaticamente, o Midrash explica, por analogia, a morte do justo Moisés. Uma criança pergunta ao rei por que ela está na prisão. O soberano responde que é por causa do pecado da mãe dela. Semelhantemente, Moisés morreu por causa do primeiro homem que trouxe a morte ao mundo. Resumindo, o pecado original não é inovação paulina. Pelo contrário, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, desenvolveu-o de conformidade com a revelação progressiva.
O Agnosticsmo
Há os que sustentam não haver evidências bíblicas suficientes para uma teoria detalhada do pecado original. Qualquer assertiva quanto a pecaminosidade que vá além de uma conexão entre Adão e a raça humana é considerada especulação filosófica. Embora esteja correto que a doutrina não deve basear-se em especulações extrabíblicas, é válida a dedução das Escrituras.
O Pelagianismo
O pelagianismo enfatiza fortemente a responsabilidade pessoal na oposição à frouxidão moral. Pelágio (361-420 d.C.) ensinava que a justiça de Deus não permitiria a transferência do pecado de Adão a outras pessoas e que, portanto, todas as pessoas nascem sem pecado e com total livre-arbítrio. O pecado é disseminado exclusivamente pelo mau exemplo. Por isso há uma possibilidade real de vidas sem pecado, e elas se acham dentro e fora da Bíblia. Tudo isso, porém, é antibíblico, além de anular as conexões que a Bíblia faz entre Adão e a humanidade. A morte de Cristo é reduzida tão somente a bom exemplo. A salvação fica sendo meramente boas obras. A vida nova em Cristo não passa da antiga disciplina. Embora o pelagianismo tenha razão quando enfatiza a responsabilidade pessoal, a santidade e o fato de que alguns pecados são aprendidos, o movimento tem sido apropriadamente condenado como heresia.
O Semi-Pelagianismo
O semipelagianismo sustenta que, embora a humanidade tenha se enfraquecido com a natureza de Adão, sobrou livre-arbítrio suficiente para a iniciativa de ter fé em Deus, e então Ele corresponderá. A natureza enfraquecida é transmitida naturalmente a partir de Adão. Porém, como se sustenta à justiça de Deus após permitir que pessoas inocentes recebam uma natureza maculada e como é salvaguardada a natureza impecável de Cristo, ainda não foi bem explicado. Mais importante, em algumas formulações o semipelagianismo ensina que, embora a natureza humana esteja tão enfraquecida pela Queda, a ponto de ser inevitável que as pessoas pequem, a bondade inerente que possuem é suficiente para iniciar a verdadeira fé.
A Transmissão Natural ou Genética
Essa teoria sustenta que a transmissão da natureza corrupta baseia-se na lei da herança. Toma por certo que as características espirituais são transmitidas da mesma forma que as naturais. Tais teorias mencionam usualmente a transmissão da natureza corrompida, mas não a da culpa. Mesmo assim, não parece haver base adequada para Deus infligir numa alma virtuosa uma natureza corrupta. Nem está claro como Cristo pode ter uma natureza plenamente humana e ao mesmo tempo livre do pecado.
A Imputação Mediada
A imputação mediada entende que Deus imputou culpa aos descendentes de Adão por meios indiretos, ou mediados. O pecado de Adão o fez culpado e, como castigo, a natureza foi corrompida. E, como ninguém da sua posteridade tomou parte na sua ação, nenhum de seus descendentes é culpado. Mesmo assim, recebem a sua natureza como consequência natural de serem descendentes dele (não como julgamento). Porém, antes de cometerem qualquer pecado real ou pessoal (que a sua natureza necessita).
Deus os julga culpados de possuir àquela natureza corrompida. Infelizmente, essa tentativa de proteger Deus da inflição injusta da “culpa exclusiva” de Adão à humanidade resulta em acusar Deus de uma injustiça ainda maior; “permitir que a corrupção, causadora do pecado, enfraqueça pessoas destituídas de culpa e depois julgá-las culpadas dessa mesma corrupção”.
O Realismo
O realismo e o federalismo (ver abaixo) são as teorias mais importantes. O realismo sustenta que o “tecido da alma” de todas as pessoas estava real e pessoalmente em Adão (“seminalmente presente”, segundo o conceito traduciano[1] da origem da alma), participando de fato do seu pecado. Cada pessoa é culpada porque, na realidade, cada uma pecou. A natureza da pessoa passa então a ser corrompida por Deus, como julgamento contra aquele pecado. Não há transmissão de pecado, mas a participação total da raça naquele primeiro pecado. Agostinho (354-430) aperfeiçoou a teoria, dizendo que “a corrupção era transmitida mediante o ato sexual”.
Assim, conseguia manter Cristo livre do pecado original, porque Ele nasceu de uma virgem. W. G. T. Shedd (1820-1994) acrescenta um argumento mais sofisticado: “por baixo da vontade das escolhas de todos os dias há a vontade profunda, a “vontade propriamente dita”, que determina a direção que a pessoa segue em última análise. Foi essa vontade profunda que realmente pecou em Adão”.
— O realismo tem pontos fortes. Não apresenta o problema da culpa de terceiros, a solidariedade de Adão e da raça no pecado daquele é levada a sério e parece bem explicada a expressão “todos pecaram”, de Romanos 5.12.
Apresenta, no entanto, alguns problemas. O realismo possui todas as fraquezas do traducianismo extremo. O tipo de presença pessoal necessária em Adão e Eva distorce até mesmo Hebreus 7.9,10 (cf. Gn 46.26), a passagem clássica traducianista. A expressão “para assim dizer” (Hb 7.9), em grego, sugere seja entendido figuradamente o que se segue. Ideias como a de uma “vontade profunda” tendem a exigir e pressupor um conceito determinista, calvinista, da salvação. O realismo por si só não pode explicar porque ou em que base Deus amaldiçoa a terra.
Portanto, torna-se necessário algo como a aliança. Para a humanidade de Jesus ser isenta de pecado, Ele deve ter cometido o primeiro pecado em Adão, sendo posteriormente purificado; ou Ele não estava mesmo presente em Adão; ou Ele estava presente mas não pecou, e seus antepassados humanos diretos permaneceram sem pecado em suas gerações. Cada uma dessas opiniões apresenta dificuldades (uma alternativa é sugerida adiante). A ideia de que todos pecaram pessoalmente parece contradizer o conceito de que o pecado de um só homem faz de todos pecadores (Rm 5.12,15-19). Posto que todos pecaram em Adão, com Adão e como Adão, sugere terem pecado segundo o padrão do primeiro homem, o que contraria 5.14.
O Federalismo
A teoria federal da transmissão sustenta que a corrupção e a culpa se estendem a toda a humanidade porque Adão era a cabeça da raça num sentido representativo, governamental ou federal quando pecou.
Toda pessoa está sujeita à aliança entre Adão e Deus (a aliança adâmica ou aliança das obras – por contraste à aliança da graça). Faz-se uma analogia com uma nação que declara guerra. Seus cidadãos sofrem, quer concordem com ela ou a condenem e mesmo sem terem participado da decisão. Os descendentes de Adão não estão pessoalmente culpados até realmente pecarem, mas vivem um estado de culpa e são passíveis do inferno por ter-lhes sido imputado — de conformidade com a aliança — o pecado de Adão. Por causa desse estado, Deus os castiga com a corrupção.
Muitos federalistas, portanto, distinguem entre o pecado herdado (a corrupção) e o imputado (a culpa) da parte de Adão. A maioria dos federalistas são criacionistas no tocante à origem da alma, mas o federalismo não é incompatível com o traducianismo.
A aliança com Adão incluía sua posição de despenseiro da criação, a base perfeita para Deus amaldiçoar a terra. Cristo, como cabeça de uma nova aliança e de uma nova raça, está isento do julgamento da corrupção sendo, portanto, impecável.
— O federalismo tem pontos fortes.
A aliança, como base bíblica para a transmissão do pecado, concorda razoavelmente com Romanos 5.12-21 e fornece mecanismos para a maldição da terra e para proteger Cristo do pecado. No entanto, apresenta algumas fraquezas. Romanos 7 deve descrever somente o conhecimento que Paulo tomou de sua própria natureza pecaminosa, e não a experiência física do pecado que o matava. Mais importante que isso, a transmissão da “culpa exclusiva” de Adão é frequentemente considerada injusta
Uma Teoria Integrada
Várias das teorias acima podem ser combinadas para formar uma abordagem integrada, resultando numa teoria que faz distinção entre a pessoa individual e a natureza pecaminosa da carne. Quando Adão pecou separou-se de Deus, e isto produziu nele — como indivíduo e na sua natureza — a corrupção (inclusive a morte). Pelo fato de ele conter toda a natureza genérica, ela toda ficou corrompida. A natureza genérica é transmitida naturalmente ao aspecto individual da pessoa, o “próprio eu” (cf. Rm 7).
A aliança adâmica é a justa base dessa transmissão e também da maldição contra a terra. O “eu” não é corrompido nem culpado por causa da natureza genérica, mas a natureza genérica o impede de agradar a Deus (Jo 14.21; 1Jo 5.3). Ao chegar à idade da responsabilidade pessoal, o “eu”, lutando contra a natureza, ou corresponde à graça preveniente de Deus na salvação ou realmente peca ao desconsiderá-la, de modo que o mesmo “eu” fica separado de Deus, tornando-se culpado e corrupto. Deus continua estendendo a mão para o “eu” mediante a graça preveniente.
[1] doutrina religiosa que postula que os filhos recebem a alma dos pais no momento de sua geração
https://cursos.cgmeb.org/
https://ESTAdokimos.com/
https://SergioValentin.com.br/
por Teo.Prof Sergio Valentin Grizante